Brasília, 24 de maio:distúrbios, incêndios e caos…


“Gomorra”: Ilha dos Fogos, um dos capítulos do
livro de Saviano sobre máfia e corrupção na Itália

ARTIGO DA SEMANA

Terra dos fogos: do lixo de “Gomorra” aos incêndios de Brasília

Vitor Hugo Soares

Sob o céu de Brasília, na tarde tenebrosa de quarta-feira, 24 de maio, sigo as imagens da cobertura veloz e nervosa da Globo News, canal fechado de TV que sintonizo em Salvador (também em reboliço tenso para os lados da histórica Praça do Campo Grande). Observo as línguas de fumaça escura que sobem de vários prédios, na Esplanada dos Ministérios, e se espalham pelo espaço sem fim da cidade de marcante “traço do arquiteto”, da poética canção de Djavan, em sua “Linha do Equador”. Mesmo de longe sente-se, virtualmente, aquela angustiosa e incômoda sensação de travo na boca, causado pelas cenas perversas de desordem predatória e o forte odor de lixo e pólvora misturados no ar.

Aqui e ali, focos de labaredas de fogo riscam o carregado ambiente pré – junino na capital do Brasil. São os sanitários químicos instalados pelo poder público, “para dar conforto e condições dignas” aos participantes da manifestação, convocada pelas centrais sindicais, ao lado de barulhentos e agressivos grupos partidários e estudantis, “de esquerda”. Mobilizados, segundo afirmam seus dirigentes na rua e no Congresso, para protestar contra a reforma das leis trabalhistas e gritar pelo fim do governo de Michel Temer, metido em seu maior e mais vergonhoso escândalo. Desde a divulgação de deslavada conversa, pontilhada de malfeitos, gravada pelo dono da JBS (Friboi), Joesley Batista, durante encontro clandestino com o mandatário maior da nação, altas horas da noite, no palácio presidencial do Jaburu. Tudo (ou quase), revelado à sociedade em furo jornalístico de O Globo, através da coluna de Lauro Jardim, que fez a bola de neve rolar montanha abaixo e alcançar em cheio as terras de fogo do Planalto Central.

O espetáculo horroriza e impressiona: depois de servirem de barricadas para o confronto violento com forças da PM e outras especializadas, em segurança restrita do Congresso e órgãos do poder federal – visivelmente atarantadas e fora de controle, a exemplo de boa parte dos truculentos e estranhos manifestantes – os sanitários foram depredados e queimados, juntamente com a madeira dos tapumes de proteção de ministérios (Agricultura, Fazenda, Integração Nacional, Turismo, Saúde…) e outros prédios públicos. Daí em diante, decorreu uma das mais temerárias e preocupantes jornadas de vandalismo predatório e irresponsável de que se tem notícia na história de Brasília, que terminou o “dia de cão” sob guarda das Forças Armadas, resultante de ato de convocação sugerido pelo apavorado presidente da Câmara, Rodrigo Maia, imediatamente acatado pelo trôpego mandatário da vez no Palácio do Planalto, que determinou “providências” de seu ministro da Defesa, Raul Jungman. De equívoco em equívoco, de trapalhada em trapalhada, o resultado é o que se viu e o que se vê.

A primeira impressão do jornalista, à distância, é a de uma reedição com impressionantes toques de modernidade, de descrições literárias do romance “Macunaíma – o herói sem caráter” (de Mário de Andrade, publicado nos anos 20), somada a cenas de imagens emblemáticas do filme fundamental do cinema novo, de Joaquim Pedro de Andrade, lançado no final dos anos 60.

Por exemplo, a cena antológica daquele enganador de trabalhadores, (que com falsas promessas arrebanha pessoas desempregadas e desesperançadas), que estaciona um caminhão pau-de-arara, lotado de passageiros recrutados sabe-se lá onde e a que preço.Em local ermo, próximo à entrada de uma grande cidade, cobra a passagem de cada um dos miseráveis e depois avisa: “Pronto, chegamos, agora é cada um por si, e Deus contra”.

