FHC (com Temer): diz e se desdiz sibre apoio a governo…


…Ulysses no Campo Grande: rompendo o cerco na Bahia

ARTIGO DA SEMANA

Voz de FHC: a metamorfose dos tucanos na era Temer

Vitor Hugo Soares

O pensador e poeta José Ortega y Gasset, reconhecido mundialmente como um dos mais importantes ensaístas do século 20, escreveu certa vez: “a pior das crises é a crise do dicionário”. Mestre da política e da palavra, o saudoso e sempre atual deputado Ulysses Guimarães, discípulo intelectual do filósofo espanhol, gostava do pensamento e o citava com freqüência. Acrescentava então o seu toque pessoal e intransferível de cultura e de saber: “é esta a crise que infelicita o Brasil”, dizia o senhor e guia da Constituição de 1988, até o desastre, quando o helicóptero em que ele viajava, em dia de tempestade, caiu no mar. Para muitos, doutor Ulysses segue “encantado”, até ; hoje, no fundo do oceano de onde, vez em quando emite sinais de luz.

Repórter do Jornal do Brasil, na sucursal de Salvador, ouvi pessoalmente a citação e o comentário (ao lado de Rômulo Almeida e do ex-deputado constituinte, e falecido líder oposicionista petroleiro baiano, Mário Lima), na noite de autógrafo do concorrido lançamento do livro “Rompendo o Cerco”, realizada na sede do antigo MDB da Bahia, na praça do Campo Grande: cenário de uma das mais corajosas e gloriosas passagens da marcante e decisiva atuação do líder oposicionista, na linha de frente da resistência democrática, contra a ditadura e pela plena liberdade de expressão no País.

Se precisar de testemunha, posso chamar o jornalista Ricardo Noblat (à época chefe da sucursal da VEJA e hoje editor do blog político que leva o seu nome). Participamos juntos da cobertura e da refrega. Gosto de lembrar: quando Ulysses, depois de romper o cerco, começou o seu discurso legendário, feito de improviso, da sacada da sede do partido de oposição, no inesquecível treze de maio de 1978 na capital baiana, com a praça cercada de policiais e cachorros que ainda ladravam ferozmente. “Meus amigos que aqui estão. Brasileiros que aqui não puderam vir e estão lá fora, mas que, apesar disso, em todo o Brasil, ouvem o pregão do MDB pela liberdade e pela Democracia”, bradou o parlamentar- estadista, de braços abertos para a praça, onde os dois jornalist as (entre outros que haviam rompido o cerco) sentados na calçada em frente, se debulhavam em emoções pessoais e profissionais, pela graça de poder testemunhar aquele momento.

Nestes dias de inauditas, intolerantes e intoleráveis agressões contra a liberdade de expressão, que partem de turbas raivosas ou indivíduos odientos que agridem profissionais de imprensa em vôos de carreira (minha total e irrestrita solidariedade a Miriam Leitão e Alexandre Garcia, caros ex-colegas do JB, atingidos esta semana), mais que nunca é preciso lembrar o doutor Ulysses, suas palavras e, principalmente, seus atos em momentos graves de crises, a exemplo da que atravessamos agora e, nada indica (muito ao contrário!) que vá ser superado tão cedo.

A frase do notável filósofo nascido em Bilbao, citada no começo deste artigo, associada ao comentário curto e certeiro de Ulysses, sobre as crises da vida brasileira no seu tempo, retornam, estranhamente (ou não?), no feriado de Corpus Christi. Quando o olhar distraído do jornalista (me permita o poeta paulista de Marília, Luiz Fontana) bateu, com algum atraso, mas ainda a tempo, no vídeo e no texto da entrevista do ex-presidente Fernando Henrique (fundador, arauto e guia do PSDB) ao jornal Valor Econômico, no começo da semana, favorável à decisão do partido dos tucanos de seguir remando no barco do complicado governo Temer, e seus encrencados navegantes do PMDB, cuja água enlameada começa inundar o convés, apesar dos esperneios e repetidas demonstrações de falsa e vã valentia, principalmente depois da providencial ajuda do TSE, sob o comando do ministro Gilmar Mendes, no estranho julgamento que recusou pelo apertado placar de 4×3 a cassação da chapa Dilma-Temer.

