Dá-lhe Lucy, para matar um pouco da imensa saudade de Jackson do Pandeiro nesta tarde junina ! Combinação perfeita de grandes paraibanos na tarde do BP. Viva!!!

(Vitor Hugo Soares)


Henrique Alves – Agência Brasil

DO EL PAÍS

A Polícia Federal (PF) prendeu na manhã de terça-feira (6/6) o ex-deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), ex-ministro de Dilma Rousseff e de Michel Temer. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ex-deputado já preso em Curitiba, também recebeu novo mandado de prisão. Estas ações fazem parte da Operação Manus, um desdobramento da Lava Jato, que apura atos de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a construção da Arena das Dunas, em Natal, um dos estádios oficiais da Copa do Mundo de 2014. O Ministério Público identificou sobrepreço de R$ 77 milhões na construção da Arena.

A Operação acontece em um dia particularmente difícil para Temer, que hoje depõe sobre corrupção e é julgado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os advogados do presidente têm até às 16h30 para responder 84 questões feitas pela Polícia Federal no inquérito em que é investigado pelos crimes de corrupção, obstrução à Justiça e participação em organização criminosa. Paralelamente, o TSE começa a decidir se chapa Dilma-Temer é culpada ou inocente dos delitos de abuso de poder político e econômico durante a eleição presidencial de 2014, quando foi a vencedora.

Na operação deflagrada pela PF, cerca de 80 policiais federais cumprem 33 mandados judiciais, sendo cinco mandados de prisão preventiva, seis mandados de condução coercitiva e 22 mandados de busca e apreensão nos estados do Rio Grande do Norte e Paraná. A operação foi batizada de Manus em referência ao provérbio latino “Manus Manum Fricat, Et Manus Manus Lavat”, que significa “uma mão esfrega a outra, uma mão lava a outra”.

Henrique Eduardo Alves foi ministro do Turismo do Governo de Dilma Rousseff (2015-2016) e Michel Temer (2016). Alves também presidiu a Câmara dos Deputados entre 2013 e 2015. Ele deixou o Governo Temer em junho de 2016, após ser citado na delação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, acusado de ser agraciado em um esquema de propinas na Petrobras. O ministro era considerado um dos fiéis aliados de Temer na Esplanada dos Ministérios. Por essa razão, assessores do presidente interino ressaltaram que foi o próprio Alves quem pediu demissão, e não que ele foi demitido.

Os especialistas e a natureza

Maria Aparecida Torneros

Hoje fui ao cardiologista. Amanhã irei à endócrino. Depois a neuro. De novo o cardiologista. Haja fôlego para consultar os especialistas. Eles pedem exames. O organismo humano é complexo. Fico de prontidão e me acalmo. Não dá no poste. Sábias palavras. Sinto que a natureza me defende. Sigo em frente.

Cida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Cida, que publicou originalmente este texto.

jun
06

DO EL PAIS

Talita Bedinelli

A chapa de Dilma Rousseff e Michel Temer que concorreu às eleições em 2014 começa a ser julgada novamente nesta terça-feira, 6 de junho. Os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que deram início ao juízo em abril, mas concordaram em dar mais prazo para ouvir testemunhas, vão avaliar se a chapa praticou abuso político e econômico durante a campanha. Se julgarem que sim, e que isso influenciou o resultado do pleito, Temer pode perder o cargo de presidente da República, e tanto ele quanto Rousseff ficariam inelegíveis por oito anos. O presidente tenta diferenciar sua campanha da de sua antecessora e justificar que não estava envolvido nos delitos que são atribuídos ao PT, pois as contas dos partidos eram diferentes.

A oposição acredita que o desgaste político enfrentado pelo presidente após a delação da JBS pode contribuir para a decisão de cassação da chapa. Mas, na última semana, o presidente parece ter ganhado fôlego, dando a sensação a seus apoiadores de que poderá vencer o processo ou, ao menos, postergá-lo, com a ajuda de um eventual pedido de vistas de um ministro. A partir desta terça, o TSE vai definir qual lado tem razão, e se o presidente vai ou não concluir seu mandato ao final de 2018.

Entenda abaixo como será o julgamento.
Quando ele acontece?

Gilmar Mendes, presidente do TSE, definiu quatro sessões plenárias apenas para o julgamento. A primeira, em 6 de junho (terça), será às 19h. No dia 7, ela acontecerá às 9h. E no dia 8 (quinta-feira) acontecem duas sessões, uma às 9h e outra às 19h.

