O sorriso de Temer:”a recessão terminou”…


…artistas e centrais sindicais pedem “Diretas Já”.


ARTIGO DA SEMANA

Milagres e desastres: Portugal no “Manhattan”, showmício em Copacabana

Vitor Hugo Soares

Junho, mês das fogueiras e das quadrilhas, no nordeste do país, chegou rápido e preocupante, soltando fogo pelas narinas praticamente para todos os lados. Salvo, talvez, no terreno sempre instável da economia, que parece já respirar sem aparelhos, – se não forem enganosos os dados otimistas divulgados com fanfarras midiáticas, esta semana, – a começar pelo suspiro de alento do PIB, voando nas asas do agronegócio. Coisas juninas (quem sabe?), mês de colheitas e comida farta de milho na mesa, desde o tempo dos melhores baiões do imortal pernambucano de Exú, Luiz Gonzaga.

No meio deste intenso oba-oba que, de repente, explode nas manchetes e noticiários, no entanto, é bom manter olhos abertos e ouvidos bem atentos. Não se deixar levar pela primeira impressão do sorriso “de confiança” do presidente Michel Temer, que ilustra sites, blogs e a primeira página de alguns jornais, nesta sexta-feira de foguetórios no Brasil, (não só pelas trezenas em louvor ao glorioso Santo Antônio) – a exemplo da edição impressa da Tribuna da Bahia, jornal baiano que publica meus artigos, aos sábados, em seu espaço de Política.

Vale prestar atenção no que anda dizendo, por exemplo, nestes dias confusos e tempestuosos, uma das raposas mais ladinas, experientes e bem informadas da política baiana e nacional: o senador Otto Alencar (PSD). Histórico arauto do carlismo (no tempo em que Antônio Carlos Magalhães mandava na Bahia e nos gabinetes mais importantes do mando nacional), Otto pulou para os braços do governador Jaques Wagner (quando o petista derrotou ACM). Daí passou a frequentador assíduo e destacado dos palanques do PT na Bahia, a ponto de surpreender o próprio Lula, em comício de campanha pró-Dilma para presidente, na Praça Castro Alves repleta de gente: “Olá, companheiro Otto Alencar, que bom ver você em nosso meio. Bem antes do que a gente imaginava”, disse o ex-presidente, fundador do PT, sem disfarçar o tom sarcástico, da constatação sobre o novo aliado atraído pelo anzol de Wagner.

Nesta sexta, em declaração destacada em manchete de página, do jornal TB, Otto Alencar diz: “Michel Temer não tem sobrevida”. E explica que apesar do esforço que o atual mandatário e o núcleo duro de seu governo têm feito (para passar a ideia de está tudo bem, inclusive com a declaração oficial do presidente de que “o Brasil saiu da recessão”) a situação do País ainda é complicada, para dizer o mínimo. Na entrevista, Otto Alencar avalia: “ao contrário do que se pode pensar, Temer está com dias contados. Com o passar dos dias após a delação do empresário Joesley Batista, que gravou conversa cavernosa com o presidente altas horas no Palácio do Jaburú – a começar pela compra do silêncio do deputado Eduardo Cunha e a participação do deputado da mala, Rocha Loures, em negociatas de interesses nada republicanos -, Temer continua comprometido com as denúncias da corrupção”, afirma o quase sempre bem informado Otto Alencar, cujos palpites são sempre levados em conta nos bastidores palacianos da Bahia e do Congresso nacional. A conferir.

Portanto, fora do agro, o tempo segue carregado de fogo e inundações. O último mês do primeiro semestre de 2017 começa cercado de ameaças explícitas ou mais ou menos veladas. Tipo a recente palestra do (ainda encurralado) atual ocupante do Palácio do Planalto, para empresários reunidos em São Paulo. Ou a entrevista pós-escolha e o discurso de posse do novo ministro da Justiça, Torquato Jardim, pontuada de gracejos e subentendidos nada oportunos, diante da gravidade do momento. Ou, ainda, as falas nada tranquilizadoras, repetidas ultimamente pelo “metido a arrochado” (usando expressão típica do baianês), ministro Gilmar Mendes, dirigidas ora a alguns de seus pares do Supremo e outros juízes de fácil identificação, neste tempo de Lava Jato, ora aos magistrados que, a partir de terça- feira, 6 , pontificarão no Tribunal Superior Eleitoral, durante o julgamento, por fraude eleitoral, da chapa Dilma (PT) – Temer (PMDB), eleita em 2014 para governar o Brasil, e resultou no desastre que aí está.

