Eleições limpas ou o teste da farinha já

Janio Ferreira Soares

Encontro o sempre bem-humorado Tico, gay assumido e com um raciocínio, como diria um amigo antenado, “absurdamente the flash”, caminhando numa rapidez anormal. Nos cumprimentamos e lhe pergunto o motivo de tanta correria. Ele, sem perder a verve, cantarola “me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios…”, e antes que eu me anime a seguir com os versos da canção, completando: “qual, não tem de quê, eu também só ando a cem!”, ele diz que está indo fazer uns exames médicos para começar num novo emprego. Desejo-lhe boa sorte e ele me puxa num canto como se fosse dizer uma coisa seríssima e indaga: “você tem algum conhecido na clínica?”. Quando me preparo para responder acreditando na veracidade do fato, o gaiato emenda: “É que eu tô muito nervoso porque soube que hoje é o dia do teste da farinha e aí já viu, né?, é pau na certa!”.

Rimos muito e antes dele sumir na poeira das ruas, conclui: “Moro devia era fazer esse teste com uns bonitinhos da Lava-Jato que querem se candidatar pra se livrar da cadeia. Aposto que a maioria ia tremer na base! A propósito, escreva algo sobre isso, mas cuidado, hein, pois alguns leitores podem não gostar!” (aproveito e abro este parêntese para dizer aos defensores dos políticos citados que é melhor parar por aqui, pois fã que sou dos escritos de Jorge Amado, João Ubaldo, Fernando Vita, Juan Pedro Gutierrez, Carlos Zéfiro, Boccaccio e demais penas que diante de um bom mote tendendo à esbórnia nunca vacilaram, seguirei a sugestão, até porque o que essa turma fez – somado ao atual momento “reizinho da toga preta” de Gilmar Mendes – transforma este texto numa fábula de Esopo. Saudemos, pois, a mandioca!).

Antes, quero dizer que diante das opções: 1) Temer fica; 2) Temer sai e o congresso elege alguém; 3) Diretas Já; cravo na terceira, com uma ressalva: nenhum dos envolvidos pode participar da eleição. Porém, pela sinalização do TSE, a tendência é partirmos para a esculhambação geral da nação, fato que me fará aderir mais ainda à proposta de Tico. Aliás, já tenho até uma ideia da marca que será estampada nas camisetas e cartazes do movimento, que terá desenhos de Lula, Aécio, Serra, Dilma, Alckmin e afins completamente nus diante de uma bacia, com a frase: Farinha Já, Meu Pilão Primeiro, onde cada um, com seu farinheiro na mão, espera a vez de se acocorar para carimbar sobre o produto, como direi… aquela recôndita parte do corpo que nunca viu a luz do sol, cujo molde será minuciosamente avaliado por peritos com lupas a laser, que no final darão o veredito atestando – ou não – a existência da prega-mestra, devidamente acompanhada dos raios secundários que comandam todo o mecanismo furicular do candidato em questão. E que vença o melhor. Se Gilmar deixar

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco.

Magnificamente Bola de Nieve! Viva o mago do piano e gênio imortal da música cubana e universal.

BOA TARDE!!!

(Vitor Hugo Soares)


Herman Benjamin: infatigá na busca das provas e da verdade…


..Marcelo e Emílio: condutores da “manada de elefantes da Odebrecht”

ARTIGO DA SEMANA

Do TSE à Papuda: elefantes e fios desencapados em Brasília

Vitor Hugo Soares

“O pau que bate em Chico deve bater também em Francisco”, proclama o ministro-relator, Herman Benjamin, escandindo calmamente cada palavra, com destreza de hábil esgrimistas verbal, apesar da rouquidão causada pela gripe inclemente que o ataca há dias, além de adversários explícitos ou mal disfarçado à sua volta, que o interrompem a cada instante para levá-lo à exaustão. Ou fazê-lo fraquejar na apresentação de indícios, provas e argumentos na relatoria do processo, sem precedentes na história da justiça eleitoral brasileira, pedindo a cassação da chapa Dilma (PT)-Temer (PMDB), nas presidenciais de 2014. O ex-vice, agora encastelado no poder, balança, mas faz das tripas coração para não desabar e recebe sinais de que as manobras parecem dar resultados, a deduzir pela decisão da maioria dos julgadores (4 a 3) de retirar do processo as provas arrasadoras da delação da Odebrecht e dos marqueteiros João Santana e Mônica Moura.

