Temer com Gilmar: conversas sem agenda em Brasília…


…e Brizola:pensamento segue vivo 13 anos
depois da partida.


ARTIGO DA SEMANA

Presença de Brizola: 13 anos sem ele em dias de Temer, Aécio, Lula, FHC…

Vitor Hugo Soares

“Venho e volto do campo e os bois são os mesmos: não mudam de caráter. Já os homens…”

(Leonel Brizola, ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul – um dos principais e mais polêmicos líderes políticos de seu tempo – que partiu há 13 anos, em 21 de junho de 2004. Pensamento e memória atuais e presentes em dias de Michel Temer, Aécio Neves, Lula, FHC, Gilmar Mendes, Renan Calheiros… e muita gente mais, ainda submersa, quanto aos seus verdadeiros papéis na barafunda da crise política e moral, ao lado da incerteza econômica que se aprofunda a olhos vistos. A ponto do ministro Henrique Meireles retomar, esta semana, o discurso de criação de novos impostos para tapar buracos fiscais.)

Enquanto o duro vai não vai, como no “Piston de Gafieira”, de Billy Blanco, o jornalista, de seu posto de observação à beira da Baia de Todos os Santos, verifica e anota o estranho nervosismo em expansão. A começar pela inquietante movimentação em Brasília: nos palácios do governo Temer, que mais parecem cenários dos filmes de assombração com Lon Channey, o homem das mil caras, na era do cinema mudo.

Ou no pleno do Supremo Tribunal Federal, tomado por longas e seguidas sessões que rolam durante dias, marcadas por ácidos debates (ofensivos mesmo em vários momentos) carregados de suspeitas atiradas, aqui e ali, sobre situações e sobre biografias de pessoas e história de instituições, durante debates de questões jurídicas de alta complexidade técnica, e de interesse da sociedade, que cabem aos togados decidirem. Mas acabam, em vários momentos, virando alguma coisa mais parecida com “briga de feira”, disputas de egos inflados ao pé de fogueiras de vaidades intelectuais. Ou, o que é pior, meros confrontos em defesa de interesses pessoais, de privilégios de grupos ou corporações e poderosos da vez.

Incrível, por exemplo, para citar apenas um caso (mas exemplar em termos de maus exemplos) o daquele advogado que, na sessão de quinta-feira, interrompeu com uma “questão de ordem”, a presidente da corte suprema de Justiça do Brasil, Cármen Lúcia. A ministra, depois de emitir e justificar o seu voto, tentava dar o resultado das complicadas e cruciais votações que tomaram quatro sessões plenárias e, finalmente, decidiram pela permanência do ministro Edson Fachin como relator da Lava Jato no STF e preservaram a importância do instituto da colaboração premiada – e o decisivo papel da Procuradoria Geral da República – contra tramóias e armadilhas em andamento.
Defensor do ex-deputado Rocha Loures, o advogado interrompeu Cármen Lúcia para pedir “clemência” para seu cliente, preso preventivamente e recolhido a uma cela da carceragem da sede da Polícia Federal, em Brasília. Apanhado depois de receber flagrantemente, em cenas filmadas, que chocaram o país e o mundo, mala cheia com 500 mil reais em propina – e promessa de muitas outras – paga pela JBS (Friboi) de Joesley Batista, no escândalo clamoroso que cobre de suspeitas e denúncia o presidente Michel Temer.

Bafafá e tiroteio sem fim que vem também da Câmara e do Senado, em um Congresso com a polícia e a justiça atrás, à beira de um ataque de nervos. E das ruas das mais importantes cidades brasileiras, atravancadas e tumultuadas nesta sexta-feira, último dia de junho, por grupos sindicais que aprontam um simulacro de greve geral, – principalmente, em defesa do imposto que sustenta suas entidades de classe – e contra a reforma trabalhista pretendida pelo claudicante governo Temer, que mal se sustenta nas pernas. Atos, fatos, gemidos e sussurros que transmitem aquela incômoda sensação do repentino recuo do mar, antes do avanço devastador de um tsunami.

