DEU NO JORNAL O GLOBO/ REPRODUZIDO NO ESPAÇO DA AUTORA TEATRAL E CRONISTA ANINHA FRANCO, NO FACEBOOK.

COLUNA/OPINIÃO

Hora de desligar aparelhos

Fernando Gabeira

No terceiro ano da Lava-Jato, um assessor do presidente é filmado correndo com uma mala preta. No interior da mala, R$ 500 mil de uma pizzaria. Antigamente, tudo acabava em pizza. Aqui começou numa pizzaria chamada Camelo. Depois da delação da JBS, Temer entrou em guerra com a Lava-Jato. Os métodos são os mesmos, politizar a denúncia, investir contra juízes e investigadores. Os detalhes da denúncia da JBS são conhecidos, foram repetidos ad nauseum na televisão. A iniciativa de Temer ao partir para o confronto marca mais um capítulo de uma resistência histórica à Lava-Jato.

Nas gravações divulgadas, Lula foi o primeiro a articular uma reação, criticando os procuradores, confrontando Sérgio Moro, politizando ao máximo a luta ao que chama de República de Curitiba. Lula tentou articular uma reação. Ele percebeu que todo o sistema politico partidário poderia ruir. Não conseguiu avançar. Havia a possibilidade do impeachment, e o tema da luta contra a Lava-Jato caiu para segundo plano.

Num outro compartimento, as gravações de Sérgio Machado mostram a cúpula do PMDB tramando para deter as investigações. Nas intervenções de Romero Jucá fica claro que a expectativa era deter a sangria. Mas ao mesmo tempo era preciso derrubar o PT. Possivelmente, julgavam-se mais capazes, uma vez no poder, de realizar o sonho de preservação do sistema.

As intervenções de Aécio Neves, presidente do PSDB, são mais ambíguas. Aécio não assumia publicamente que era contra a Lava-Jato. No entanto, articulava leis para neutralizá-la, seja pela anistia ao caixa dois ou pela Lei de Abuso de Autoridade. No terceiro ano da Lava-Jato, Aécio é gravado tratando de dinheiro com Joesley Batista, um empresário, por boas razões, investigado em várias frentes.

A resistência do velho sistema foi se esfacelando até encontrar, agora em Temer, o último general, com uma tropa de veteranos da batalha de Eduardo Cunha, como o deputado José Carlos Marin. É um presidente impopular que se escora apenas na cativante palavra estabilidade. A mesma que Gilmar Mendes utiliza ao absolver a chapa Dilma-Temer diante de provas que o relator Herman Benjamin classificou de oceânicas.

Que diabo de estabilidade é essa? O Tribunal Superior Eleitoral, num espetáculo caro aos cofres públicos, perdeu toda a credibilidade. Mas mesmo ali, julgando um fato passado, a Lava-Jato estava em jogo. Não só porque desprezaram provas da Odebrecht.

O ministro Napoleão Nunes mostrou-se um bravo soldado do sistema em agonia. Referindo-se aos seus delatores, falou na ira do profeta passando a mão pelo pescoço, como se fosse decapitá-los. Num mesmo espetáculo, soterram provas contundentes, e um deles se comporta, simbolicamente, como se fosse um terrorista do Estado Islâmico.

Nada mais instável do que abalar a confiança na Justiça. As reformas necessárias, os 14 milhões de desempregados são uma realidade inescapável. Mas a estabilidade que o núcleo do governo está buscando é uma proteção contra a Lava-Jato. Oito ministros são investigados. O chamado núcleo duro, Moreira Franco e Padilha se agarram ao foro privilegiado.

Olhando o futuro próximo, não é a estabilidade que vejo, e sim turbulência. Um presidente desmoralizado pelos fatos policiais vai buscar todas as maneiras de se agarrar ao poder. Quando tiver de hesitar entre a estabilidade fiscal e a do seu cargo, certamente lançará mão de pacotes de bondades.

Mesmo um presidente indireto teria de seguir a sina de Lula, Renan, Jucá, Aécio e do próprio Temer. Uma das condições para que o Congresso escolha alguém é a promessa de proteção contra a Lava-Jato. Tarefa inglória. Todos falharam até agora. Por que um presidente nascido de uma escolha indireta teria êxito?

O seu trabalho seria desenvolvido num período eleitoral. A experiência mostra que nesses períodos a sociedade tem um peso maior sobre as decisões do Congresso.

Isso completa a visão de que não há estabilidade à vista, mas uma rota de turbulência. A escolha portanto é voar para frente ou para trás. Desligar ou não os aparelhos do velho e agonizante sistema politico partidário, ancorado na corrupção.

A ausência das manifestações de rua não significa que a sociedade perdeu o interesse. Pelo contrário, o impacto de espetáculos como o do TSE tem um longo alcance. É muito provável que, num momento em que achar necessário, vá comparecer com a célebre voz da rua. Se tudo o que aconteceu passar em branco, corremos o risco de nos transformar numa nação de zumbis. Com a exceção de praxe: os índios isolados da Amazônia.

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Comentários

rosane santana on 19 junho, 2017 at 20:29 #

Acabei de ler um livro maravilhoso: “Media and Political Engagement”, de Peter Dhalgren, professor de Media e Comunicação da Lund University, na Suécia. É dessas leituras em que nada é supérfluo. Uma potência de livro. Entre as análises que mais me pareceram pertinentes está uma crítica ao jornalismo, ao focar exageradamente sobre os atores políticos, quando para as páginas de economia, com a entrada em cena do neoliberalismo e o conceito de Estado mínimo, nos anos 80, foram deslocadas questões sociais e de interesse da cidadania. Assim, enquanto lança suspeita e enquadra os atores políticos de maneira severamente crítica, o jornalismo dá passagem para o vale tudo do mercado, como uma coisa que não diz respeito, de perto, à sociedade. Este artigo de Gabeira comete este equívoco. A Capa da Revista Exame, por exemplo, trouxe Joesley Batista como um herói nacional e assim são muitos. Note-se que, enquanto o país se debate com sucessivos escândalos da classe política, a sociedade deixa de levantar uma questão essencial: o caráter corrupto, não empreendedor do nosso empresariado, tradicionalmente avesso a riscos e sempre crescendo à sombra do erário público, desde a fundação do Estado nacional, para atender aos interesses dos cafeicultor do Vale do Parnaíba. O avanço desavergonhado sobre garantias sociais estabelecidas pelas leis trabalhistas e pela Previdência, para oferecer uma mão de obra essencialmente barata, quase escrava, quando o empresariado deve bilhões a Previdência etc. Precisamos mudar o nosso foco, num contexto em que a esfera política perdeu parte do poder e dos centros de decisão, transferido para a esfera econômica, através de agências e outros organismos descentralizados. E uma reforma política, portanto, não mudará muita coisa.


rosane santana on 19 junho, 2017 at 20:31 #

Correção: Vale do Paraíba.


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