Sem gritos, sem chiliques, sem presepadas (para usar uma expressão típica do baianês), Benjamin protesta. E cita o ministro Gilmar Mendes, sentado ao seu lado, na presidência do julgamento transcendente. “Essa ação não poderia existir sem a inclusão da matriarca chefe dessa manada de elefantes predadores das savana, que é a Odebrecht”. E relata com fatos, gráficos e depoimentos, longos anos ininterruptos de atuação corrupta e corruptora do mega-império do setor privado, em amplo e irrestrito conluio com governos, políticos, gente de altos e baixos escalões do poder público, como vai ficando cada dia mais flagrante para a sociedade brasileira, e para o mundo, nestes dias temerários de circulantes malas recheadas de propinas, ou a título de régias “aposentadorias” pa gas aos donos do poder, para quando a queda acontecer, se acontecer.

Quinta-Feira junina, 8, segundo dia do julgamento da chapa Dilma-Temer, no Tribunal Superior Eleitoral. Em Brasília, desde a reabertura dos trabalhos na corte eleitoral, os choques são freqüentes, contínuos e atingem até mesmo quem se protege calçado em sapatos com reforçadas solas de borracha. É nítida, desde a véspera, a tensa sensação de cargas elétricas de altas voltagens, soltas no ambiente já bastante carregado do Tribunal, e em todo o seu entorno, no planalto central do país. Tensão que se amplifica à medida que o julgamento avança para o seu clímax, na sexta-feira, 9, da trezena do glorioso Santo Antônio, padroeiro da minha aldeia nordestina na beira do Rio São Francisco, cujos devotos (e ateus que acreditam em milagre s, a exemplo do jornalista que assina este artigo), acreditam capaz de operar coisas as mais surpreendentes. Principalmente, quando se trata da palavra e da capacidade de resistência aos embates. Mas essa é uma história que, pelo andar do andor , vai exigir novos capítulos.

Pisa-se com muito cuidado e preocupação. Não só na sala de julgamento do TSE, mas em muitos outros ambientes da capital do poder. Mesmo que muitos não enxerguem – além de elefantes de patas e trombas ameaçadoras, – há também muitos fios desencapados submersos e espalhados por diversos lugares, assim como, perigosamente, acontece nas cidades em dias de temporais. No entanto, observando a cobertura, através de um canal privado de TV, o jornalista percebe com alguma nitidez um destes fios de alta tensão, sem a devida capa protetora, “largado” no meio do julgamento.

Metaforicamente refiro-me ao carro preto da Polícia Federal, acompanhado de reforçado comboio de segurança, que conduz o ex-deputado Rocha Loures, da sede da PF no Distrito Federal, para uma cela no complexo penitenciário da Papuda, a uns 30 quilômetros de distância do Palácio do Planalto, onde há pouco tempo “o homem da mala” trabalhava na secretaria particular do presidente Michel Temer, e por onde circulava com plena intimidade e total desenvoltura. Esse perigo evidente torna mais fácil entender o temor que paira dentro e fora do complexo palaciano (Planalto, Alvorada e Jaburu), apesar de todo otimismo que o mandatário tenta vender em seus mais recentes pronunciamentos. Ou nos sorrisos presidenciais que mais parecem rictus, nas imagens publicadas dentro e fora do Brasil.

Por falar em resistência, fios energizados e choques, o relator “não sucumbe”, apesar dos insidiosos apartes de alguns de seus pares, somados aos sucessivos ataques da gripe e seus derivados incômodos – tosse, coriza , rouquidão e mal estar. Herman Benjamin resiste, talvez inspirado no modelo de outro juiz exemplar, que surpreendentemente aparece sentado na primeira fileira de cadeiras, no auditório do julgamento, na sede do TSE: o ministro aposentado Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e ex-relator de processo histórico da justiça brasileira: o Mensalão. Que Barbosa levou à termo apesar dos dolorosos e lancinantes ataques da coluna.

Provavelmente, a presença de Joaquim Barbosa no tribunal, – que ele também presidiu, – depois de mais de três anos de sumiço, (sem sair da memória popular, como atesta seu notável desempenho de aprovação nas pesquisas de preferência, entre prováveis postulantes à presidência, em 2018) terá significado que vai muito além do natural interesse jurídico. Mas ainda está distante do parco entendimento deste jornalista. Quem quiser, arrisque o seu palpite. A conferir.

