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Conservatória: a Cidade das Serestas

ARTIGO

Culto à música acima da política

Lúcia Jacobina

Neste último sábado de maio, numa cidadezinha localizada no Interior do Rio de Janeiro, a música, através de seus cantores e instrumentistas, propiciou aos visitantes, entre os quais me incluí junto com amigos, distanciar-se momentaneamente do demolidor noticiário televisivo para cantar a plenos pulmões seresta, choro e samba-canção, nos festejos do “Dia do Seresteiro”, em Conservatória. A cidade continua a corresponder àquela destinação que dizem ser a origem de seu nome:por seu excelente clima e pela proteção das montanhas, foi o território escolhido como refúgio pelos índios Araris para se recuperar de doenças que dizimavam outras tribos, antes de eles próprios sucumbirem ao extermínio dos invasores e, por isso mesmo, denominado “Conservatório dos índios”.

A tradição da seresta foi ali iniciada no século passado por um grupo de violeiros apaixonados desfilando pelas ruas da cidade para cantar e declamar poemas dedicados a suas amadas. Essacantoria terminou agradandoa vila inteira, tanto que perdura até hoje, nas noites de sexta e sábado e nas manhãs de domingo.Durante a caminhada, violeiros vão parando de porta em porta para homenagear os moradores, cujas casas são identificadas não com placas numéricas, mas com o nome da canção preferida dos proprietários. Essa é a programação oficial, o que não impede que vários restaurantes tenham música ao vivo no almoço e jantar e que algumas pousadas ofereçam também aos seus hóspedes canto e instrumental durante as refeições.

O turismo é atualmente elemento propulsor da economia local, que já viveu a prosperidade do cultivo do café e hoje sobrevive de música e artesanato. A fama de suas serenatas foi se propagando e não somente os cariocas e paulistas, mas turistas das mais diversas procedências visitam a cidadezinha que parece ter parado no tempo, com seu calçamento originário feito de pedras de pé-de-moleque e seu casario colonial do século XVIII. Situada na Serra do Rio Bonito, a altitude lhe propicia também um clima ameno, principalmente no outono e no inverno.Dentre as atrações do culto à música, há o Museu da Seresta, com um acervo variado de pertences de Vicente Celestino e Gilda Abreu, Nélson Gonçalves, Herivelto Martins Jorge Goulart e Nora Ney, Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito, compositor carioca de inesquecíveis sucessos, dentre os quais se destacam “O Mundo é um Moinho” e “Folhas Secas”.

A comemoração do “Dia do Seresteiro” revelou-se uma excelente oportunidade para prestigiar o elenco de artistas locais, composto de excelentes cantores e compositores que, apesar do talento, não teve oportunidade de se tornar conhecido do grande público, fato lamentável porque todo ele integrado por vozes privilegiadas e exímios instrumentistas relegados ao anonimato no resto do Brasil.Triste ironia do destino que premia uns e posterga outros sem explicação convincente. Mas um detalhe não passou despercebido, artistas e público reunidos em Conservatória naquela oportunidade louvavam a verdadeira música e as tradições brasileiras, como uma manifestação autêntica e legitimamente popular, sem estar contaminada pelo nocivo patrocínio político que mais desfigura do que incentiva. A animação estava presente nas ruas, praças, bares, restaurantes; ali a bebida era da livre escolha do cliente, sem a ostensiva presença do capital e os profissionais da política não tiveram oportunidade de utilizar o evento para promoção pessoal. Em Conservatória, a música não cedeu o palco para a política.

Um último registro deve ser feito a fim de completar a descrição do leque de atrações da cidade onde parece que se respira música no ar. Um apaixonado cultor da sétima arte instalou no quintal de sua casa um espaço de nostalgia, o Cinema Centímetro, cuja sessão única acontece todos os sábados eexibe clips de musicais americanos dos anos 50 e 60. A edificação constitui uma réplica reduzida do antigo Cine Metro Tijuca, inaugurado no Rio de Janeiro em 1941 e demolido em 1977. Essa volta no tempo, está assegurada também pelos objetos originais do antigo cinema, como móveis, tapetes, lustres, bilheteria, projetores e até a carrocinha de pipoca, como se vendia antigamente para ser consumida fora da sala de projeção. Lá dentro, o ambiente induz o espectador a se concentrar no som e nas imagens da tela, habitat perfeito para o cinéfilo.

Impossível não notar, em meio a tanta beleza, a falência visível do estado duramente atingido pela corrupção, na pobreza do comércio local, nas vias de acesso precárias, na impossibilidade até de sacar dinheiro nos caixas eletrônicos dos bancos destruídos pelo banditismo. Fiel a sua tradição, entretanto, a cidade permanece um testemunho da resistência do povo brasileiro honesto, alegre e realizador.

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

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Comentários

Marina Munne on 4 junho, 2017 at 10:53 #

Esta descrição retrata perfeitamente a cidadezinha de Conservatória situada entre montanhas. Lá estive o ano passado e me encantei pela sua autenticidade, livre da política como bem ressaltou a articulista. Parabéns Lúcia…adorei!


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