O julgamento pode ser prolongado, caso os ministros julguem que há necessidade. Se esse for o caso, eles também vão decidir quando o pleito é retomado.
Como começou a ação?

O Diretório Nacional do PSDB e a Coligação Muda Brasil, da qual o partido fazia parte em 2014, ingressou no TSE com quatro procedimentos contra a chapa Dilma-Temer. Elas foram posteriormente unificadas em uma única investigação, a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) 194358. A chapa do candidato derrotado naquelas eleições, Aécio Neves, pede a cassação da chapa reeleita por suposto abuso de poder político e econômico. Mas em suas alegações finais, em março deste ano, o partido do tucano, que se tornou aliado de Temer após o impeachment de Dilma, isenta o presidente das acusações.
Quais são as acusações?

A coligação Muda Brasil argumentou em sua petição inicial que a chapa Dilma-Temer realizou gastos além do limite estabelecido nos termos da Lei das Eleições, e teria obtido financiamento oficial de campanha por meio de empreiteiras contratadas pela Petrobras com dinheiro “oriundo da corrupção” da empresa. A coligação ainda acusa a chapa de atacar Aécio Neves por meio de propagandas feitas por sindicatos.

No campo de abuso do poder político, a Muda Brasil apontou que Dilma e Temer utilizaram a máquina administrativa federal para servir suas pretensões políticas, por meio de pronunciamentos oficiais em cadeia nacional, como um, feito por Dilma no Dia Internacional das Mulheres, em que ela destacou programas do Governo e empregos criados. Também afirma que foram ocultadas, durante a eleição, a divulgação de dados econômico-sociais negativos.
Como foi a investigação?

Foram coletadas perícias contábeis em empresas suspeitas de terem participado de fraude na campanha. Uma delas é a Focal Confecção e Comunicação, que segundo reportagem do jornal O Globo, recebeu 23,9 milhões para fornecer material gráfico e montagem de palanques, apesar de ter um capital social declarado de apenas 30.000 reais.

Também foram ouvidas testemunhas. Entre elas os executivos da Odebrecht. Em março deste ano, vazamentos do conteúdo destes depoimentos ao TSE causaram furor em Brasília. O herdeiro da construtora, Marcelo Odebrecht, afirmou, por exemplo, que parte dos 150 milhões de reais pagos para a chapa Dilma-Temer foram repassados via caixa dois.

Também ouvido pelo TSE, o executivo da Odebrecht, Claudio Melo Filho, afirmou que Temer solicitou a Marcelo, pessoalmente em um jantar no Palácio do Jaburu, 10 milhões de reais em caixa dois para candidatos apoiados por ele para a campanha de 2014. Marcelo, em seu depoimento, confirmou o jantar, mas negou que o pedido tenha sido feito pessoalmente por Temer. Os dois executivos foram submetidos a uma acareação no processo do TSE.

Em abril, as delações premiadas prestadas por esses executivos aos procuradores da Lava Jato se tornaram públicas, com informações que implicam tanto Dilma como Temer. Os depoimentos prestados ao TSE vão constar no relatório final da investigação.
Quem é o relator?

O ministro Herman Benjamin é o terceiro relator do processo. Em 18 de dezembro de 2014, quando foi distribuído pela primeira vez, ele ficou a cargo de João Otávio de Noronha. Com o término do mandato dele no TSE, em 16 de outubro de 2015, a Aije foi redistribuída à ministra Maria Thereza de Assis Moura, nova corregedora-geral da Justiça Eleitoral. Mas em 31 de agosto de 2016, com o fim do mandato da ministra no TSE, a ação foi redistribuída ao ministro Herman Benjamin, empossado corregedor-geral da Justiça Eleitoral.
Quem são os julgadores?

A corte é formada por três ministros do STF, dois do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e dois membros da classe dos advogados, que foram recentemente indicados pelo Planalto.

