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Postado em 19-04-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 19-04-2017 01:08


DO EL PAÍS

Felipe Betim

Curitiba

Curitiba vive dias de expectativa. Um dos principais cenários das manifestações a favor do impeachment de Dilma Rousseff há exatamente um ano, a capital do Estado do Paraná se mobiliza agora por outro assunto: o depoimento que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acusado de praticar crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro, irá prestar na Justiça Federal do Paraná diante do juiz Sérgio Moro, no dia 3 de maio. Nas ruas, esta data é um dos principais temas em conversas e comentários dos curitibanos. Muitos deles prometem comparecer à sede da Justiça Federal do Paraná no dia do depoimento para “recepcionar” o ex-mandatário e apoiar a Lava Jato. Apoiadores do PT de várias cidades brasileiras também planejam atos e caravanas para o mesmo dia. Enquanto isso, a guerra aberta entre Moro e Lula ganhou um novo componente nesta segunda-feira, quando o magistrado determinou que o ex-presidente acompanhe presencialmente os depoimentos de 87 testemunhas de defesa.

No despacho publicado no início da noite, Moro explica que a medida foi tomada para “prevenir a insistência na oitiva de testemunhas irrelevantes, impertinentes ou que poderiam ser substituídas, sem prejuízo, por provas emprestadas”. O magistrado também disse que o número de testemunhas convocadas pela defesa de Lula é “bastante exagerado” e que é “absolutamente desnecessário” escutar todas elas. Ele recordou ainda que em outra ação da Lava Jato na qual o ex-presidente é réu, várias das mesmas testemunhas foram dispensadas ou fizeram depoimentos “de caráter eminentemente abonatório ou sem conhecimento específico dos fatos que eram objeto da acusação”. Ainda assim, Moro acatou o requerimento “para evitar alegações de cerceamento de defesa”, segundo o magistrado.

A defesa de Lula respondeu em um comunicado que a decisão de Moro “configura mais uma arbitrariedade contra o ex-presidente, pois subverte o devido processo legal, transformando o direito do acusado (de defesa) em obrigação”. Além disso, continua a nota, uma vez “presente o advogado, responsável pela defesa técnica, a presença do acusado nas audiências para a oitiva de testemunhas deve ser uma faculdade e não uma obrigação”. O ex-presidente é réu em cinco ações, três delas no âmbito da Operação Lava Jato, sem contar os cinco novos pedidos de investigação encaminhados pelo STF.
3 de maio, dia D

Ainda não há informações sobre as novas datas nas quais Lula teria que comparecer em Curitiba. A única certeza, por enquanto, é a de sua vinda no dia 3 de maio. A data do depoimento foi definida há pouco mais de um mês por Moro. Desde então, vários eventos nas redes sociais vem sendo programados para “receber a jararaca” — termo usado por Lula para se referir a si mesmo em um discurso após ser levado, no ano passado, para depor coercitivamente. Outros atos também foram agendados para prestar apoio ao ex-mandatário. O EL PAÍS contou 12 eventos no Facebook contra o petista e outros 12 a favor.
Este empate nas redes sociais não significa que o jogo está equilibrado na capital paranaense. Curitiba, que tem que cerca de dois milhões de habitantes, é considerada um bastião do anti-petismo — inclusive pelos próprios curitibanos, que se orgulham da baixa votação do PT em eleições. Uma onda de orgulho invadiu a cidade quando, no dia 17 de março do ano passado, uma conversa telefônica do ex-presidente Lula foi divulgada. Nela, ele se referia aos procuradores e juízes da Justiça Federal do Paraná, responsável pelas investigações da Lava Jato, como “República de Curitiba”. Desde então o termo aparece em conversas, é entoado em protestos, está escrito em cartazes e até em roupas. Um ano depois, poucas coisas mudaram. As bandeiras do Brasil, um dos símbolos em manifestações favoráveis ao impeachment, já foram retiradas das janelas. Os panelaços já não são constantes. E as manifestações perderam o vigor de antes. Mas o orgulho de pertencer à “República de Curitiba”, assim como o anti-petismo, permanecem igual.
Acampamento pró-Lava Jato.
Acampamento pró-Lava Jato. F. Betim

Para o taxista Paulo Roberto Cardoso, o ex-presidente é o “chefe maior da quadrilha”, a pessoa que tinha “influência em todas as obras da Odebrecht” no exterior. “O Lula tem que ser preso. O final da Lava Jato tem que ser esse: o Lula na cadeia”, aposta. O engenheiro aposentado Paulo Afonso Faria, de 68 anos, tem a mesma opinião: “Na política, só uns 10% se salvam. Temos no Congresso os ultra radicais da corrupção, como Romero Jucá, Renan Calheiros, Eunício de Oliveira… E temos o chefe da quadrilha, que é o Lula”.

Faria promete estar presente na manifestação a favor da Lava Jato e contra “os comunistas do PT” no dia 3 de maio. “Não somos barulhentos, mas estamos nos falando sempre pelas redes e pelo WhatsApp”, conta. A mais famosa dessas páginas chama-se “República de Curitiba” e possui mais de 200.000 participantes. As mensagens e xingamentos contra Lula e o PT continuam em alta e constantes, mesmo após as delações da Odebrecht mostrarem, na última semana, que a corrupção atinge toda a classe política.

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