O relator termina a sua exposição e dá o seu voto pela cassação da chapa Dilma-Temer, antes mesmo da suspensão do julgamento na hora do almoço.

Antes de seu previsível desfecho, com o voto dos demais ministros, O Globo publica um curto e certeiro comentário: “Na sessão desta tarde, os demais ministros vão proferir seus votos. A expectativa é por um placar de 4×3 pela absolvição da chapa. Não à toa, o acertado pelo plenário é que cada ministro só fale por 20 minutos. Não há muito o que dizer depois do voto histórico de Herman Benjamin”.

Nada a acrescentar, qualquer que seja o resultado.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

VAMOS,JUNTOS, EMBARCAR NOS 86 ANOS DO MESTRE, NESTE 10 DE JUNHO DE 2017!

VIVA JOÃO!!!

BOM DIA

(Gilson Nogueira)

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Procuradores da República repudiam fala de Gilmar Mendes

“A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) vem a público para registrar o caráter inadequado e infundado das críticas assacadas contra o MPF, feitas pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, na tarde desta sexta-feira, 12, durante sessão que trata sobre a cassação da chapa Dilma-Temer.

O Ministério Público Federal tem independência funcional garantida na Constituição e mesma estatura dos juízes exatamente para não estarem seus membros submetidos a ninguém que não à lei e suas consciências. O Brasil precisa de instituições que funcionem com serenidade, com impessoalidade, sem cores políticas e sem temor.

Assim tem sido o comportamento do Ministério Público Federal na Lava Jato e em toda sua atividade, por todos os seus membros, e assim foi a atuação escorreita do vice-procurador-Geral Eleitoral Nicolao Dino de Castro e Costa Neto, realizada na tarde de hoje, com todo o País de testemunha.

O MPF não recebe ordens de quem quer que seja e não exerce suas funções constitucionais pedindo permissão a outrem, ainda que a presidentes de tribunais.

A ANPR lamenta assim, as declarações desproporcionais e sem base do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, em plena sessão do TSE, na tarde de hoje.

O Ministério Público Federal continuará cumprindo serenamente seu dever constitucional de zelar pelo regime democrático, sempre disposto a forjar a tempera das Instituições, com lealdade à lei e à Constituição.”

José Robalinho Cavalcanti

Procurador Regional da República

Presidente da ANPR

jun
10
Posted on 10-06-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 10-06-2017

DO EL PAÍS

Herman Benjamin, o ministro e relator do processo de cassação da chapa Dilma-Temer no TSE, defendeu a perda de mandato do presidente Michel Temer, ao apresentar seu voto nesta sexta-feira, quarta dia de sessões na Corte. A decisão, no entanto, depende dos votos dos outros seis ministros do Tribunal Superior Eleitoral. Entenda porque o relator votou a favor da cassação da chapa Dilma Temer, em dez frases:

1 – Ao justificar porque era necessário ter transparência na Corte, Herman Benjamin disse: “A rigor, as dezenas de milhões de eleitores que são juízes ao depositarem seu voto são aqui também juízes”.

2 – Ainda no assunto da transparência, o relator elogiou o acesso a dados e informações disponíveis na internet: “Tudo o que eu disser no meu relatório, como tudo o que eu disser no meu voto, todos os brasileiros poderão clicar na internet e conferir se o que estou dizendo realmente indica a realidade dos autos. Então, esta é uma garantia enorme de cidadania, mas, ao mesmo tempo, uma garantia para nós, julgadores, que queremos julgar com segurança, com justiça e bem.”

3 – Durante a sessão, Gilmar Mendes interrompeu o voto do relator para dizer que quando vai ao exterior as pessoas dizem a ele que a corte cassa mais mandatos de detentores de cargos eletivos do que nas ditaduras. Benjamin, então retrucou: “As ditaduras cassavam quem defende a democracia, e o TSE cassa quem vai contra a democracia”.

4 – “O que interessa mesmo é que houve uma triangulação comprovada por caixa dois em pleno período eleitoral entre partidos integrantes da coligação “Com a Força do Povo”. Essa foi a coligação que elegeu Dilma e Temer em 2014.

5 – Porém, o relator ressaltou que a chapa analisada não foi a única a praticar as ilicitudes que ele está descrevendo. “Mas, certamente, há candidatos que foram profundamente prejudicados pelos ilícitos praticados pela chapa”, diz ele, que ressalta que não sabe se o prejudicado, no caso, foi o PSDB.

