O toque sagrado

Gilson Nogueira

Ovos de galinhas(sic)!!!, grita o vendedor ao microfone do aparelho de som do carro brancoestacionado nas proximidades do Hospital Santo Amaro. Não vejo o cidadão, nem, tampouco, alguém comprando a mercadoria anunciada na hora do almoço. Atrai-me a atenção o fato de não avistar santa alma pagando o preço pelo produto das galinhas, incluindo, certamente, penso, no cesto vocabular do locutor, raças diversas da penosa.

Quem sabe, alguma australiana que veio morrer de desilusão no Brasil!

Galinha lembra frango. Por isso, recordo os “frangos” que levei, para casa, quando tentei brilhar, na posição de goleiro, nos babas da Delfim Moreira, em Santos, nos anos em que Pelé chegava à Vila Belmiro para fazer o futebol ser dividido em duas etapas distintas, ou seja, antes e depois
Dele, considerado o Deus do Futebol, ou,como queiram, o Deus dos Estádios.

Até hoje!!!

E futebol faz parte das minhas melhores lembranças, desde menino, como ponta-esquerda e ponta-direita, audacioso, desses de cruzar para a área, na medida certa, para o gol salvador do meu time.

Estava na reserva do lendário Botafoguinho do Ginásio de São Bento, nos anos
50-60. E na Praia de Piata, com a turma de Nazaré, fazendo as ondas aplaudirem o também
lateral apaixonado pelo Tamba e por aquela cervejinha gelada, onde o inesquecível Vinicius, ao lado do parceiro Toquinho, misturava uísque com agua de coco e brindava a vida e os baianos
com sua presença santa.

Salvador era um poema. Hoje,um palavrão. De repente, em casa, ouvindo, ainda, os gritos da
torcida do glorioso Sport do Recife, no empate, em 1 x1, com o maior time do planeta, na Ilha
do Retiro, na Veneza Brasileira, lembrei-me do dia em que a torcida do Bahia ,na Fonte Nova, a antiga, palco de sonhos mágicos e pesadelos cruéis, no final do primeiro tempo de uma preliminar de uma preliminar de um BaxVi, pelo campeonato baiano, sob sol de, quase, 32
graus, berrava ao pé do meu ouvido direito, Cruza, ponta!,Cruza, ponta! Cruza,porra!!!E eu,ali,sem forca para mandar a redonda na medida exata para o gol de cabeça de Antonio Matos, mestre dos mestres do jornalismo esportivo da Bahia e do Brasil, ou de outros cobras da imprensa soteropolitana.
As lembranças chegam com a vontade de mandar um recado para os jogadores do Esquadrão de Aco, objetivando à partida decisiva da Copa do Nordeste,logo mais, no Estádio Octávio Mangabeira – a Fonte Nova imorredoura. Escutem a voz da torcida. Tenham fé no santo tricolor.Busquem identificar, no espaço, a voz dos heróis do passado que construíram uma
paixão, símbolo do futebol jogado com o coração e que é considerado um dos melhores do mundo.No Bahia,meninos, clube do Super Homem, chuta-se com a alma.
O gol do titulo, que pode ser conquistado,hoje, com empate de zero a zero, nascerá do passe vindo da Colina Sagrada, no Bonfim. Um toque na medida certa, para alegria de quem sabe que ri melhor quem ri por ultimo.Em lugar do frevo, o samba de Batatinha, meu rei!

Gilson Nogueira, jornalista, é colaborador da primeira hora do BP. O texto foi escrito para ser publicado na quarta-feira, 24, do jogo decisivo da Copa do Nordeste, entre Bahia e Sport. Não deu. Mas o BP publica nesta sexta-feira , quando a nação tricolor ainda festeja, intensamente, a vitória por 1 a 0 e a conquista do título tão almejado.Salve o Bahia.

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