CRÔNICA/CINEMA

“Hiroshima Meu Amor”: aula de cinema

Lúcia Jacobina

Os cinéfilos não devem perder a oportunidade de assistir a “Hiroshima Meu Amor”, filme de Alain Resnais, em exibição no Cine PaseoItaigara (Salvador) Este filme foi lançado em DVD há algum tempo, todavia conhece-lo no cinema se faz necessário por sua importância tanto estética como política.

Para o público jovem, sobretudo, Hiroshima é uma aula de cinema, na forma como o diretor constrói o enredo e vai encaixando os diálogos como se empreendesse a dicção de um longo poema, a partir do roteiro de Marguerite Duras, enquanto deixa aos movimentos da câmera, com sua inovadora técnica de filmar, a tarefa de construir a dinâmica das imagens. A trilha sonora é de autoria de Georges de laRue e Giovanni Fusco.

O filme dura exatamente 90 minutos, tempo no qual temas como guerra, amor, memória e esquecimento são tratados a partir da experiência vivenciada por um casal de amantes e de forma coletiva pelos habitantes da cidade japonesa que se tornou conhecida como a primeira vítima da bomba atômica. O tempo da ação resume-se a 24 horas, entremeado de flashbacks que permitem que o passado retorne ao presente e com ele se confunda. Nesses exatos noventa minutos, Resnais cria para o cinema uma nova linguagem, e se inscreve definitivamente entre seus grandes realizadores, continuando uma trajetória iniciada por Griffith, Eisentein e Welles.

O filme além de ser um divisor de águas na linguagem cinematográfica, é também um dos marcos da nouvelle vague, mas justamente por seu caráter político foi excluído da competição no Festival de Cannes, em 1959, para não desagradar aos americanos em virtude de sua temática pacifista e da condenação ao trágico bombardeio final da Segunda Guerra Mundial. Além da destruição de Hiroshima, Resnais denuncia também no filme a hipocrisia francesa que puniu mulheres que se relacionaram amorosamente com alemães, enquanto aceitou conviver com diversos colaboracionistas. Decorridos apenas quatorze anos da vitória aliada, esses temas ainda eram incômodos demais para a época.

O filme data de 1959 e é o primeiro longa de Alain Resnais, já famoso por curta-metragens, dentre outras, “Noite e Neblina”, “Guernica”, “Van Gogh” e “Toda a Memória do Mundo”. Com Hiroshima, Resnais conquistou de imediato a atenção da intelectualidade francesa, principalmente os aplausos do então Ministro da Cultura, André Malraux, que declarou ser “o filme mais belo que já vi ” e o reconhecimento de Claude Mauriac ao destacar “a excelente visão de Resnais e um modo de narração revolucionária”. Sendo assim, Hiroshima despontou desde o início como verdadeira obra-prima, mesmo não tendo sido oficialmente laureado. Naquele ano, a Palma de Ouro foi concedida a “Orfeu Negro”, o filme de Marcel Camus, uma co-produção franco-ítalo-brasileira, adaptação de uma peça para teatro de Vinicius de Moraes, rodado no Rio de Janeiro, com música de Tom Jobim, Luis Bonfá e Antonio Maria.

Alain Resnais é um dos mestres do cinema e continuou filmando películas excepcionais até seu desaparecimento aos 91 anos de idade, em 01 de março de 2014.

E para quem interessar, Emmanuelle Riva, a grande atriz de Hiroshima,falecida recentemente aos 89 anos, em 27 de janeiro de 2017, também está presente nas telas, em seu último e também excelente desempenho, na comédia “Perdidos em Paris”.

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Comentários

vitor on 5 julho, 2017 at 11:23 #

Um texto de primeira e à altura da grandiosidade e relevância desta obra prima de Resnais, de volta à telona, em Salvador, em exibição aqui pertinho da casa deste Bahia em Pauta, em Itaigara.Informação, análise e cultura distribuídos na medida exata, ao longo do texto. Vi Hiroshima, eu amor, pela primeira vez, no começo dos anos 70, em uma daquelas maravilhosas sessões especiais, ao sábados, no Cine Guarani (Praça Castro Alves), comandadas pelo mestre Walter da Silveira.Inesquecível, para sempre. Bravo, Lúcia!!! Chega mais!!!


Lucia Jacobina on 5 julho, 2017 at 15:35 #

Caro Vitor,

Realmente, você tem razão. Memoráveis aquelas matinais de sábado, nas quais tivemos a oportunidade de assistir a alguns belíssimos filmes. E entre eles, Hiroshima é uma experiência única que reúne as sensibilidades e os talentos de Alain Resnais,na direção, Marguerite Duras, roteiro e diálogos, Georges Delerue e Giovanni Fusco, na trilha sonora.
Por sinal, no texto, a grafia do nome de Delerue saiu truncada e somente agora pude notar.
Pois é, bem aqui no Itaigara, no último mês de junho e ainda em continuação neste princípio de julho, vem sendo exibidos excelentes filmes, desde o Festival Varilux do Cinema Francês, ao documentário de Saura sobre o folclore da Argentina, cuja capital. Buenos Ayres, você tanto ama.
Além desses, duas outras grandes películas argentinas: “O Cidadão Ilustre” e “Neve Negra”.
Vamos aproveitar e ir ao cinema.


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