– O presidente desde maio do ano passado é o ministro do Supremo Gilmar Mendes, polêmico por sua aproximação com os tucanos

– O vice-presidente é o também ministro do STF, Luiz Fux, indicado para a Suprema Corte brasileira por Dilma Rousseff, em 2011

– A ministra Rosa Weber ocupa a terceira cadeira dedicada ao STF e também foi indicada para a Corte pela ex-presidenta

– Antonio Hernan Benjamin, o relator do caso, ocupa uma das vagas destinadas ao STJ, para o qual foi indicado ministro em 2006 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o escolheu em uma lista feita por seus pares

– O outro membro do STJ é Napoleão Nunes Maia Filho, também escolhido por Lula por encabeçar a lista feita por seus pares, em 2007. Ele foi citado por um dos delatores da JBS por ter, segundo o executivo da empresa Francisco de Assis e Silva, ter intercedido em favor da gigante frigorífica em um processo. Segundo a Folha de S.Paulo, ele é a aposta de Temer para um possível pedido de vista, que atrasaria o julgamento

– O advogado Ademar Gonzaga Neto ocupa outra das vagas de sua classe. Ele está na Corte deste 2013, quando passou a atuar como ministro substituto, indicado por Dilma. No início deste ano, ganhou a vaga permanente após indicação de Michel Temer. Já trabalhou na assessoria jurídica de diversos partidos e campanhas, incluindo a da própria Rousseff, em 2010

– Tarcisio Vieira de Carvalho Neto também foi indicado recentemente para a vaga principal por Michel Temer. Ele ocupava a vaga de juiz substituto desde 2014. É membro da Comissão Especial de Direito Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil e professor adjunto da Universidade de Brasília

Como é o julgamento?

Herman Benjamin iniciará o julgamento com a leitura de seu relatório. O documento traz um resumo das diligências feitas na ação, dos depoimentos, provas coletadas e perícias. O processo, até agora, tem 8.536 páginas e 29 volumes, que contêm 62 depoimentos testemunhais de 56 depoentes.

Depois, falarão na tribuna os advogados de acusação e os de defesa, nessa ordem. Em seguida, também poderá falar o representante do Ministério Público Eleitoral (MPE). Cada um terá 15 minutos para suas exposições.

Na sequência, Benjamin apresentará o seu voto. E, depois dele, votam, nesta ordem: Napoleão Nunes Maia, Admar Gonzaga, Tarcisio Vieira, Luiz Fux, Rosa Weber e Gilmar Mendes.
Quanto tempo pode durar?

A previsão é que o julgamento dure os três dias propostos por Gilmar Mendes. Mas o processo pode se alongar e, neste caso, os ministros marcariam as novas sessões que dariam continuidade ao julgamento. É possível, inclusive, que ele se continue pelo final de semana, apesar de não ser algo comum no TSE, cujo histórico mostra que reuniões de sábado e domingo só costumam acontecer durante as eleições e no caso de necessidade de decisões urgentes, como um direito de resposta a algum candidato, por exemplo.

Também é possível que o julgamento seja interrompido, com o pedido de vistas de algum dos julgadores. Neste caso, não há prazo para que o júri seja retomado
O julgamento é político?

É um julgamento técnico, com oitiva de testemunhas e coleta de provas. Nos bastidores, entretanto, se fala que existem aspectos políticos que podem influenciar tanto a decisão pessoal de cada ministro como a agilidade do processo, pois os julgadores sabem das consequências que a decisão pode ter para o país. O próprio presidente Temer já reconheceu isso na polêmica conversa gravada com o empresário Joesley Batista, da J&F, controladora da JBS. Na ocasião, ele afirmou não acreditar que seria cassado, pois os ministros do TSE tinham “consciência política”. “Eu acho que não passa o negócio da minha cassação, porque eles têm uma consciência política de ‘porra, mais um presidente…”. Mas o diálogo aconteceu antes da crise gerada pela própria gravação, e o entendimento agora pode ser o de que a demora para a saída de Temer pioraria a situação do país. Como dificilmente ele renunciaria, para não perder o foro privilegiado, e um impeachment pode durar até o ano que vem, a saída pelo TSE seria a solução mais rápida. Cabe a Temer convencê-los (e ao país) de que a crise está controlada
Quais os possíveis resultados?

Absolvição de ambos: os ministros podem determinar que a campanha Dilma-Temer não cometeu qualquer irregularidade ou a irregularidade cometida não influenciou na decisão.

Condenação só de Dilma: aconteceria se eles julgarem que as duas campanhas eram separadas e apenas ela se beneficiou de irregularidades. É o argumento usado pela defesa do presidente.

Condenação de ambos: decide-se que a campanha era uma só e que ambos foram beneficiados pelas irregularidades
O que acontece se Temer for cassado?

Os ministros determinarão se o afastamento da função seria ou não imediato. O Código Eleitoral prevê que quando a vacância do cargo se dá por motivações eleitorais, como a cassação pelo TSE, haverá novas eleições diretas, se isso ocorrer até seis meses antes do fim do mandato. Ou seja, se ocorresse a cassação até 30 de junho de 2018, deveria haver novas eleições diretas. Depois disso, segundo o Código Eleitoral, haverá eleição indireta, pelo colégio eleitoral (formado pelos 513 deputados e 81 senadores).