Quase no mesmo momento deparo com a incrível reviravolta do notável pensador dos tucanos, tal qual prega Raul Seixas, (o “maluco beleza” da música baiana e do rock brasileiro, em sua imortal composição “Metamorfose Ambulante). O que deu, afinal, em FHC, para levá-lo a mudanças tão bruscas e repentinas? Na conversa com a repórter Cristiane Agostine, do Valor, depois de falar para empresários em São Paulo, temos um FHC visivelmente em desconforto, que gagueja, medindo cada frase e cada palavra, nas respostas, evasivas ( “não participei das decisões porque estava nos Estados Unidos”). Com rebuscamentos retóricos e reticências, que mais confundem do que esclarecem, a fala de FHC é um primoroso exercício da arte tucana de manusear as palavras, jogar panos quentes e empurrar com a barriga, tentando ganhar tempo à espera da miragem de 2018, mesmo quando à beira do despenhadeiro, neste explosivo junho de 2017 (não só pelas fogueiras, fogos e quadrilhas dos festejos juninos). Afinal, ninguém mais indicado entre tucanos PSDB, para brincar com o dicionário em hora de crise braba. Principalmente, agora, quando o senador mineiro Aécio Neves se estrepou, atingido por saraivada de tiros que lhe feriram as asas e o impedem de voar, pelo menos até a decisão do STF.

Na entrevista FHC fala em “prudência”. Defende que Temer vem fazendo “um esforço, até maior do que se imaginaria possível, para rearrumar uma situação institucional e financeira desoladora”. Um desembarque dos tucanos, em hora assim, segundo ele, poderia resultar “em mais problemas do que em solução”. Nada sobre princípios de honestidade e transparência, o “não roubar e não deixar roubar”, que deve reger pensamento e ação de um homem público, ainda mais quando está no comando de seu País.

Quinta-feira, a reviravolta. A prudência murista do tucano mandada às favas. Em nota FHC diz: “o País vive uma falta de legitimidade e, se tudo continuar como está com a desconstrução contínua da autoridade, pior ainda se houver tentativa de embaraçar as investigações em curso, não vejo como o PSDB possa continuar no governo”. Tem mais, como os novos perigos para a travessia da “pinguela”, mas fico por aqui. Aparentemente, a avaliar pela nota, depois da entrevista, FHC também lembrou do pensamento e da prática de Ulysses Guimarães, em especial dos mandamentos do Decálogo do Estadista. Mas é melhor esperar um pouco mais, para saber até onde vai a metamorfose da voz e da açã o de FHC na era Temer. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

jun
17
Posted on 17-06-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 17-06-2017


J. Bosco, no jornal O Liberal (PA)

jun
17
Posted on 17-06-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 17-06-2017


O chanceler Helmut Kohl, em 1991 em Bonn, então a capital. GETTY

Helmut Kohl, que morreu na manhã desta sexta-feira aos 87 ano


DO EL PAI

Lluís Bassets

Helmut Kohl, que morreu na manhã desta sexta-feira aos 87 anos em sua casa de Ludwigshafen, segundo confirmou seu partido, a CDU, foi o chanceler da unificação alemã. Sem a sua clareza de ideias, sem a sua sensatez e seu empenho, assim como sem a sua capacidade de tomar decisões e de assumir suas convicções dentro e fora da Alemanha, esse acontecimento fundamental para a história da Europa não se teria produzido no curto espaço de onze meses entre 9 de novembro de 1989, dia da queda do Muro de Berlim, e 3 de outubro de 1990, quando os seis landers da antiga República Democrática da Alemanha foram incorporados à República Federal e diretamente integrados à então chamada Comunidade Europeia, coroando, assim, a ampliação mais rápida jamais realizada em sua história.

Kohl está no panteão da história alemã ao lado de Bismarck, que realizou a primeira unificação, em 1871, em Versalhes, depois de derrotar a França, e ao lado de Adenauer, que ergueu a Alemanha democrática e a fez se reconciliar com seu vizinho e secular inimigo francês. O mérito de Kohl, a bem da verdade, é maior ainda, pois seu projeto de unificar os alemães era apenas uma outra face de seu projeto de unificar todos os europeus e de fazê-lo, além disso, sob um regime de plena liberdade, e não por meio da guerra, como Bismarck, nem sob um regime de ocupação e divisão, como Adenauer.

Dessa maneira, Kohl é também o chanceler da unidade e da liberdade europeias, o político do salto adiante europeu a partir da unificação alemã e que levou à criação da moeda única, à ampliação das fronteiras europeias até os confins da Rússia com a entrada de 28 membros, e a consolidação da maior região em que vigora o respeito aos direitos humanos e as liberdades, estabilidade, segurança e prosperidade da história: um balanço que ainda se mantém atual no momento de sua morte, apesar das nuvens escuras que pairam hoje em dia sobre a Europa.