6 – Benjamin faz pausas, dramatiza, e reitera a importância do julgamento para a história do país. Explica que foi um lance de sorte a descoberta do esquema de propinas e caixa dois em campanhas eleitorais. “É um milagre que estejamos aqui apurando esses fatos. Não era para ser. Não haverá outra oportunidade para apurar fatos dessa natureza aqui”, explicou o relator.

7 – Ainda na linha da dramatização, o relator usa metáforas para se expressar: “Quero dizer que tal qual cada um dos seis outros ministros que estão aqui nessa bancada, eu como juiz me recuso ao papel de coveiro de prova viva. Posso até participar do velório, mas eu não carrego o caixão”, finaliza o relator, em referência à retirada das investigações referentes aos ilícitos da Odebrecht do processo.

8 – O relator disse que os caixas um e dois na campanha Dilma-Temer eram “um abraço de siameses”. Seu objetivo é ressaltar, no voto, que não há como diferenciar um do outro e, por isso, a chapa deveria ser punida.

9 – Benjamin mencionou várias vezes a Odebrecht: “A Odebrecht usou e abusou do método clandestino de apropriação de reputação dos políticos brasileiros. E esse não é o pecado de um partido político ou de dois”, ressalta Benjamin.

10 – E também atacou o herdeiro da companhia: “Marcelo Odebrecht não herdou só uma empresa. Ele herdou uma cultura de propinas e sofisticou essa cultura de propinas”.

jun
10


Michel Temer em cerimônia da Marinha, nesta sexta-feira.
Joédson Alves EFE

DO EL PAÍS

Talita Bedinelli
Afonso Benites
Brasília

A questão processual superou as evidências. E, nesta sexta-feira, o presidente Michel Temer (PMDB) ganhou sobrevida política ao se livrar da cassação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apesar de depoimentos e documentos entregues pelas testemunhas indicarem que a chapa que o elegeu, em 2014, como vice de Dilma Rousseff (PT), foi beneficiada por dinheiro irregular da Odebrecht. As questões relacionadas à construtora acabaram desconsideradas do processo de abuso de poder político e econômico, a pedido da defesa dos dois investigados. E, sem isso, o argumento do relator Herman Benjamin, de que a chapa foi beneficiada por uma “poupança propina”, abastecida ao longo de vários anos, acabou vencido por quatro votos por três. Com a decisão, Rousseff também foi absolvida e não teve os seus direitos políticos cassados. A petista segue elegível e pode se candidatar a qualquer cargo público em 2018.

Ao ser inocentado no TSE, Temer agora enfrentará uma série de ataques políticos e se deparará com um embate entre o Ministério Público Federal e a Câmara – onde ele tem perdido aliados. Entre investigadores, há a sensação que em breve o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentará a denúncia (que é a acusação formal) contra o presidente pelos crimes de corrupção, formação de quadrilha e obstrução à Justiça no caso envolvendo a delação da gigante do ramo alimentício JBS.

Nos últimos quatro dias, Benjamin travou uma batalha no Plenário, mesmo após a indicação, já no terceiro dia, de que perderia. E em sua minuciosa explanação de como o sistema eleitoral foi corrompido, não apenas em 2014, mas em vários anos anteriores, o julgamento se tornou uma espécie de radiografia negativa do sistema político brasileiro. A todo tempo, Benjamin fazia questão de ressaltar que as irregularidades apontadas por ele, no caso da chapa Dilma-Temer, se replicaram em outros partidos, conforme apontaram os depoentes ouvidos ao longo de todo o processo.

À revelia de apelos de colegas, como o ministro Luiz Fux, que pedia para que ele acelerasse sua longa exposição, Benjamin prosseguiu por uma tarde e uma manhã na defesa detalhada de seus argumentos, expondo e-mails de executivos da Odebrecht em um telão e lendo trechos de depoimentos de ex-dirigentes da construtora e da Petrobras dados ao TSE. Estava alheio à derrota iminente, que já se mostrara clara no dia anterior, quando os ministros Gilmar Mendes, presidente da Corte, Admar Gonzaga, Tarcísio Vieira e Napoleão Nunes Maia concordaram com a defesa, que pedia que os fatos relacionados com a Odebrecht fossem desconsiderados, pois não estavam na petição inicial de investigação, protocolada pelo PSDB logo após as eleições de 2014 e antes das delações da Odebrecht na Lava Jato. O pedido dos tucanos citavam apenas irregularidades relativas à Petrobras.

