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Caetés: a cidade onde Lula nasceu

CRÔNICA

As paixões de Cristo e Lula

Aproveitando o Sábado de Aleluia, me dei o direito de criar um espetáculo com toques cordelistas, surrealistas e musicais falando da história mais famosa de todos os tempos, numa visão, digamos, correligionária.

Num teatro saindo gente pelo ladrão, cortinas de caroá se abrem e lá no fundo desponta um belo firmamento salpicado de pequenas luzes vagalumeando por entre algarobas e facheiros da pequena Caetés, um acanhado vilarejo do agreste pernambucano.

À esquerda do cenário, pela ótica de quem vem de Garanhuns, uma vistosa estrela vermelha cintila suas cinco pontas como se mandando sinais intermitentes da chegada do enviado.

Chocalhos soam e no canto do palco surge um pequeno curral com uma criança barbadinha (já demonstrando sua excepcionalidade) deitada numa esteira de sisal, brincando com um pião de goiabeira e cercada de bodes, bezerros e tô-fracos moldados no barro queimado do mestre Vitalino.

Entram as pastorinhas endiabradas do Véio Mangaba (só as encarnadas e com bonés do MST) cantando uma versão do Menestrel das Alagoas, que diz: “Quem é este barbudinho, quem é este tabaréu, que um dia vai engabelar doutores e nos dará mirra, ouro e mel?”.

Em seguida, alarmes de quero-queros antecipam os pocotós, pocotós que trazem três caboclos de lança que saíram de Gravatá, cortaram a Serra das Russas por fora e finalmente chegam ao local do milagre.

Paramentados como reza a tradição dos maracatus rurais, dá-se início suas apresentações em forma de charadas, para que o Véio Mangaba adivinhe quem é quem.

O primeiro tira a flor da boca e diz: “Mergulho num mar azul piscina e venho de terras onde Ruis são Palmeiras e não Barbosas. Lá tem zuns de besouro, sururu de capote e uma cidade de nome Murici, onde cada um cuida de si. Trago ao meu amado Messias da Silva minha eterna lealdade. Quem sou eu?”. Mangaba, diz: “Por essas manjadas bochechas de romã que o candeeiro alumia, já sabia que eras tu, Renan, um dos reis que manda em Brasília. Agora dê o fora antes que o galo cante três vezes e acelere a história”.

O segundo se apresenta: “Nasci na cidade do Recife, mas pra Roraima me mudei. Tenho no nome a firmeza do pau-ferro e no bigode os fios da minha honradez. Já fui líder de reis e rainhas e deste Messias também serei. Quem sou eu?”. Mangaba, diz: “diagonalmente vosmicê me lembra um senador que cruzei numa suruba em Brasília. Jucá! Jucá!, não queiras me enganar que eu não sou o palhaço Arrelia! De você só quero o chá pra curar minhas hemorroidas e disenteria”.

O terceiro, bem, o terceiro, infelizmente, não vai poder se apresentar, pois acaba de ser levado algemado por um centurião da Federal. Mas,

Janio Ferreira Soares , cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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