Para esse homem simples, até mesmo vulgar, um gigante com quase dois metros de altura oriundo da política renana mais provincial de uma Alemanha dividida e ocupada, a liberdade e a unidade dos alemães foram desde a juventude a outra face da liberdade e da unidade de todos os europeus. Na queda do Muro, ele encontrou a oportunidade que buscava, aquele momento decisivo e extraordinário que coloca à prova quem quer que se depare com ele. Não fosse assim, ele talvez nem ganharia as eleições seguintes e poucos se recordariam dele no momento de sua morte.

Kohl aproveitou a sua oportunidade porque desde muito jovem, quando começou a militar nas fileiras da democracia cristã renana, fundia em sua mente o patriotismo alemão e europeu e a hostilidade concomitante aos dois sistemas totalitários: aquele que acabava de derreter na Alemanha e aquele que mantinha metade da Europa, inclusive o leste alemão, sob jugo.

Seu primeiro passo fundamental como chanceler, assim que assumiu a chefia do Governo em 1982 após uma moção de censura contra seu predecessor hoje esquecida na névoa da história, já sinalizava o caminho da unificação. Foi a sua campanha pela chamada dupla decisão da OTAN, proposta pelo chanceler socialdemocrata Helmut Schmidt e adotada em 1979, mas amplamente questionada por um movimento pacifista crescente até mesmo dentro do SPD.

Tratava-se de propor ao Pacto de Varsóvia uma redução drástica dos mísseis de médio alcance espalhados pelos dois blocos na Europa, e especialmente na Alemanha comunista, e, no caso de não se chegar a um acordo, a instalação imediata dos mísseis norte-americanos na Alemanha. Kohl recebeu então o apoio de François Mitterrand, presidente da França, com a célebre frase “Os mísseis estão no Leste, mas os pacifistas estão no Oeste”, que acabou por alça-lo em sua vitória eleitoral espetacular, com quase 50% dos votos para seu partido, algo que só Adenauer conseguia obter nos anos de reconstrução. O rearmamento da OTAN que os pacifistas denunciavam prenunciou, por um lado, a incapacidade do sistema soviético e sobretudo de sua economia de sustentar o desafio armamentista ocidental; e, por outro lado, a boa relação da Alemanha com a França, único país do núcleo europeu que estabelecera em algum momento uma terceira via entre Washington e Moscou.

Kohl está no panteão da história alemã ao lado de Bismarck, que realizou a primeira unificação, em 1871

Kohl foi um político pragmático, simples, impregnado pela história europeia, mas nada pretensioso. Sua reflexão sobre o passado trágico alemão, incompreendida por muitos, é reveladora de suas reticências em relação aos moralismos e às ideias grandiloquentes, sem vitimizações nem heroicidades impostadas. “Beneficiei-me da graça de ter nascido tarde”, disse diante do Knesset, na primeira visita de um chanceler alemão a Israel. O chanceler que soube enxergar o futuro da Alemanha e da Europa não era partidário das “visões”, muito menos dos políticos visionários, the vision-thing, tal como seu amigo George W. H. Bush, que tanto o ajudou no processo de unificação.

Kohl foi um autêntico amigo da Espanha. Ajudou na entrada nas então chamadas Comunidades Europeias, há exatamente 30 anos, e foi o autêntico padrinho das políticas orçamentárias que proporcionaram à Espanha 300 bilhões de euros (1,10 trilhão de reais) nessas três décadas em fundos estruturais, sociais, agrários e de coesão. Foi correspondido por Madri, como ele mesmo reconheceu em suas memórias, onde cita o apoio singular de Felipe González à unificação, em contraste com a hostilidade de Margaret Thatcher e as reticências, depois superadas, de François Mitterrand.

A Europa que Kohl contribuiu a construir com a nomeação de Jacques Delors à frente da Comissão, o lançamento da Ata Única para criar o mercado interno europeu com suas quatro liberdades (de circulação de pessoas, capitais, mercadorias e serviços) em 1992, o Tratado de Maastricht, a ampliação da UE de 12 a 15 e os passos iniciais rumo à moeda única, é ainda a Europa da ortodoxia europeísta traçada pelos pais fundadores, em que os governos espanhóis se sentiam confortáveis e capazes de manter um protagonismo de primeiro nível. Nenhum dos chanceleres posteriores, Schroeder e Merkel, se entenderam melhor com Madri e sintonizaram de maneira mais sutil com os interesses espanhóis.

