DO G1/JN

Os delatores da Odebrecht contaram detalhes sobre como e onde eram feitos os pagamentos de propina.

No início do esquema a entrega de dinheiro era feita assim: o doleiro alugava um escritório ou um quarto de hotel por um único dia. Quem buscava as propinas recebia o endereço e uma senha que ele tinha que falar, se não, não recebia. Os delatores contaram que os locais de entrega mudavam sempre.

Hilberto Mascarenhas: Se você fizer um negócio no mesmo local, você é assaltado no dia seguinte.
MP: Era espalhado pelo Brasil?
Mascarenhas: Não. Principalmente São Paulo e Rio.

Delatores, que participavam de um grande esquema de assalto aos cofres públicos, passaram a ter medo de assalto, afinal, eram várias malas de dinheiro de propina que circulavam pelas ruas nas mãos de executivos da Odebrecht. Aí, contam os delatores, a construtora decidiu mudar a forma de fazer os pagamentos: os executivos deixaram de ser intermediários.

Fábio Gandolfo: A empresa também ficou muito preocupada com esse movimento de gente com dinheiro. A gente pegava dinheiro num lugar e levava para outro. É um risco grande, valores significativos, às vezes. Eles não mais permitiam que nós fôssemos buscar no doleiro.

Outro delator conta que a pessoa que receberia a propina indicava o local.

Mascarenhas: Aí ele dizia: entrega no hotel tal, ou no apart-hotel, ou entrega na minha casa, ou entrega na casa de minha mãe ou de minha sogra.

Teve até pagamento de propina na casa de mãe. Hilberto Mascarenhas confirmou que foram pagos R$ 500 mil para o então governador da Bahia Jaques Wagner na casa da mãe dele, no Rio de Janeiro.

Mascarenhas: Ele teve algum problema lá com a mãe dele e não queria mais que fosse usada a casa da mãe dele para fazer esse pagamento. Ele pediu, nós fizemos um esforço grande e conseguimos pagar em Salvador.

Fábio Gandolfo contou que, com medo dos telefones grampeados, eles passaram a mandar as senhas via motoboy.

Gandolfo: Então eu punha num envelopinho, mandava pro Motoboy, ele ia entregar lá no centro, pegava e aí ele se virava.

Apesar de tudo combinado, às vezes o esquema não funcionava bem. Álvaro Novis, sobrinho do ex-presidente da Odebrecht Pedro Novis, escondeu entre R$ 7 milhões e R$ 8 milhões na baia de um cavalo dele, no Jockey do Rio de Janeiro. Acontece que houve um assalto e lá se foi a propina. E pior: como era dinheiro não declarado, ele não pôde chamar a polícia.

Mascarenhas: Ele tem cavalo de corrida e tinha escondido o dinheiro lá e tinha um assalto. Teve que pagar. Tava na mão dele o dinheiro. O dinheiro era dele. Dinheiro era meu e estava na mão dele. Ele tinha que dar conta.

A produção do Jornal Nacional foi até o Jockey do Rio de Janeiro e, sem se identificar, conversou com funcionários, que confirmaram o roubo.

“Foi bem feito sumir mesmo. Foi mesmo o empregado dele mesmo. O cabra que trouxe foi o mesmo que levou”, disse um funcionário.

Em baia de cavalo, em malas, em hotéis ou imóveis alugados, de senha em senha o esquema de pagamento de propina da Odebrecht desviou mais de R$ 3 bilhões.

Mascarenhas: Meu papel era pagar. Autorizado por quem de direito e eu pagava. Eu não tinha nem saber por quê nem pra quem.

Jaques Wagner repudiou as afirmações de Hilberto Mascarenhas. Disse que o delator é um criminoso confesso que procura desesperadamente um meio para tentar reduzir sua pena nem que para isso tenha de envolver uma senhora de 93 anos.

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