Mas o assunto é polêmico porque esta regra difere do que prevê a Constituição Federal, que diz que há eleições indiretas quando a vacância do cargo ocorre até o fim da primeira metade do mandato. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ingressou com uma Ação Direta de Constitucionalidade para questionar no Supremo Tribunal Federal se a regra do Código Eleitoral, de 2015, é inconstitucional, posição que ele defende. Há juristas, entretanto, que defendem que a regra da Constituição vale apenas para casos de renúncia, impeachment, morte ou doença e não para os casos em que a eleição é anulada, como numa eventual cassação pelo TSE. Caberá, portanto, ao Supremo, decidir qual das regras é válida para o caso.
O que acontece com Dilma?

Dilma, que já sofreu impeachment por acusações de improbidade administrativa, poderá se tornar inelegível por oito anos. Mas isso também ficará a critério do que for decidido pelos ministros. Temer poderá, também, se condenado, tornar-se inelegível pelo mesmo período.

Viva o pai! Viva a filha! Viva a música!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)


DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Moro elogia Fachin

A Gazeta do Povo publicou um artigo de Sérgio Moro intitulado “O legado”, em homenagem a Teori Zavascki.

No artigo, Moro também elogia Edson Fachin.

Leia um trecho:

“19 de janeiro de 2017 foi um dia trágico, não só pela perda humana envolvida na morte de qualquer indivíduo, mas pela perda institucional. O ministro (Teori), em que muitos confiavam pela seriedade, independência e respeito ao devido processo, deixou-nos: uma lacuna trágica ainda pelo momento histórico, vésperas da homologação dos acordos de colaboração de executivos de Odebrecht, o que permitiria estender e aprofundar as investigações até então centradas quase que exclusivamente nos crimes praticados no âmbito da Petrobras.

Pela bondade da Providência, a relatoria desses processos ganhou um substituto à altura: o ministro Edson Fachin. Jurista de qualidade e que já antes demonstrara a principal virtude de um magistrado, a atuação independente. De forma semelhante ao antecessor, vem se destacando pelo atuar sereno, firme e, principalmente, com a independência daqueles que não julgam a corrupção com cores partidárias. É um magistrado que serve ao Direito e não ao poder. Atualmente, não só por sorteio, mas por mérito, é o ministro Edson Fachin quem representa o legado do ministro Teori Zavascki no STF, isso sem embargo da elevada qualidade de outros componentes da corte.”

jun
06
Posted on 06-06-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 06-06-2017


Amarildo, no diário Gazeta (ES)

jun
06


Uma máquina de escrever e objetos relacionados com Gabo em Aracataca. JUAN CARLOS ZAPATA

DO EL PAÍS

Francesco Manetto

Aracataca

Um senhor descansa em uma cadeira de balanço na varanda de sua casa, em frente à casa onde em 1927 nasceu Gabriel García Márquez, reconstruída e transformada agora em museu. Suas lembranças se misturam com o catálogo de lendas que rodeiam o prêmio Nobel e seu universo. Chama-o de Gabo e Gabito. Em Aracataca, no interior da Costa Caribe da Colômbia, as conversas sobre o escritor, falecido em 2014, acabam girando em torno de duas ideias: o sentimento de pertencimento e a sonoridade. A primeira tem a ver com a origem do imaginário que moldou Cem anos de solidão, publicado pela editora Sudamericana em Buenos Aires em 5 de junho de 1967 —há quem afirme que começou a circular nas livrarias no dia seguinte—, há 50 anos. A segunda é uma reflexão sobre a importância das palavras. O povoado natal de García Márquez tem um nome especialmente vibrante. Mas ele escolheu outro, Macondo, para relatar as histórias dos Buendía.

Este senhor, Carlos Nelson Noches, de 86 anos, rememora as viagens de Gabo entre Santa Marta, capital do departamento de Magdalena, e Aracataca. Toda vez que voltava de trem para casa, que deixou junto com sua família para se mudar para Sucre quando ainda era criança, passava pela fazenda de bananas da United Fruit Company. “Viu a tabuleta que dizia Finca Macondo. Este nome ficou marcado para ele. Ele me disse que era um nome sonoro. Mas Macondo também é uma árvore corpulenta. Houve um povoado aqui que se chamava Macondo, há um riacho que se chama Macondo”, afirma o senhor Noches sobre o mítico povoado, que também coincide com o nome de um jogo de quermesse.