Kohl desconfiava de Merkel e, em geral, das gerações que não viveram a experiência de uma Europa dividida e em guerra

Kohl desconfiava de Merkel e, em geral, das gerações que não viveram a experiência de uma Europa dividida e em guerra. “Está destroçando minha Europa”, chegou a dizer nos últimos anos, quando as relações com a França não funcionaram e a Alemanha foi ocupando um lugar excessivo em todas as decisões, prefigurando essa Europa alemã que tanto temia o velho chanceler e à qual ele contrapunha a Alemanha plenamente europeia.

Kohl passou seu purgatório em vida. Precisou sair da chancelaria derrotado por Gerhard Schroeder, depois de 16 anos no poder, e depois se viu obrigado a abandonar a política no ano seguinte, pelo financiamento ilegal de seu partido, cuja denúncia a própria Angela Merkel se encarregou de fomentar. O suicídio de sua esposa, Hannellore, em 2001, e as disputas familiares com seus filhos, após se casar com sua secretária, terminaram por acabar com sua imagem. Só faltava a publicação simultânea de uma reedição de suas memórias e de outras memórias não autorizadas e muito polêmicas, nas quais se reúnem mais de 600 horas de gravações realizadas por um confidente e amigo com quem Kohl havia brigado.

Sua morte sem dúvida limpará as histórias sobre seu nome e frisará a dimensão do gigante alemão e europeu que acaba de desaparecer, e até mesmo sua proximidade e sua humanidade. Kohl foi um político normal, sem aura e carisma, a quem tanto seus adversários como seus amigos consideraram como um chanceler de transição e terminou como um dos mais longevos, 16 anos na chancelaria, e dos que deixam maior e mais persistente marca nas histórias alemã e europeia.

Apesar de sua austeridade, sua tenacidade e sua laboriosidade, perfeitamente alemãs, Kohl foi um homem discretamente religioso e também irônico, tal como demonstra a que é talvez uma frase antológica sua, digna de um epitáfio: “Existe vida antes da morte e todo cristão, protestante ou católico, tem o direito a gozá-la”.

BOM DIA!!!

BONITO DEMAIS E QUE JEITO BOM!!!

BOM DIA!

(Vitor Hugo Soares)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Um general com muito poder

O general Sérgio Etchegoyen, ministro da Segurança Institucional, que comanda a Abin e pode apontar o novo diretor da PF, foi quem indicou Carlos Alberto dos Santos Cruz para secretário de Segurança Pública do ministério da Justiça.

Fazia tempo que um general não tinha tanto poder no Planalto.


Marcha para Jesus no centro de São Paulo. PAULO WHITAKER REUTERS


DO EL PAÍS

Marina Rossi

São Paulo

Todos os anos, milhares de fiéis se reúnem em São Paulo no dia do feriado de Corpus Christ para celebrar a fé. Denominada Marcha para Jesus, é convocado pela igreja Renascer em Cristo, a terceira maior denominação neopentecostal do país e uma das mais conservadoras entre as evangélicas. Na última edição, que reuniu 2 milhões nesta quinta-feira segundo os organizadores (não houve estimativa da polícia), foi realizado um levantamento inédito que mostra o perfil dos participantes da evento. E ao contrário do que poderia apontar o senso comum, as opiniões desses fiéis tem mais matizes com respeito à questão de gênero e de direitos das minorias LGBT do que o alinhamento fechado da influente bancada evangélica no Congresso, composta por 75 deputados federais e três senadores.

Com base em 484 entrevistas e com margem de erro de 4,5%, o estudo coordenado por professores da USP e da Unifesp encontrou que 77% dos entrevistados concordaram com a frase “a escola deveria ensinar a respeitar os gays”. Esse posicionamento colide com a forte de oposição da bancada evangélica à discussão de gênero e sexualidade nas escolas, por exemplo. Outro ponto que sugere que a sintonia entre base e parlamentares pode ter falhas é quanto ao apoio às reformas da Previdência e trabalhista e também ao ajuste fiscal, a agenda básica do Governo Michel Temer, que tem apoio da bancada no Legislativo. A maior parte (86%) acha que quem começou a trabalhar cedo, deve se aposentar cedo também, sem que haja uma idade mínima para a aposentadoria, como prevê o projeto que quer mudar as regras de aposentadoria. A maioria (91%) não concorda que, mesmo em um momento de crise, é preciso cortar gastos inclusive com a saúde e educação, como pode ser uma consequência da PEC do teto de gastos, aprovada no fim do ano passado.