“Eu, como juiz, recuso o papel de coveiro de prova viva. Posso até participar do velório, mas não carrego o caixão”, disse Herman Benjamin

E, com a maioria da Corte em concordância, isso foi feito. Descartou-se, assim, toda a fase mais recente da Lava Jato, que acabou com a condenação de políticos e de executivos por envolvimento em corrupção. Mas os ilícitos da Petrobras tinham pouca relação com a campanha de 2014, justamente porque cessaram com o avanço da própria Lava Jato. Já a Odebrecht, “a matriarca chefe da manada de elefantes”, como definiu Benjamin, teria, sim, financiado irregularmente o último pleito presidencial, conforme afirmou o relator, com base em sua investigação. O ministro Luiz Fux, contrário à tese da defesa, apelou em seu voto final: “Será que eu, como magistrado que vou julgar uma causa, agora com esse conjunto de infrações, vou me sentir confortável de usar um procedimento processual para não encarar a realidade? A resposta é absolutamente negativa.”

A exclusão das provas da Odebrecht resultou em um duro desabafo do relator, ao final de seu voto. “Quero dizer que tal qual cada um dos seis outros ministros que estão aqui nessa bancada, eu, como juiz, recuso o papel de coveiro de prova viva. Posso até participar do velório, mas não carrego o caixão”, afirmou.

Para tentar contornar a retirada da Odebrecht do processo, Benjamin argumentou em seu voto que o dinheiro desviado da Petrobras, apesar de não ter abastecido, diretamente, a campanha de 2014, serviu para o benefício de PT e PSDB ao longo de anos, ficando em uma “poupança propina ou poupança gordura”. Ele alegou que essa verba se misturou com dinheiro lícito e acabou sendo repassada aos partidos na última campanha presidencial. Segundo executivos da Petrobras interrogados no processo, durante vários anos (antes da Lava Jato descobrir o esquema), os partidos se beneficiaram de contratos superfaturados com construtoras.

Os mesmos ministros que discordaram de ele na quinta-feira, voltaram a se contrapor a seus argumentos nesta sexta-feira. O ministro Napoleão Nunes Maia Filho foi o primeiro a votar após o relator. “Voto pela improcedência total dos pedidos formulados nas ações eleitorais”, ressaltou ele, que afirmou que se o dinheiro da “propina poupança” abasteceu a chapa Dilma-Temer, pode ter feito o mesmo com outras diversas candidaturas dos dois partidos. Admar Gonzaga, o segundo a votar, o seguiu: “Não há prova segura e cabal de que as doações para a campanha de 2014 tenham ocorrido no esquema ilícito da Petrobras”, ressaltou ele, que afirmou que é preciso ter provas de quais valores desse esquema teriam sido direcionados para a chapa na última eleição presidencial. Na mesma linha seguiu Tarcísio Vieira que afirmou ainda que os testemunhos de delatores “devem ser relativizados ou analisados com triplicada cautela”. Gonzaga e Vieira foram recém empossados por Temer no TSE.

O ministro Gilmar Mendes, criticado pela relação de amizade com o presidente Michel Temer, não deixou de defendê-lo, como previsto, na apresentação de seu voto. “Certamente, a Procuradoria vai entrar com denúncia contra ele no STF para que ele fique impedido. E aí se faz uma eleição indireta em 30 dias. É isso que se quer? Não é uma ação de reintegração de posse”, afirmou. Em seu voto, se apegou, principalmente, à necessidade de manter a estabilidade política, ainda que pontuasse sua decisão em questões técnicas. “Não se substitui um presidente da República a toda hora, ainda que se queira”, afirmou ele.
Embates no Legislativo

Enquanto fica aliviado com a decisão do TSE, Temer já tem de se preocupar com outras frentes que podem resultar na perda de seu mandato. A partir da possível denúncia a ser apresentada pelo procurador-geral, o Supremo Tribunal Federal (STF) terá de solicitar a autorização da Câmara dos Deputados para julgar o pedido. Se o Legislativo autorizar, por dois terços dos parlamentares (342 dos 513) em votação nominal, os ministros do STF poderão julgar o presidente. Caso os magistrados concordem com que ele se sente no banco dos réus, Temer é afastado da presidência, conforme previsto no artigo 86 da Constituição Federal.