Mas o que desejava mesmo, desde o título deste artigo, era registrar as surpresas do jornalista, no domingo, 28, da derradeira semana de maio. A partir das cinco da tarde, as imagens do showmício na emblemática praia carioca de Copacabana, com o mote “Diretas Já”, retirado do baú das nossas mais vibrantes, — e ao mesmo tempo mais melancólicas, — recordações dos loucos anos 70, em seu desfecho de catarse e desbunde. Estranho, confesso, ver aquele imenso balão da CUT pairando sobre as cabeças dos artistas e animadores do show, embalados em suas performances musicais pelas bandeiras das centrais sindicais agitadas no meio da sofrida gente carioca dos dias atuais.

Caetano Veloso, na abertura, canta “Podres Poderes”, depois grita “Fora Temer”. No meio, Milton Nascimento canta “Coração de Estudante”, sempre maravilhosa canção, mas nem de longe com a força e o impacto de antes. No fim, o ator Wagner, dublê de animador político e cultural dos novos tempos, tenta inflamar a massa: “Nós, que no ano passado estivemos na rua contra o golpe que levou Temer à presidência, agora temos o segundo round. Não é possível Temer continuar, nem esse Congresso escolher seu substituto. Pode não ser ilegal, mas é imoral e ilegítimo. E o ovo da serpente são essas reformas trabalhista e previdenciária”. Pode parecer estranho, mas me vem à memória o trecho menos lembrado e citado da famosa crônica de Rubem Braga, do show “Pelas Diretas Já” : “Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.”

Depois disso, uma hora antes do domingo terminar, no canal privado de TV Globo News, no “Manhattan Connection”, coube ao âncora do programa, Lucas Mendes, “numa pintura antológica” de síntese jornalística, falar sobre “os milagres, milagres e mais milagres em Portugal”: De Brasília destes dias temerários e de futuro incerto e imprevisível, a Lisboa, no país que virou o novo xodó para os europeus. Que não hesitou em mandar um ex-primeiro ministro acusado de corrupção para a cadeia (Sócrates), que superou a recessão enfrentando a crise sem meias medidas ou falsos remendos, que investiu pesado e com prioridade na educação – a ponto de virar o novo modelo no setor ao lado da Polônia- e cujos milagres levaram um entusiasmado Papa Francisco a visitar Fátima para santificar os dois pastorinhos portugueses.
Paro aqui, recomendando vivamente o vídeo do Manhattan, com Lucas Mendes e seu texto primoroso sobre o ressurgimento do país de Camões. Bravíssimo!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail:vitor-soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

Lucia Jacobina on 3 junho, 2017 at 7:29 #

Belo artigo, Vitor!
Na legenda da foto do Temer, um pequeno comentário, aquilo não é um sorriso, é uma careta…


Taciano Lemos de Carvalho on 3 junho, 2017 at 9:10 #

Verdade. Careta, pois a Polícia Federal prendeu o ex-deputado Rocha Loures, o mala do Temer.


Cida Torneros on 3 junho, 2017 at 10:00 #

Bravissimo merrrrrrrmo! Com sotaque carioca! ParabParabéns, Vitor, pelo artigo! Abraços!


vitor on 3 junho, 2017 at 12:01 #

Isso mesmo, Lucia. Na mosca. O riso de Temer na foto é o que se poderia chamar, classicamente, de rictus, a expressão de riso dos cadáveres. Não é mesmo? Temer é um morto político ambulante, que ri sabe-se lá de que. Forte abraço e obrigado.


Lucia Jacobina on 3 junho, 2017 at 13:37 #

Você tem toda razão, Vitor. Ele já sabe que está riscado da vida pública. Só lhe resta o julgamento da história. É só mais uma questão de tempo…


Taciano Lemos de Carvalho on 3 junho, 2017 at 14:19 #

O riso é o dos cadáveres. As maldades dos vampiros. Taí, o rictus do vampiro.


Taciano Lemos de Carvalho on 3 junho, 2017 at 14:21 #

“Loures é preso e Temer não tem quem carregue suas malas quando deixar o Planalto”

http://www.sensacionalista.com.br/2017/06/03/loures-e-preso-e-temer-nao-tem-quem-carregue-suas-malas-quando-deixar-o-planalto/


Vanderlei on 3 junho, 2017 at 19:55 #

Ótimo texto e um panorama muito bem construído, do passado, presente e quiçá futuro. Só não ainda estou tentando entender o porquê ao final da leitura me veio a lembrança uma frase do Chapolin Colorado ” Não contavam com minha astúcia! “.


Chico Bruno on 4 junho, 2017 at 8:46 #

Bravo!


Tom Tavares on 5 junho, 2017 at 0:38 #

Uma vez mais, one more time, again and again: grande Vitor Hugo Soares!!!


vitor on 5 junho, 2017 at 0:47 #

Tom Tavares:

Obrigado , maestro e querido amigo. Ditas por você essas generosas palavras de elogio ao meu escrito, tem especial e grande significado para mim.Forte abraço.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos