CRÔNICA

Roger Moore, Paulo Maluf… bons tempos!

Janio Ferreira Soares

A morte do ator Roger Moore, acrescida da notícia de uma nova condenação de Maluf pelo STF, causou uma certa onda retrô nessa semana do balacobaco, o que levou este escriba a sentir uma saudade danada de um tempo que, em muitos aspectos, era sem paralelo.

Para efeito de comparação, volto à Salvador de 1979, ano em que Maluf assumiu o governo de São Paulo e Roger Moore estreava no Cine Bahia o seu 007 Contra o Foguete da Morte.

Depois das aulas no Nobel, pego minha velha Brasília e parto para ver as novas aventuras de James Bond, que chega num Rio de Janeiro ainda maravilhoso e em pleno carnaval, e aí encara vilões de mentirinha no bondinho do Pão de Açúcar (Cabral, Adriana e Eike Batista ainda estavam estagiando no Planeta X) e parte para o Rio Amazonas com a missão de destruir cúpulas de orquídeas negras que podem causar o fim da humanidade.

Saio do cinema tarde da noite e caminho tranquilamente até o carro estacionado numa transversal da Carlos Gomes e, na volta pra Pituba, manuseio o botão do rádio que passeia não por Wesley, Joesley ou outro safadão qualquer, mas sim pela Cor do Som – dizendo não se amarrar dinheiro não, mas na cultura; por Caetano – que ensina que no Cais de Araújo Pinho, mais precisamente num tamarindeirinho, o imperador D. Pedro II fez xixi; e por Beto Guedes – profetizando que quando entrar setembro uma boa nova vai andar nos campos.

Antes de pegar a Manoel Dias para chegar na Rua Goiás, Edif. Márcia, 401, paro no Tony’s para um sanduba e um sucão de laranja, cenoura e beterraba e puxo conversa com Fito Neves – meio-campo do timaço do Bahia da época – sentado ao meu lado, fato que faz meu prestígio subir assustadoramente entre os funcionários tricolores, que desse dia em diante me tratam à pão de ló (“sai um Cheese Filé no capricho aí pro amigo de Fito!”, enquanto eu olho para os lados morrendo de medo dele aparecer bem nessa hora).

Por fim, quando aperta a saudade do feijão de Cecília e do carinho dos amigos, tomo o rumo do 2 de Julho e pego o 737 da Varig, que toda quarta e domingo faz a rota São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Paulo Afonso.

A bordo, serviço de primeira e jornais variados trazem notícias que vão de Glauber Rocha – falando que a abertura total e irrestrita está próxima -, passando por Figueiredo – confirmando seguir firme no rumo da democracia -, até chegar no glorioso Maluf – afirmando que existe, sim, petróleo em São Paulo e que, se a Petrobras não se interessar, ele mesmo fura os poços (visionário esse Salim, hein?). Um pouco antes de pousar, vejo um jipe cheio de cabeludos à minha espera.

Muitos deles, nem imagino, ficarão pelo caminho. Outros, porém, seguirão juntos, semeando velhas canções no vento. Só me resta regá-las, ouvi-las e sonhá-las.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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