Da Cidade da Bahia, penso e sigo tudo com atenção, incredulidade, e alguma desconfiança, não nego: as chamas, o fumaceiro, o lixo e os detritos espalhados pelos amplos espaços da esplendorosa cidade construída, por Oscar Niemeyer, para ser um modelo para o mundo. Mas, principalmente reparo aquelas espantosas figuras vestidas em coletes da CUT e os seus seguidores (alguns brutamontes, outros garotos quase adolescentes com camisas ou máscaras cobrindo o rosto, que espalham a desordem e o caos, implacavelmente, aos gritos de “Fora Temer” e palavras de ordem sindicais de séculos passados, que falam de realidades sociais, políticas e ideológicas já mortas em seus próprios nascedouros internacionais, mas ainda insepultas nesta parte de baixo da imaginária linha do equador. A preocupação com princípios, ética, anti-corrupção e corruptores, parecem passar ao largo de suas preocupações e das palavras de ordem gritadas ou escritas nas faixas e cartazes.

Diante do quadro quase surreal, a memória voa, também, para as páginas de outro livro demolidor, igualmente transformado em filme fundamental para os dias que atravessamos, neste mês de maio de arrepiar: “Gomorra”, a extraordinária reportagem do jornalista e escritor italiano Roberto Saviano, sobre as máfias que agem em Nápoles e em todo misterioso, perverso e depredado ambiente moral de toda a região da Campânia, no sul da Itália.

Ao tempo em que recomendo vivamente, mais uma vez, a leitura (ou releitura) atenta deste livro crucial, pulo páginas e vou direto ao último capítulo de “Gomorra”, antes do ponto final deste artigo semanal de informação e opinião. Que me perdoem os muitos adversários e críticos atuais dos textos jornalísticos opinativos, uma inegável marca histórica de imprensa brasileira desde a sua origem.

Sob o título “Terra dos Fogos”, o jornalista encerra seu livro com descrições impressionantes sobre a política, a economia e a moral nos territórios de domínio da máfia:

“As imagens de um aterro, de um precipício, de uma mina, se tornam cada vez mais sinônimos concretos e visíveis de perigo mortal para quem mora nas redondezas. Quando os aterros estão no limite, toca-se fogo no lixo. Há um lugar na região de Nápoles, que já é chamado de terra dos fogos… Os mais hábeis para organizar o fogo são os garotos ciganos, geralmente romenos, contratados a 50 euros para fazer o trabalho sujo, conta Saviano.

Na terra dos fogos do planalto central do País, depois dos estragos de quarta-feira, restou a pergunta que não quer calar: quem são, de onde vieram e quanto se pagou aos incendiários de Brasília? Responda quem souber , e puna-se todos os responsáveis, antes do próximo incêndio.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Chico Bruno on 27 Maio, 2017 at 10:41 #

Perfeito!


Jair Santos on 27 Maio, 2017 at 11:58 #

A História, a Violência e como se fabricam narrativas conservadoras

por Fernando Horta

Quer gostemos ou não a violência é parte integrante da nossa sociedade e está na formação de cada um de nós. Não é possível “viver num mundo sem violência”. Na prática, ao tentar proibir alguém de vivenciar a violência já se está sendo violento. Restrição é violência. Qualquer uma. Se havia um ponto que os liberais dos séculos XVII sabiam perfeitamente bem é exatamente a impossibilidade de se afastar a violência de qualquer arranjo social. Thomas Hobbes ainda ia mais longe, afirmava que dada a máxima liberdade, dela resultaria a máxima violência. O famoso “Estado de Natureza” o “todos contra todos” era exatamente isto. Seres entregues à sua máxima liberdade que seriam incapazes de conviver em função da máxima violência.

?
Muitas pessoas estão preocupadas com a fúria e o “vandalismo” dos protestos. A violência é condição de existência humana. Não há existência sem experiência, como sujeito e objeto, de alguma forma de violência. Qualquer verbo de ação humana que você possa pensar envolve violência em alguma dimensão. Educar é violento. Libertar é violento. Integrar é violento. Sentir é violento. O que ocorre de fato, é que muitas pessoas têm uma visão errada do que é violência, pensam que violência é algo que produz dor ou pelo menos algum desconforto. Ledo engano.

Pode-se dizer que a História é, em grande medida, o estudo das formas de violência que os homens aprenderam a infligir e suportar uns dos outros, ao longo do tempo. E devo dizer que somos muito bons em criar formas de violentar nossos semelhantes e, em seguida, naturalizá-las. Fazer parecer que é tudo “normal”, que é “assim mesmo” e até que “sempre tenha sido assim”. A ideologia pode fazer a sempre-presente violência ser finalmente percebida ou passar completamente incólume.