A melhor maneira de conhecer a região é ao lado de Rafael Darío Jiménez, autor e responsável pela casa museu de García Márquez. Seu trabalho, narrado a partir dos relatos dos vizinhos na biografia romanceada La nostalgia del coronel, sobre o avô do escritor, é um exemplo de como a memória coletiva pode caminhar entre a realidade e a ficção, no terreno do que a crítica literária chamou de realismo mágico.

“Cem anos de solidão se tornou a metáfora mais visível que se pôde criar sobre a América Latina. Essa família Buendía está em todos os nossos países”, opina. E ainda hoje existem personagens cuja vida é determinada por este universo. “Houve aqui um holandês que abriu um hostel e como ele se chamava Tim Aan’t Goor, um tanto gutural, então dissemos a ele ‘não, cara, você se chama Tim Buendía’ e ficou Tim Buendía”. Mais um para a família. “Pena que Tim teve de ir para os Estados Unidos.”

As histórias de Cem anos de solidão têm, exatamente, essa característica das lembranças familiares, à qual cada geração acrescenta uma camada de experiência e percepção pessoal. Gabriel Torres García, sobrinho de Gabo, acaba de almoçar em um lugar batizado de “pátio mágico”, na casa de Dilia Todaro. “Para nós, é a história de nossa família de um forma cifrada. Realmente, há muitos personagens que nascem dos membros da família. É o legado que nos deixou para sabermos quem somos”, explica. “Nos conta as histórias de muitos parentes que viveram quando nós não tínhamos nascido, que são quase lendas para nós. É o manual de comportamento da família García Márquez, mas ao mesmo tempo do comportamento de qualquer família do Caribe.”

Gabo construiu devagar seus personagens. “É possível encontrar muitos vestígios de Cem anos de solidão em El Heraldo, de Barranquilla, sobretudo em sua coluna Las jirafas”, aponta o escritor colombiano Álvaro Suescún. “As duas primeiras, escritas em junho de 1950, chamam-se O filho do coronel e A filha do coronel, referindo-se a Aureliano Buendía e Remedios la Bella. Já eram personagens estruturados e que foi desenvolvendo pouco a pouco”.
Entrada de Macondo.
Entrada de Macondo. F. MANETTO
A importância do nome

Essas figuras habitam a lendária Macondo, cuja origem continua sendo objeto de debate. Jaime Abello Banfi, diretor da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano (FNPI), é um dos maiores especialistas na vida e a obra do escritor. Há algumas semanas chegou a uma aldeia, perdida no meio de uma antiga fazenda produtora de bananas, em que detectou “uma consciência de comunidade”. A placa que recebe o visitante avisa: “Bem-vindos à verdadeira Macondo”. Embora não haja registros históricos nem sejam abundantes as provas documentais, seus habitantes garantem que foi fundada há dois séculos. Em todo caso, o que é indiscutível é que agora se chama ou se faz chamar assim. “Este povoado está desligado da importância mundial de seu nome”, reflete Abello.

Na manhã da última sexta-feira, crianças brincavam em suas ruas de terra. Primeiro apareceu à porta Julián Mejía, coordenador da escola, que chamou a líder social da comunidade, Vilma Arenilla. “Quem lê a história de Gabo logo percebe que se trata de nossa aldeia. Por exemplo, ele fala do rio de águas diáfanas e temos esse rio. Fala de pedras que parecem ovos, também temos. As borboletas amarelas também aparecem aqui em determinadas épocas”, diz Arenilla. Contudo, à margem das hipóteses sobre a suposta existência de uma Macondo real, esta comunidade, assim como Aracataca, vive marcada pela Macondo da ficção. “Muitos estrangeiros nos visitam. Da Alemanha, Argentina, México, Austrália, França…”, diz Milena Cifuentes, funcionária da casa museu. A viagem em busca do imaginário de García Márquez é um espelho que continua presente 50 anos depois.
Um banho de realidade

Enquanto Aracataca, a aldeia de Gabriel García Márquez, celebrava o 50º aniversário da publicação de Cem Anos de Solidão, as ruas do município foram palco de violentos distúrbios e choques com as forças de segurança na madrugada da sexta-feira em protestos pelos constantes apagões que afetam a comunidade.

Um banho de realidade no berço do prêmio Nobel, em que muitos moradores denunciam o abandono das autoridades.

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