Para Esther Solano, uma das coordenadoras da pesquisa, essa distância entre os resultados do levantamento e a posição dos parlamentares evangélicos mostra que os participantes da marcha não se sentem definitivamente representados pela bancada evangélica. “Será que eles de fato votam tanto assim nos pastores?”, questiona ela, que dirigiu o levantamento ao lado de Pablo Ortellado e Marcio Moretto.

De fato, pelos números, não parece haver um alinhamento automático ao estilo “voto de cabresto” ou “voto em quem o pastor mandar”. A Marcha para Jesus acompanha o movimento geral de crise de representatividade já apontado em pesquisas maiores. Nenhum político mencionado pelos pesquisadores, evangélicou ou não, cai nas graças dos entrevistados. A maioria (76%) disse não se identificar com nenhum deles e 66% não se considera nem de esquerda e nem de direita. Quando os entrevistadores mencionam alguns nomes, o resultado é que não confiam (57%) em Marina Silva (REDE), evangélica. Outros 54% não confiam no pastor Marco Feliciano (PSC). Também não confiam (57%) em Jair Bolsonaro (PSC), o pré-candidato à presidência que se aproximou do partido de base evangélica. O governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), que é bem próximo da Igreja Católica, não tem a confiança de 61% dos entrevistados. Apesar disso, sua ausência na Marcha deste ano foi criticada. “Alckmin não julga a marcha importante. Se julgasse, estaria aqui”, disse à Folha de S. Paulo, o apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Renascer e idealizador da Marcha.

“A baixa confiança nos políticos era algo que já esperávamos, porque a sociedade brasileira como um todo está assim”, explica Pablo Ortellado. “Mas é notável como eles não confiam também nos políticos evangélicos e católicos. Isso mostra que não é verdade que os evangélicos formam um curral eleitoral”. Esther Solano completa: “Uma resposta padrão que ouvimos ao perguntarmos sobre algum político evangélico era que ‘confiamos nele como pastor, mas não como político”.
Lula em baixa e feminismo em alta

Se a rejeição aos políticos evangélicos e cristãos é alta, a desconfiança em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva escala muito mais. Disseram não confiar no petista 84% dos entrevistados.

Esse sentimento de rejeição à classe política é muito equivalente ao detectado nas manifestações promovidas pelos grupos pró-impeachment, afirmam os coordenadores do levantamento. “O preconceito faz com que a opinião ache que eles são conservadores e que o voto é de cabresto”, diz Ortellado. “Mas na realidade isso não se mostra. O perfil é muito parecido com a classe média anti-impeachment”.

Para além dos políticos, as opiniões sobre outras questões levantadas também apontam semelhança com o outro grupo que esteve na Paulista ao longo de 2015 e 2016 pedindo a saída de Dilma Rousseff e apoiando a Operação Lava Jato. “De conservadores, eles são iguais aos verde e amarelos”, diz Solano, ainda que em termos de renda média (três a cinco salários mínimos, entre 2.800 e 4.600 reais) eles sejam mais pobres do que os manifestantes da Paulista. “Ou seja, os evangélicos não me parecem especialmente conservadores. São o comum da sociedade brasileira em geral. O que mais impressionou foi a composição demográfica – renda, escolaridade cor. São muito mais representativos da população brasileira”.

Os coordenadores afirmam que esperavam uma postura também conservadora em pautas morais. “Isso realmente se deu, mas com algumas surpresas”, diz Ortellado. “Afirmações sobre o direito das mulheres, como o direito de usar a roupa que quiser ou transar com quem quiser tiveram alto índice de concordância (76% e 64%). Isso mostra que a pauta feminista se enraizou definitivamente na sociedade”. A média de idade dos entrevistados era 34 anos, pouco mais da metade (55%) eram mulheres. Além disso, 90% discordam que o lugar da mulher é em casa, cuidando da família. A ideia de que a expertise da mulher é no supermercado, como disse mais de uma vez o presidente Michel Temer, não cola nem mesmo no que poderia ser a parcela mais conservadora da sociedade.

O levantamento, que teve apoio da Fundação Friedrich Ebert, ainda mostrou um grupo entre 20% e 30% que concordou com afirmações mais progressistas em temas morais como direito ao aborto (21%), reconhecimento de famílias gays (33%), o direito de dois homens se beijarem em público (35%) e travestis poderem usar o banheiro feminino (19%).

  • Arquivos