Imaginar que protestos, com alguma eficácia política, podem ser totalmente pacíficos é imaginar que os detentores do poder o obtiveram de forma consensual, o usam de forma benevolente e são altruístas o suficiente para cederem seus espaços quando convidados. Como isto nunca existiu, também não existe protesto sem violência. Nunca. Gandhi, que você provavelmente pensou, preferia infligir a si mesmo violência e com isto mostrar resiliência para tocar simbolicamente o outro. Este é o princípio das greves de fome, das auto-imolações e foram das Marchas do Sal, por exemplo. Mulheres palestinas saíram, entre 2005-2007, a caminharem com velas nas mãos e crianças de até seis anos no colo, após os toques de recolher de Israel. E só quem nunca leu nada sobre as sociedades e o conflito no Oriente Médio achou este um protesto “pacífico”.

O que impressionou na última semana, no Brasil, foi a quantidade de profissionais da área de humanas rápidos no gatilho a deslegitimarem os protestos por causa da “violência”. Ora, se violência é uma constante nos seres e nas sociedades, o que faz você apontar umas e não enxergar outras? Por que alguns são legítimos para se sentirem violentados e outros não merecem sequer ser ouvidos? A resposta é simples: ideologia. Só através da ideologia que você é capaz de acreditar que uma pedra jogada num símbolo de poder é “mais violento” do que a retirada da aposentadoria de milhões de pessoas por um governo não-democrático. Só através da ideologia você pode justificar o contrassenso de acreditar que o roubo a um celular é um ato “insuportável” ao passo que a chacina de jovens de periferia é … “boa coisa não deveriam ser” como se lê nos cantos fétidos da rede mundial de computadores.

Só pode deslegitimar um movimento de protesto se moralmente você julga que a causa de manifestar é ínfima se comparado ao dano produzido pelo manifesto. Eu acho que milhões de trabalhadores perderem seus direitos à aposentadoria, perderem seus direitos a um final de vida com alguma dignidade vale incomparavelmente mais do que toda a cidade de Brasília (e não apenas uma vidraça). Portanto, quando você reconhece algumas atitudes como violentas e outras “normais” esta distinção fala sobre a SUA personalidade, sobre seus valores e sua ideologia.

Impressiona o conservadorismo de alguns especialistas da área de humanas que, de posse da errada visão sobre liberdade, violência e direitos acreditam que a violência “deslegitima” a agenda de protestos. Apenas os protestos parecem sofrer esta lógica. O governo legitima-se com violência, por todos os lados. O sistema capitalista se naturaliza pela violência, parecendo “normal”. As velhas ordens se cristalizam por causa da violência, seja comportamental, cultural ou social … mas protestos? Não! Protestos devem ser pacíficos ou não são legítimos. A narrativa conservadora é a primeira a negar legitimidade aos que sofrem e emprestar toda aos que defendem a “ordem”. O “novo” deve pedir licença para ter seu espaço. Os que sofrem devem reclamar com educação para serem ouvidos.

Alguém falou em Revolução Francesa esta semana, ligando aos protestos. Aqui vai um pouquinho do Robespierre falando ao parlamento:

“E ousamos falar de República! Invocamos formas porque não temos princípios; gabamo-nos de delicadeza porque nos falta energia; exibimos uma falsa humanidade porque o sentimento de humanidade verdadeiro nos é estranho; reverenciamos a sombra de um rei porque não sabemos respeitar o povo; somos ternos com os opressores porque somos sem entranhas para com os oprimidos” 3/12/1792
http://jornalggn.com.br/blog/blogfernando/a-historia-a-violencia-e-como-se-fabricam-narrativas-conservadoras-por-fernando-horta


Vanderlei on 27 Maio, 2017 at 21:28 #

E por falar em violência: CÂMARA PAGA R$ 2,5 MILHÕES AO SÍRIO-LIBANÊS
A Câmara dos Deputados renovou sem licitação, por R$2,5 milhões, o contrato de serviços com o hospital Sírio-Libanês, famoso por atender os políticos e celebridades. Além disso, a Câmara ainda gasta R$100 milhões por ano para manter um autêntico hospital de ponta, com equipamentos como tomógrafo, raros no SUS. Os deputados não querem nem ouvir falar em extinguir seu serviço médico, como fez o Senado nos tempos em que era presidido por Renan Calheiros.
http://www.diariodopoder.com.br/coluna.php


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