Celso de Mello:”não há riscos para a Lava Jato
na soltura de Dirceu”, aposta decano do STF.


Lilia Cabra, a Silvana do folhetim
de Gloria Perez (TV Globo):jogo.

ARTIGO DA SEMANA

De Gilmar ao Decano: rugidos, trinados e novela no caminho da Lava Jato

Vitor Hugo Soares

Entre os rugidos ferozes e desafiadores do ministro Gilmar Mendes, durante suas mais recentes performances nas sessões da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal – coadjuvadas por Ricardo Lewandowski e Dias Tofolli – , que ajudaram decisivamente a mandar para casa três presos pesados do Petrolão (Genu, Bunlai e Dirceu) , eis que surge um alento e um alerta no horizonte sombrio dos dias em curso no País. Na verdade, um quase chamamento para que olhos e ouvidos se mantenham bem abertos, atentos e vigilantes, na hora crucial em que o desânimo e o alheamento parecem nublar o pedaço que nos toca viver na América do Sul (para lembrar Belchior).

Soaram como trinados de canários belgas, mais ou menos tranquilizadores, as palavras do ministro Celso de Mello, ditas na quarta-feira, na chegada do mais antigo membro da Corte Suprema de Justiça do Pais, de volta ao batente em meio ao tenso e pessimista ambiente do dia seguinte à decisão de soltar Dirceu e mandá-lo de volta para morar em Brasília. “Até aí morreu Neves”, diriam os mineiros e os sertanejos da beira do São Francisco, o rio da minha aldeia.

A fala do mais rodado membro do STF, no entanto, ganhou mais impacto e maior amplitude, ao ser reproduzida à noite, no Jornal Nacional, para um Brasil de audiência: motivada não só pelos fatos do dia e repercussão da soltura do ex-chefe da Casa Civil do Governo Lula – quando Antonio Palocci e Renato Duque prometem delações premiadas de arrepiar, sem falar no vai e vem de Eduardo Cunha direto da sua cela em Curitiba. Também pela expectativa de mais um capítulo de “A Força do Querer”, mais novo folhetim das 21 horas, da TV Globo, assinado por Gloria Perez, com narrativa rica e envolvente, elenco de primeira e desempenhos sempre surpreendentes, de tirar o fôlego ou matar de rir, além de cenários de embasbacar, entre Belém do Pará, Rio de Janeiro (apesar de toda atual desgraça política,financeira e moral) e Niterói.

O veterano e calejado Celso de Mello espalhou água na fervura dos lados em confronto, ao aparecer na telinha com ar sereno, no meio das trocas de farpas e sopapos generalizados nas redes sociais – amplificados ao volume máximo pelo tiroteio verbal, com uso de munição pesada, entre o sempre polêmico palavreado dos discursos político – jurídicos do ministro Gilmar Mendes (de notório pavio curto sustentado em costas largas) e os não menos esquentados procuradores da República, e outros integrantes da Força Tarefa da Operação Lava Jato, começando por Deltan Dallagnol e Antonio Fernando.

O decano foi sutil e enfático ao mesmo tempo, como é próprio de seu temperamento. Ele, voto vencido de apoio ao relator, na sessão da Segunda Turma, esta semana, assegura que “não há riscos para a Lava Jato”, com a soltura do ex-chefe da Casa Civil do Governo Lula, apesar da grande coleção de opiniões em contrário que rola na praça.

“Entendo que de modo algum a Operação Lava Jato está comprometida. Pelo contrário. Mas, de qualquer maneira, o importante é que a Lava Jato, uma vez resguardadas as garantias que a Constituição da República e as leis estabelecem, aprofunde cada vez mais a investigação em torno dos fatos delituosos que estão estarrecendo o País, na medida em que demonstram verdadeiro assalto à coisa pública, o que se mostra totalmente inaceitável”

Palavras literais de Celso de Mello, o mais experiente ministro da Suprema Corte, na parte mais contundente e emblemática da sua fala de quarta-feira da volta ao trabalho, no STF, reproduzida tim tim por tim tim, no JN da TV Globo, apresentado por William Bonner e Renata Vasconcelos, minutos antes de entrar no ar mais um capítulo de “A Força do Querer”.

“Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”, diriam os irônicos franceses, seguramente, se não estivessem tão tensos e voltados para o esforço democrático de afastar de vez, na votação presidencial de segundo turno, neste domingo, o pesadelo de ter a assombrosa Marine Le Pen (que Brigite Bardot me perdoe) no comando da nação símbolo de convivência humana numa democracia, na Europa e no mundo. Depois de Trump, nos Estados Unidos, nada de pior se poderia imaginar.

“Duvidar, quem há de?”, perguntaria, por sua vez, o saudoso colunista do jornalismo na Bahia, dos anos 60/70, Sílvio Lamenha, se vivo estivesse, ao comentar, em seu original, culto e bem cuidado estilo verbal, a fala do ministro Celso de Mello. É cedo ainda para respostas definitivas. Muito ainda a conferir no ambiente estranho, confuso e de cartas ainda tão embaralhadas. Requer argúcia e sensibilidade de jogadores mais leves, persistentes e com jogo de cintura, além de muito sangue frio. Bem ao estilo de Silvana, um dos destacados personagens na novela em andamento, de Glória Perez, adepta incorrigível do carteado, encarnado com arte e graça invulgares, até aqui, pela atriz Lília Cabral.

Os rumos dos fatos nos dias seguintes, a avaliar pelas novas prisões e buscas determinadas pelo juiz Sérgio Moro; o novo depoimento de Renato Duque ao magistrado condutor da Lava Jato, em Curitiba, nesta sexta-feira; a decisão de Fachin, de mandar para o Pleno do Supremo, o julgamento sobre o destino de Palocci; o novo depoimento da publicitária Monica Moura, sobre as cavernosas mensagens trocadas, nos rascunhos do e-mail, com a ex-mandatária Dilma Rousseff.Tudo isso e, principalmente, a humilhante e desonrosa manifestação que recepcionou José Dirceu, em seu retorno à Brasilia, parecem cobrir de razão o decano do Supremo.

Não custa ter paciência, esperar um pouco mais, e conferir. Outra saída é pagar para ver, como no carteado de Lília Cabral no novo folhetim da Globo. Façam as apostas.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Jair Santos on 6 Maio, 2017 at 8:13 #

Por que o “ínclito” procurador Dallagnol quer evitar a gravação do depoimento de Lula no dia 10/05????http://www.brasil247.com/pt/247/parana247/294007/Dallagnol-quer-evitar-grava%C3%A7%C3%A3o-do-depoimento-de-Lula-para-%E2%80%9Cproteger-Lula%E2%80%9D.htm


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