Por isso, Temer manterá duas linhas de defesa. Na esfera judicial tenta suspender as investigações no âmbito da JBS. Enquanto que na frente de batalha política, tentará reduzir a perda de apoio parlamentar.

Um dos expoentes da oposição ao Governo, o deputado federal Alessandro Molon (REDE-RJ) afirmou que a absolvição do presidente no TSE não encerra a crise política. “Ele não sai fortalecido, agora está mais agonizante. Teremos um presidente encurralado por seus aliados sendo presos e que vai usar o seu cargo para se proteger, sem governar o Brasil”, afirmou. “É a receita para dar errado”, completou o parlamentar

O abalo ao apoio de Temer deverá se intensificar na próxima semana. Na segunda-feira o PSDB se reúne para definir se mantém ou retira o suporte ao governo. Inicialmente, a bancada de deputados iria debater o assunto nesta semana, mas a pedido da cúpula da legenda, os parlamentares decidiram esperar a conclusão do julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE. A tendência é que os tucanos entreguem os cargos no Executivo, mas mantenha apoio às reformas apresentadas pela gestão peemedebista, como a da Previdência e a Trabalhista.

O apoio dos tucanos é um dos alicerces do Executivo. A legenda tem quatro ministros, 46 deputados e 11 senadores – um deles, Aécio Neves, afastado das funções parlamentares por suspeita de envolvimento em atos de corrupção.

jun
10
Posted on 10-06-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 10-06-2017


Amarildo, no Blog do Noblat

DO EL PAÍS

Heloísa Mendonça

São Paulo

A Natura anunciou nesta sexta-feira que entrou em negociações finais com a francesa L’Oréal para comprar 100% das ações da empresa de cosméticos britânica The Body Shop e criar uma gigante global. A proposta apresentada foi de 1 bilhão de euros e é parte da estratégia da empresa brasileira de aprofundar a internacionalização dos seus negócios. Caso a aquisição seja concluída, a Natura passará a estar presente em 70 países. O fechamento da transação deverá ocorrer ainda neste ano, segundo nota enviada pelo grupo.

A cosmética The Body Shop está à venda desde fevereiro devido a um faturamento decepcionante e uma queda de rentabilidade. A marca, entretanto, continua sendo atrativa pelo posicionamento em um mercado em expansão e a notoriedade internacional. A conclusão da proposta está sujeita ainda à consulta ao seu Conselho de Colaboradores e à aprovação de autoridades concorrenciais. Nas últimas semanas, além da Natura, havia rumores de numerosos aspirantes interessados na aquisição da The Body Shop, entre eles fundos de inversão e vários grupos asiáticos.

A integração da The Body Shop com a Natura pode levar o grupo a números grandiosos: o faturamento passaria a ser de 11,5 bilhões de reais, o que representa um aumento de 45% das receitas líquidas que foi de 7,9 bilhões no ano passado, segundo o balanço divulgado pela companhia. Após a compra, a Natura injetaria musculatura em sua rede varejista, e chegaria a um total de 3.200 lojas, 17.000 colaboradores, além de um portfólio de mais de 2.000 produtos. A marca britânica seguirá atuando de forma independente nos países onde atua. Hoje há poucas lojas físicas da Natura, pois seu forte sempre foi a venda porta a porta.

“Natura e The Body Shop sempre percorreram caminhos paralelos que hoje se encontram. A complementariedade da presença internacional, o uso da biodiversidade, a ética na gestão, o relacionamento justo com as comunidades e o uso intenso da inovação são dimensões dessa jornada que se inicia”, disse nesta sexta-feira Guilherme Leal, Co-Presidente do Conselho de Administração da Natura.

A The Body Shop foi fundada em 1976 por Anita Roddick com uma postura pioneira e ativista em causas sociais e ambientais, como o fim do teste de produtos em animais. Em 2006, a empresa foi vendida ao grupo francês L’Oréal, maior empresa de cosmética do mundo. A The Body Shop atua em 66 países, tem mais de 3.000 pontos de venda, sendo que 109 deles estão no Brasil.

Já a Natura, companhia fundada em São Paulo em 1969 por Luiz Seabra, é a maior empresa brasileira de cosméticos do país e também sempre procurou associar a sua marca à sustentabilidade. Em meio à maior recessão econômica brasileira das últimas décadas, o grupo tem tentado diversificar seus canais de venda e sua expansão no mercado internacional, que atualmente representa apenas um terço da sua faturamento, e, em particular, na América Latina.

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