Depois de um encontro de dirigentes e intelectuais liberais, em Lisboa, o fundador do PSDB e mais acatado líder tucano, assina artigo no influente jornal espanhol El País (edição brasileira) e cobra renúncia de Temer, “em ato de grandeza”. Em Brasília, o ministro do Supremo, Gilmar Mendes, recebe em sua residência, para um jantar “fora de agenda”, o presidente Michel Temer, que vai acompanhado dos ministros de proa de seu governo, Moreira Franco (que Brizola chamava de gato angorá) e o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, os três mais que embaraçados nas teias da Lava Jato. Renan Calheiros, no Senado, bate firme na cabeça do governo, comandado por seu partido, larga a liderança do PMDB, e dá sinais de que está pulando do barco. Lula, às vésperas de ser sentenciado pelo juiz Sérgio Moro, toca, como pode, seu projeto político e plano de poder (ou de escapatória?), com vistas às presidenciais de 2018. Durma-se com um barulhos destes!.

“Amaldiçoado seja aquele que pensar mal dessas coisas”, dirão provavelmente os irônicos franceses. “ Estou pensando em criar um vergonhódromo para políticos sem-vergonha, que ao verem a chance de chegar ao poder esquecem os compromissos com o povo”, repetiria, talvez, o ex-governador que partiu em junho de 2004, reconhecidamente um notável frasista da política no Brasil. Prefiro, no entanto, antes do ponto final deste artigo sobre memória e realidade, recordar de Leonel Brizola do encontro pessoal do jornalista com o gaúcho de Carazinho em uma fazenda no interior do Uruguai no tempo do exílio do ex-governador do Rio, quando o autor destas linhas trabalhava no Jornal do Brasil.

Ele dirigia uma Kombi com destino à localidade de Durazno onde fazia entrega de leite produzido em sua fazenda com dona Neuza . Parou o carro em frente a uma porteira que separava propriedades, e enquanto abria a cancela, disse, comparando as situações de Portugal e Brasil, na época:

“Tu sabes que venho de longe, baiano. Guarde de cabeça, sem precisar anotar no papel o que vou te dizer aqui e depois podes me cobrar. Em menos de 20 anos Portugal estará livre dos reflexos mais danosos do recém-extinto regime de Salazar. No Brasil, os danos da ditadura serão muito mais perversos e duradouros, levarão mais de 50 anos para passar”. Ao verificar meu ar de espanto, explicou: “isso será conseqüência da falta de perspectiva histórica de nossos políticos e dirigentes. No Brasil, a visão em perspectiva de políticos e governantes, em geral, não passa cinco centímetros além do próprio umbigo”.

Treze anos depois de sua partida, observando “o quadro que aí está”, como ele também costumava dizer, é inevitável reconhecer: que falta faz Brizola! Saudades!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia e Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Chico Bruno on 2 julho, 2017 at 7:01 #

No Brasil, infelizmente, a política é oligarca na esquerda, no centro e na direita.


Chico Bruno on 2 julho, 2017 at 7:03 #

No Brasil, infelizmente, a política é feita de pai para filho na esquerda, no centro e na direita.


Carlos Volney on 2 julho, 2017 at 12:32 #

Mestre Vitor, pra “variar um pouco”, seu artigo é não só brilhante como antológico.
Você retrata com absoluta fidelidade a situação de nossa Pindorama e homenageia nosso saudoso engenheiro, de quem também fui admirador, cuja estirpe não encontra semelhança mínima nos políticos de hoje.
De resto, você não poderia ter sido mais feliz ao colocar no mesmo “saco” Temer, Aécio, FHC, Lula, Gilmar Mendes e Renan
Calheiros. Abstraído citar outras “qualidades” de que são portadores, eles se equivalem como farsantes…


vitor on 2 julho, 2017 at 13:17 #

Carlos Volney e Chico Bruno

Faço palavras minhas, as que acabei de ouvir há pouco na entrevista do ministro Luiz Roberto Barroso ao jornalista Roberto D`Ávila, na Globo News: “nosso destino é seguir em frente”. Obrigado aos dois. Tim Tim!!!


