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EL PAÍS

Gil Alessi
São Paulo

A operação Lava Jato fez, na última quinta-feira, um de seus movimentos mais ousados em mais de três anos de existência. Com o presidente nacional do PSDB Aécio Neves (MG) afastado do Senado a pedido da Procuradoria Geral da República, sua irmã Andrea presa preventivamente e o presidente Michel Temer com o mandato por um fio, a operação golpeia ao mesmo tempo o Governo e seu principal partido de apoio. Até então o caso construído pelos procuradores tinha como foco principal o PT e aliados, e seus negócios escusos com empreiteiras e a Petrobras. As delações do fim do mundo da Odebrecht começaram a rachar este paradigma, atingindo caciques tucanos, do PMDB, DEM e PSD. Mas ainda não havia uma investida midiática como a prisão de José Dirceu, ou de Antonio Palocci, grandes nomes do partido petista, ou dos peemedebistas Eduardo Cunha e o ex-governador Sergio Cabral. Agora, a colaboração premiada de Joesley Batista, da JBS, estilhaça de vez a imagem do establishment político e faz de Brasília terra arrasada.

A esquerda, sempre crítica à Lava Jato e a seus métodos, não deixou de celebrar a investida contra os tucanos, esquecendo, ao menos temporariamente, as mágoas. Mudam os partidos, segue o mesmo modus operandi da Lava Jato: vazamentos seletivos feitos com um timing que retrata uma agenda própria da procuradoria. As informações da delação de Joesley foram repassadas ao jornal O Globo em um momento no qual o Governo Temer parecia próximo de alcançar seu maior objetivo: a aprovação das reformas trabalhistas e da Previdência. Além disso, nas últimas semanas o Congresso votou uma série de temas sensíveis para o Ministério Público, como uma lei para punir abuso de autoridade, amplamente criticada pelos procuradores. Parte do material divulgado das delações traz uma transcrição e diálogo entre Aécio e Joesley no qual eles conversam sobre um acordão envolvendo todos os partidos atingidos pela Operação para anistiar o caixa 2, o que na prática inviabilizaria muitos dos processos da Lava Jato.

Os vazamentos jogam areia nos planos de Temer, que comemorava uma tímida melhora nos indicadores econômicos. Para o cientista político Antonio Lavareda, da Universidade Federal do Pernambuco, “existe uma janela de tempo para que as reformas sejam aprovadas. Assuntos como esse dificilmente terão andamento em ano eleitoral”. Para o professor, “caso a situação em Brasília não seja pacificada em breve se perderá esta janela temporal”. Agora, com o iminente desembarque de parte de sua base aliada do Governo, a tarefa que já não era fácil se complica. O peemedebista fez pronunciamento em rede nacional na tarde desta quinta no qual afirmou que os indicadores “criaram esperança de dias melhores”, e negou a prática de qualquer ilícito.

Por sua vez, Aécio divulgou nota se dizendo “absolutamente tranquilo quanto à correção de seus atos”. Posteriormente, a assessoria do senador afastado afirmou que ele iria se licenciar da presidência do partido. “Em razão das ações promovidas no dia de hoje contra mim e minha família, quero afirmar que, a partir de agora, minha única prioridade será preparar minha defesa e provar o absurdo dessas acusações e o equívoco dessas medidas”, afirmou me nota.

O braço curitibano da Lava Jato, que tem no juiz Sérgio Moro sua cara mais conhecida, é frequentemente criticada pela partidarização do caso. Cabe ao magistrado julgar os casos da operação na primeira instância, como o do ex-presidente Lula e do ex-deputado Eduardo Cunha. Lula, que é réu em cinco processos, deve ser sentenciado por Moro na ação que trata de ocultação de patrimônio envolvendo um tríplex no Guarujá até julho. O juiz já mostrou que sabe fazer uso do timing político: tirou o sigilo dos grampos feitos sobre Lula e a então presidenta Dilma Rousseff nos quais discutia a nomeação do ex-presidente para um ministério como estratégia para lhe garantir direito ao foro privilegiado. Os áudios fizeram com que o ministro do STF Gilmar Mendes, suspendesse a indicação de Lula.

