CRÔNICA

No São João, framboesa; no São Pedro, red bull

Janio Ferreira Soares Janio Ferreira Soares

Entra ano e sai ano e a polêmica sobre a descaracterização dos festejos juninos continua. A última querela aconteceu por esses dias quando Elba Ramalho bradou que, do mesmo modo que forrozeiros tradicionais não se apresentam na Festa do Peão, em Barretos, os sertanejos não deveriam invadir o nosso São João, onde, reza a tradição, o ritmo que mais combina com as ternas noites de junho é o bom e velho forró pé de serra.

A resposta a Elba veio na mesma pegada das bizarras canções dessa moçada do breganejo e da sofrência, que não tem nenhum problema em rimar rapariga com motel e uísque com red bull, para delírio de milhares de adolescentes no padrão: “meninos com iphones vestem camisetas justas para realçar braços bombados e impressionar meninas também com iphones usando short e salto alto para destacar batatas e coxas igualmente malhadas”. #Vaimeubatera! #Urrú!

Mas como eu ia dizendo, o revide à declaração de La Ramalho veio através da jovem e simpática Marília Mendonça, que atualmente é uma espécie de Safadona de saias e anda arrastando multidões por onde passa. E foi exatamente numa dessas apresentações que ela resumiu todo esse quiproquó numa frase pra lá de certeira: “vai ter sertanejo no São João, sim, porque é o público que quer”. Filosofemos, pois.

Se você é prefeito de uma cidade e pretende atrair turistas para incrementar a economia de seu município, mas também não quer deixar morrer as velhas tradições juninas, vai contratar quem? Fagner ou Solange Almeida, ex-Aviões do Forró? Gabriel Diniz ou Jorge de Altinho? O arrocha de Ciel Rodrigues ou os poemas cantados de Flávio Leandro? A resposta, no caso de Paulo Afonso, é: todos eles. Explico.

O nosso São João começou na quinta-feira, 22/06 e vai até o domingo, 25/06, e está acontecendo numa aconchegante vila reproduzindo uma cidadezinha do interior, onde só se apresentam artistas com o resfolego da sanfona correndo nas veias. Já o São Pedro é realizado uma semana depois, no BTN, bairro com mais de 45 mil habitantes e local onde estarão alguns desses artistas que atualmente lotam os espaços por onde passam, para alegria da garotada, barraqueiros, ambulantes e comerciantes em geral.

Sendo assim, exatamente hoje, 24/06, aqui em Paulo Afonso, com flashes ao vivo da Globo Nordeste, teremos Fagner recordando aos fãs da boa música e da poesia de Cecília Meireles, versos de um tempo em que a moda era ter no mato um gosto de framboesa. Em contrapartida, pra moçada que adora selfie, na próxima semana é a hora de postar nas redes sua foto com um red bull numa mão e um red label na outra, enquanto “Solanja” canta pra galera ao som de: “vai, Riquelme!”. A escolha é sua. Eu, como cultivo canteiros e cecílias, fecharei os olhos de saudade.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco e na porta de entrada do Raso da Catarina.

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