CRÔNICA/CINEMA

Carlos Saura e o Folclore Argentino

Lucia Jacobina

Carlos Saura é um dos mais renomados mestres do cinema europeu e começou sua carreira criticando em seus filmes a ditadura franquista, tendo dirigido películas lendárias como “Cria Cuervos”, “Ana e os Lobos”, “Mamãe Faz Cem Anos” e “Elisa Vida Minha”.
Com o fim do regime, Saura mudou o foco para asimportantes manifestações da cultura espanhola, cuja escolha inicial recaiu sobre a peça teatral“Bodas de Sangue” de Garcia Lorca, seguida de “Carmen”, de Prosper Mérimée e Georges Bizet, ambos de nacionalidade francesa, mas que escolheram o sul da Espanha como inspiração para seus respectivos romance e ópera, e por último “Amor Bruxo”, de Manuel de Falla. Essa trilogia contou com a parceria do inesquecível bailarino de flamenco Antonio Gades e do famoso guitarrista Paco de Lucia.

Saura continuou elegendo o universo espanhol em seus sortilégios, dramas e intensa sensualidade,corporificado na música e na dança flamenca, como matéria de outros filmes, igualmente famosos, como“Flamenco”, “Ibéria” e “Sevilhanas”, e os biográficos sobre grandes vultos das artes e das letras, a exemplo do magistral pintor “Goya”, além de Buñuel, Lorca e Dali, três dos mais importantes representantes da vanguarda no século passado, no cinema, na literatura e na pintura, reunidos na película “Buñuel y la Mesa del Rey Salomón”,até agora inédito no Brasil.

Excepcionalmente, em dois momentos se distanciou de sua amada Espanha para filmar “Tangos”, baseado na internacionalmente conhecida música portenha e “Fados”, sobre as variações do gênero português na Europa, Ásia e África.

Com referência ao tango, sempre instigou minha curiosidadeo prestígio que a melodia argentina goza no exterior, onde assisti a concertos, espetáculos, musicais nos mais renomados palcos europeus e nova-iorquinos. Se diversas outras nacionalidades cultuam o tango, mais justificado ainda seria o olhardeSaura, em função dos laços culturais e linguísticos mantidos pela Espanha com a América Latina.

Seu interesse pelo universo português deveu-se certamente ao fato de que o casamento entre as casas reais de ambos os países fez surgir um herdeiro dinástico comum que propiciou,no passado,a união ibérica. Além de outro fator determinante que se constitui na vizinhança entre a Galícia, província do norte da Espanha com Portugal, regiões que tiveram uma forte conexão histórica, pois parte do atual território português integrou por um tempoo então reino da Galícia.Houve um momento no qual se separaram, quando Portugal tornou-se independente, enquanto o reino da Galícia foi incorporado à Espanha. Até hoje, quase um milénio depois desse afastamento, cidadãos de ambos os lados da fronteira compartilham uma identidade cultural e aspiram a uma união política e territorial.

Sobretudo há a destacar que o idioma português e o galego são considerados por estudiosos do assunto como duas variantes da mesma língua. E essa circunstância explica, inclusive, o numeroso contingente de imigrantes galegos em Salvador.
Com “Argentina”, exibido atualmente no Cine Paseo, Saura voltou sua atenção para o folclore argentino presente na zona rural, cuja influência indígena e africana mesclou-se com a espanhola. Essa riqueza musical é exibida em variados números de dança e canto coloridos pelos trajes e valorizados pela coreografia dos passos que ressoam no amplo tablado, sob a direção musical do pianista e compositor Lito Vitale. O filme é todo rodado num galpão iluminado sob o efeito de poderosos refletores. Nele, danças e música se sucedem trazendo ritmos regionais desconhecidos no exterior, como a zamba, a vidala, a chacareira, o carnavalito, a copla, o malambo e o chamamé, na interpretação de alguns dos mais representativos cantores, instrumentistas e dançarinos como Jaime Torres, Soledad Pastorutti, Pedro Aznar, Liliana Herrera e o Grupo Metabombo. Duas homenagens especiais destacam o compositor e violonista Atahualpa Yupanqui e a cantora Mercedes Sosa apresentando a inesquecível composição “Tudo Cambia”.

Certamente que o documentário é um convite irrecusável da sétima arte para propiciar ao público em geral um amplo conhecimento das manifestações culturais argentinas, servindo ainda para estreitar os laços de brasileiros com o nosso vizinho do sul. Mas o filme é,sobretudo por sua originalidade,um momento raro de contemplação estética.

Lúcia Jacobina é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

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