Após a divulgação de reportagem do jornal O Globo sobre os grampos implicando Aécio e Temer, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, da força-tarefa de Curitiba, desabafou nas redes sociais. “Enquanto diziam que éramos contra um partido ou outro, a Procuradoria da República se manteve firme na sua tarefa de revelar a corrupção político-partidária sistêmica que mina todos os esforços da população para trabalhar e crescer por esforços e méritos próprios”, escreveu.

De forma inédita desde o início da operação, a PGR também cortou na própria carne. De acordo com o procurador-geral, “o sucesso desta etapa [da operação], contudo, tem um gosto amargo para a nossa instituição. A pedido de Janot, Fachin determinou a prisão preventiva do procurador Ângelo Goulart Villela e do advogado Willer Tomaz. A PGR determinou o afastamento de Villela de suas funções no Ministério Público Federal e a exoneração do servidor da função de assessor da Procuradoria-Geral Eleitoral no Tribunal Superior Eleitoral. Em nota, Janot afirmou que eles são investigados “por tentativa de interferir nas investigações da referida operação, que envolve o Grupo J&F, e de atrapalhar o processo de negociação de acordo de colaboração premiada de Joesley Batista”.

Este tango especial, que fala divinamente sobre Buenos Aires, vai dedicado ao amigo do peito e colaborador do BP, João Carlos Teixeira Gomes (Joca), o pena de aço do jornalismo baiano, escritor e poeta da Academia de Letras da Bahia, que ontem desembarcou em Buenos Aires em viagem acalentada por mais de três década (desde os anos 60 da primeira e única vez que este cidadão do mundo esteve na capital). Do aeroporto de Salvador, de onde ligou ontem, pouco antes do embarque para comentar sobre o Artigo da Semana, ele revelou o mais ansiado programa: uma visita à monumental livraria “El Ateneo Grand Splendid”), um templo mundial dedicado ao livro, fantasticamente instalado no antigo Teatro Splendid, na Calle Santa Fé, de Buenos Aires, totalmente restaurado para abrigar a segunda maior livraria do mundo Grande escolha! Grande pena de aço.Bela viagem!

BOM DIA

(Vitor Hugo Soares)
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Temer durante pronunciamento neste sábado. Igo Estrela Getty Images

Afonso Benites
Brasília

O presidente Michel Temer (PMDB) oficializou neste sábado a sua principal estratégia de defesa a partir de agora, atacar seus delatores e tentar anular as provas que o envolvem em graves suspeitas de corrupção. Em pronunciamento feito no Palácio do Planalto, o peemedebista anunciou que pedirá a suspensão do inquérito contra ele que tramita no Supremo Tribunal Federal e chamou Joesley Batista, o magnata da JBS, de “falastrão” e “criminoso”, que teria ganhado milhões de dólares ao especular na bolsa de valores por conta da crise política criada pela denúncia feita ao Ministério Público. Temer é investigado por três crimes: corrupção passiva, obstrução à investigação e constituição e participação em organização criminosa.

O peemedebista decidiu fazer o seu pronunciamento depois que o jornal Folha de S. Paulo publicou uma reportagem dizendo que um perito judicial considerou que o áudio apresentado por Joesley ao Ministério Público teria sofrido edição. Essa gravação foi apresentada como prova pelo empresário de que o presidente tentava comprar o silêncio de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o ex-presidente da Câmara que está preso na operação Lava Jato e sempre foi aliado de Temer. A ideia de suspender a investigação contra o presidente partiu de seu advogado, o criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira. Protocolado no STF, ainda não há uma decisão sobre o pedido.

Agora, inicia-se uma espécie de guerra de perícias. No mesmo dia que a Folha publicou essa reportagem dizendo da possibilidade de adulteração, O Globo divulgou outra mostrando que não houve alterações. Em nota, a J&F, holding que controla a JBS, disse que todo o material gravado foi entregue na íntegra, sem qualquer tipo de edição. Disse ainda que é natural que, “em função da densidade das delações, surjam tentativas de desqualifica-las”.

