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Temer na Noruega:reprimenda da primeira-ministra
sobre corrupção e desmatamento…


…e Janot com Fachi:vitórias no pleno do Supremo

ARTIGO DA SEMANA

Fogueiras de Junho: Supremo, Temer na Noruega e o amargo retorno

Vitor Hugo Soares

Ligo a televisão na quarta-feira, 21 de junho, e vejo no chão o grande palco que o governo da Bahia, do petista Rui Costa, montava em ritmo frenético no sagrado espaço do Terreiro de Jesus (área tombada pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, no Centro Histórico de Salvador) para receber a apresentação de artistas de grosso calibre da música sertaneja (do forró nordestino em especial), ao lado de nomes emergentes da moda, contratados para animar os folguedos de São João, na capital baiana.

Quatro pessoas feridas, levadas para hospitais de urgência, além das esfarrapadas desculpas oficiais de praxe, – para o serviço mal feito e a incompetência, – resultaram em ambiente de frustração e dúvidas sobre as causas e responsabilidades pelo desabamento e a manutenção do programa festivo, para comemorar o santo de junho e obtenção dos dividendos políticos (e eleitorais) que alguns ainda esperam com esse tipo de promoções.

Algo semelhante (na pressa e na incompetência, com as devidas proporções quanto ao tamanho dos danos e prejuízos), ao desabamento relativamente recente de parte do prédio do Centro de Convenções da Bahia (uma majestosa e revolucionária construção arquitetônica entregue aos baianos, da capital e do interior, pelo governo de Roberto Santos), durante obras de restauração. O desastre, cercado de suspeitas ainda não de todo esclarecidas pelas investigações, mantém Salvador, um dos mais destacados destinos de visitação do País, desfalcado de seu mais importante centro de eventos turísticos, sociais e de negócios.

Sobre o desabamento do palco que era instalado no Terreiro de Jesus, esta semana, o que se sabe de certo é que se deu na tarde de terça-feira. Durante a ventania que antecedeu as chuvas do começo de inverno nordestino de 2018, e derrubou tudo, como castelo de cartas ou de areia. A começar pelo ânimo dos governistas estaduais. Muitos deles – políticos, marqueteiros e alquimistas conselheiros do poder instalado no Palácio de Ondina – apostavam (e seguem apostando), no patrocínio da festa como largada da campanha eleitoral deste ano, que promete por estas bandas carnavalescas e juninas do País, um de seus mais empolgantes confrontos. De um lado, em tentativa de reeleição, Rui Costa (afilhado do ex-ministro Jacques Wagner, abençoado por Lula e Dilma e, diga-se, até aqui bem avaliado nas pesquisas entre os gestores estaduais). Do outro, ACM Neto, do DEM (respaldado pelo PSDB, do ministro Antônio Imbassahy, e do PMDB do afastado ex-ministro Geddel Vieira Lima.

Este, que já andava em palpos de aranha desde o escândalo do prédio de 31 andares, construído em área tombada pelo IPHAN no Porto da Barra, denunciado por Celero, ex-ministro da Cultura, antes de renunciar ao cargo, complicou-se ainda mais. Depois da divulgação do conteúdo da gravação de Joesley Batista (JBS-Friboi) no imoral diálogo com o presidente da República, altas horas da noite, nas dependência do Palácio do Jaburu e da mala cheia de dinheiro da corrupção e da propina que o deputado Rocha Loures andou arrastando por aí antes de ser preso.

Para Geddel e, principalmente, para Michel Temer, a deduzir pelos resultados da votação dos ministros do Pleno do Supremo, nestes últimos dias, que reforçaram em muito as posições dos ministros Edson Fachin (confirmado como relator ) e do chefe da Procuradoria Geral da República, Rodrigo Janot, a quem caberá a palavra definitiva no caso da delação premiada de Joesley (JBS-Friboi) à Lava Jato. 7 a 0, até aqui. E , tudo indica, há promessas de dores de cabeça ainda maiores para o mandatário do Planalto, de volta de sua infeliz e malfadada viagem à Rússia e à Noruega.