Conrado on 2 julho, 2017 at 17:31 #

Lendo-se site de notícias, blogs, jornais online a impressão que se tem:
— Muita bateção de cabeça, inclusive entre jornalistas experientes e vividos:
** Hoje no Correio Braziliense:
– Entrevista com o Historiador Antonio Barbosa, Professor da UNB
*** Pergunta CB: Tendo em vista que é a primeira vez que um presidente é acusado por crime comum durante o mandato e que há um movimento pedindo eleições diretas, o que o senhor acredita que vai ocorrer nos próximos dias?
Resposta do Historiador: Em 1961, por muito pouco o país não entrou em guerra civil. Foi a renúncia de Jânio Quadros, e os militares decidiram que o vice constitucionalmente eleito (João Goulart) não tomasse posse Leonel Brizola, que era um dos grandes nomes da esquerda, se transformou num herói da resistência da legalidade. Em 1963, esse mesmo Leonel Brizola começou a gritar “reforma agrária, na lei ou na marra”. Quando ele fala “na marra”, está dando um chute no Estado democrático de direito. Veio o Golpe de 1964 e o povo aplaudiu. […]
Considerando que o Historiador se referiu a denúncia “como inepta” e que “achava que chegaria algo mais consistente” é de esperar que o Procurador não chegue a tanto “processar o Presidente na marra” imaginando que vai levar com apoio da gritaria das redes sociais. A conferir!


Taciano Lemos de Carvalho on 2 julho, 2017 at 18:44 #

Trecho da entrevista de Antonio Barbosa ao Correio Braziliense deste domingo (2/7), página 5 do primeiro caderno:

“E na sua opinião, Temer tem condições básicas de continuar como presidente da República?

Não. Ele está muito aquém. Mas a questão é que nós pretendemos viver num estado democrático de direito. Nesse estado, as leis têm que ser cumpridas. O problema maior é que o governo Michel Temer se mostrou desde o início pessimamente mal estruturado, exceção feita à área econômica. E sob esse aspecto, ele está conseguindo quase um milagre, porque, no trágico governo Dilma, a economia brasileira foi completamente desestruturada. Mas a estrutura política do governo Temer é incompreensível e inaceitável. Politicamente falando, vai se tornando insustentável.”

Destaco: “…O problema maior é que o governo Michel Temer se mostrou desde o início pessimamente mal estruturado, exceção feita à área econômica. E sob esse aspecto, ele está conseguindo quase um milagre…”

Concordo com o historiador da UnB. O governo Temer realmente se mostrou pessimamente estruturado, haja vista a dezena de ministros que saíram ou permanecem no governo sob a acusação de corrupção, propinas. Aí na Bahia temos um, o da Torre de Gedel. Quanto a exceção feita à área econômica, que sob esse aspecto o governo Temer está conseguindo um milagre, tenho a lamentar a miopia do historiador quanto à economia. Verdade que se está conseguindo um milagre, de acabar de destruir a boa economia. Mas para os bancos, e só para o sistema bancário, a economia continua cada vez melhor. Foi assim no período do PT (e também do FHC), mas agora está está sendo mais e mais institucionalizado o saque.

Quanto ele, o historiador, considerar a denúncia da PGR, como alguma coisa inepta, eu tenho que dar razão a Rodrigo Janot quando diz: “Não é possível que, para eu pegar um picareta, eu precise tirar uma fotografia dele pegando a carteira do bolso de outro. Ninguém vai passar recibo. Esse tipo de prova é satânica, é quase impossível.”

A entrevista ao Correio Braziliense pode ser lido no link:
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2017/07/02/internas_polbraeco,606544/entrevista-com-professor-de-historia-da-unb-antonio-barbosa.shtm


Taciano Lemos de Carvalho on 2 julho, 2017 at 18:49 #

O link postado acima, leva ao Correio Brasiliense. O link a seguir já leva diretamente à entrevista do historiador da UnB. E são muitos os historiadores da UnB


Taciano Lemos de Carvalho on 2 julho, 2017 at 18:49 #

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