Temer chamou a gravação de clandestina, disse que ela foi “manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos”. O que o presidente não diz é que a maneira como ele recebeu Joesley também foi clandestina. O empresário entrou no Palácio do Jaburu sem se identificar na portaria e conversou com o presidente, por volta das 22h40 do dia 7 de março deste ano, na garagem do imóvel. Ou seja, se não fosse a delação da JBS, jamais esse encontro entre o chefe do poder Executivo e um cidadão que responde a cinco inquéritos policiais se tornaria público. Sobre a hora em que recebeu o empresário, Temer disse que habitualmente trabalha até meia noite e que não havia nada de mais no horário do encontro.

No seu pronunciamento, em que não respondeu a perguntas, Temer não entrou em confronto direto com o Ministério Público mas criticou a situação em que o acordo de delação permitiu deixar aos donos da JBS. O presidente disse que Joesley cometeu o “crime perfeito” e está livre, passeando pelas ruas de Nova York. “A notícia foi vazada, seguramente por gente ligada ao grupo empresarial, e antes de entregar a gravação, comprou 1 bilhão de dólares. Porque sabia que isso provocaria o caos no câmbio. De outro lado, sabendo que a divulgação da gravação também reduziria o valor das ações de sua empresa, as vendeu antes da queda da Bolsa”.

Ainda na tentativa de invalidar o que dizem seus acusadores, Temer citou que nos últimos dois governos – dos quais ele fez parte ou como aliado da gestão Lula ou como vice-presidente, de Dilma Rousseff – a JBS obteve empréstimos bilionários do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas, que agora, o banco está sendo moralizado, assim como a Petrobras. Essa fala foi um afago também aos presidentes das duas instituições, Maria Silvia Bastos Marques e Pedro Parente, respectivamente. Ambos ameaçaram deixar o Governo depois da divulgação das investigações. “Há quem queira me tirar do Governo para voltar aos tempos em que faziam tudo o que queriam com o dinheiro público e não prestavam contas a ninguém. Quebraram o Brasil e ficaram ricos”, disse.

Sobre a inação dele diante do relato de uma série de crimes feito por Joesley (como compra de juízes e de um procurador) Temer disse que não acreditou na narrativa dele e, por isso, não tomou nenhuma atitude. “Ele é um conhecido falastrão exagerado. Aliás, depois, em depoimento, disse que tinha inventado essa história. Nem era verdadeira. Era fanfarronice que ele utilizava naquele momento”. Mas a apuração judicial demonstrou que o procurador estava na verdade comprado, pelo menos por um dos advogados da JBS. Era o membro do Ministério Público Federal Ângelo Goulart Villela, preso na quinta-feira a pedido do próprio procurador geral Rodrigo Janot.

A oposição reagiu imediatamente ao pronunciamento do presidente. Disse Carlos Zarattini, líder do PT na Câmara: “O pronunciamento é de uma desfaçatez total. Ele tenta mudar os fatos e criar uma interpretação própria. Ele faz uma lógica de sair desse buraco que ele se meteu jogando a culpa no Joesley e no PT.”

Um sinal de que faltou apoio a quem tem a caneta presidencial em mãos ficou explícito durante o próprio pronunciamento. Apenas um ministro estava presente, Antonio Imbassahy (PSDB), da secretaria de Governo. Dos três parlamentares que assistiram à fala, dois são antigos aliados de Eduardo Cunha, Carlos Marun e Darcísio Perondi, e o outro era Lúcio Vieira Lima, irmão de Geddel Vieira Lima, ministro que pediu demissão depois de um escândalo já na gestão

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Posted on 21-05-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 21-05-2017


Jorge Braga, jornal O Popular (GO)

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DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Temer nos acréscimos

O Globo diz que o grampo de Michel Temer não foi editado:

“De acordo com a rádio CBN, quando o dono da JBS chega ao encontro com o presidente no dia 7 de março, ouvia uma reportagem da emissora e, ao deixar a reunião, a rádio do carro de Joesley continuava sintonizada na CBN. O quadro ‘Nos Acréscimos’ estava no ar e, naquele dia, começou às 23h08 da noite”.

O locutor Milton Jung explicou:

“É possível determinar que o tempo de gravação é de 38 minutos e o tempo da conversa entre Joesley chegar e sair da casa do presidente foi de 38 minutos, e esse tempo é a íntegra do áudio divulgado na quinta-feira e que comprova que o material não teve nenhuma edição”.

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