O prefeito de Salvador, mais chegado ao Carnaval e à Santo Antônio que ao santo do carneirinho (São João), segue até aqui sobranceiro à crise em curso e à que parece se avizinhar, ainda mais forte. Além de muito bem avaliado entre os melhores gestores de grandes capitais do País, aparece disparado nas pesquisas preliminares da preferência dos eleitores para a eleição estadual do ano que vem. Quanto ao mandatário maior da República, de quem não se conhece o santo protetor, já parecia perturbado, pensamento distante e meio grogue, – na entrevista coletiva que deu em Oslo, antes da viagem de volta ao Brasil, – diante da sucessivas pauladas recebidas em cinco dias de viagem.

Provavelmente em razão da noite perdida, depois de desastrosa notícia sobre a suspensão das importações de carne fresca, ou “in natura” do Brasil pelos Estados Unidos, Temer parecia zonzo na Noruega nesta sexta-feira. Com motivos de sobra, além das amargas lembranças pessoais de Joesley. Duro golpe na ainda lenta e trôpega recuperação da economia. Afinal, o setor movimenta cerca de 180 bilhões de reais por ano. Mesmo não sendo o maior mercado do mundo, do produto para o Brasil, o comércio com os Estados Unidos funciona como uma espécie de “passaporte” para outros países. Um golpe difícil de absorver, ainda mais nas circunstâncias vigentes.

O fato é que Temer, nesta viagem, pareceu fortemente com a sua antecessora, Dilma Rousseff. Confuso, desatento, errante. Principalmente depois que a primeira – ministra da Noruega, Erna Solberg, em severa reprimenda, se disse muito preocupada com as revelações da Lava Jato sobre o avanço da corrupção, e cobrou “limpeza” do governo brasileiro, que criticou também pelo recrudescimento dos desmatamentos e devastação ambiental na Amazônia, em cujo combate o governo de Solberg aplica elevados recursos , que ela ameaçou cortar pela meade. Temer, durante compromisso oficial, chamou o soberano norueguês de “Rei da Suécia”, confundiu com o Congresso brasileiro, a visita que faria, em seguida, ao Parlamento da Noruega. E assim foi, de tropeço em tropeço, o mandatário brasileiro, até tomar o avião de volta a Brasília nesta sexta-feira.

Todos os indícios apontam para uma semana junina, de São Pedro, que se aproxima, ainda pior para Michel Temer e muitos encalacrados que compõem seu ministério e as forças que o apoiam no Congresso, declinantes a olhos vistos nos últimos dias. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Lucia Jacobina on 24 junho, 2017 at 10:22 #

Parabéns, Vitor, pela síntese perfeita das peripécias de nossos governantes em âmbito local, nacional e internacional.
Na Bahia, nada de novo aconteceu na política desde a ditadura. Nosso povo continua refém das mesmas lideranças que se movimentam da direita para a esquerda sem nenhum critério.
E no plano internacional, assistimos a dois estilos de política, enquanto Putin levou Temer ao teatro, Erna Solberg discursou em alto e bom som que sabia com quem estava lidando. Depois de tanta vodka e acqua vita, vamos ver se, para completar a ressaca, Temer ainda voltou com disposição para um licor de genipapo…


Taciano Lemos de Carvalho on 24 junho, 2017 at 11:50 #

O ideal é que Temer na volta ao Brasil pegasse suas malas, juntamente com “seus malas”, e fosse embora para São Paulo, de preferência pra área das Docas de Santos.


Cida Torneros on 24 junho, 2017 at 11:58 #

Perdido no Paraíso nórdico. Nosso “lost” Temer. Imagem contundente de um aspirante de mandatário levando “sabão ” da norueguesa preocupada que tira verbas e parece atenta ao que se passa debaixo da linha do Equador. Suécia? Ora…confusão…


Taciano Lemos de Carvalho on 24 junho, 2017 at 12:55 #

Suécia? E ainda só falam das trapalhadas de Dilma.


Taciano Lemos de Carvalho on 24 junho, 2017 at 17:15 #

PF descobre vídeo histórico do primeiro “investimento” feito pela Friboi.

https://youtu.be/O3caxYX5zPY


Tom Tavares on 26 junho, 2017 at 3:46 #

Nada mais preciso, Vitor: um vice de Dilma não poderia ser grande coisa. Qualquer coisa que fosse, seria mais que a titular.


vitor on 26 junho, 2017 at 13:02 #

Tom Tavares:
É isso aí, maestro. Sua leitura e comentários são sempre honrosos e significativos para mim. Obrigado e forte abraço.

É


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