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Postado em 12-04-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 12-04-2017 00:48


O editor do ‘Post’, Martin Barron (à esq.)
junto a David Fahrenthold. Bonnie Jo Mount AP

DO EL PAIS

Cristina F. Pereda

Washington

O jornalismo dedicado a revelar casos de corrupção, os abusos de poder e as crises sociais como a epidemia do vício em opiáceos nos vários Estados norte-americanos ou os abusos sexuais nas universidades ocuparam as principais categorias dos prêmios Pulitzer, anunciados na segunda-feira em Nova York. Também houve um espaço dedicado ao presidente Donald Trump imerso em uma batalha contra os principais meios de comunicação do país, já que a organização premiou a reportagem do The Washington Post que desmascarou como o empresário mentiu sobre supostas doações a entidades de caridade.

O responsável pelo prêmio Pulitzer, Mike Pride, destacou, na segunda-feira, que no começo do segundo século desta que a é a maior honra do jornalismo norte-americano, o setor se encontra “imerso em uma revolução”. Pride reconheceu que os jornalistas contam atualmente “com ferramentas com as quais são antecessores não podiam nem sonhar”, mas que, em troca, isso significa apenas uma coisa: “Não sabemos qual será o resultado disso”.

O júri reconheceu a reportagem de um jornalista do Post, David Fahrenthold, que se serviu justamente dessas novas ferramentas para revelar as mentiras do presidente. Durante a campanha, Fahrenthold recorreu, em repetidas ocasiões, à ajuda de usuários do Twitter para suas investigações. Na segunda-feira, foi reconhecido “por sua persistência, que criou um modelo de jornalismo transparente na cobertura de campanhas políticas, ao mesmo tempo em que questionava as declarações de Trump sobre sua generosidade caritativa”.

A cobertura eleitoral também motivou outro prêmio, neste caso o de melhor comentarista, para a jornalista Peggy Noonan, do The Wall Street Journal. Os 19 membros do júri destacaram que Noonan “conectou, em belas colunas, os leitores com as virtudes de todos os norte-americanos durante uma das campanhas políticas mais divisível deste país”.

O júri preparou uma surpresa para o The Storm Lakes Times, um pequeno diário de uma cidadezinha de Iowa. Com uma tiragem de apenas 3.000 exemplares, um de seus donos, Art Cullen, ganhou o Pulitzer na categoria de editoriais graças a uma série em que desafiou várias empresas do setor agrícola que processaram a localidade.

Os prêmios Pulitzer são uma homenagem a Joseph Pulitzer, fundador da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia e, a cada ano, reconhecem os melhores trabalhos jornalísticos em jornais, revistas e sites, divididos em 14 categorias, como reportagens, fotografia, crítica e comentaristas. A seção dedicada às artes entrega sete prêmios para obras de literatura, teatro e música.

A prestigiosa categoria de melhor jornalismo de utilidade pública destacou o trabalho de uma repórter da organização de jornalismo investigativo ProPublica, sem fins lucrativos, que revelou como a polícia abusa das políticas de despejo para expulsar centenas de pessoas de seus lares a cada ano, especialmente pobres e de minorias raciais. O prêmio também agracia o New York Daily News, que investigou o caso junto com a ProPublica.

O The New York Times superou a barreira dos 120 prêmios em sua história com três novas condecorações. Pelo terceiro ano consecutivo, o diário levou o prêmio de melhor jornalismo internacional graças a uma reportagem sobre os esforços de Vladimir Putin para projetar o poder da Rússia no exterior. Os jurados atribuem ao Times “ter revelado técnicas que incluem o assassinato, o assédio online e o ato de plantar provas incriminadoras contra seus oponentes”.

O jornal nova-iorquino, acostumado a dominar os prêmios mais prestigiados do setor, também foi condecorado na categoria fotografia, com a série em que Daniel Berehulak retratou a campanha de violência nas Filipinas, e na categoria revista, por uma reportagem de C.J. Chivers dedicada a um veterano da Guerra do Afeganistão que sofre de estresse pós-traumático.

A organização que, todos os anos, regressa à Universidade de Columbia para premiar as melhores obras jornalísticas reconheceu o trabalho do diário Miami Herald e do grupo McClatchy sobre os Panama Papers, uma série que envolveu mais de 300 jornalistas em seis continentes “para expor a estrutura oculta e a escala global dos paraísos fiscais”.

O Pulitzer das artes reconhece obras sobre desigualdade

Um relato sobre a trajetória dos escravos afro-americanos até a liberdade foi premiado com o Pulitzer de melhor livro de ficção de 2017 por sua “inteligente fusão de realismo e alegoria que combina a violência da escravidão e o drama da fuga”, nas palavras do júri sobre a obra de Colson Whitehead.

Segundo os jurados, Underground Railroad é “um mito com ecos na América de hoje”. Na categoria de não-ficção, a Universidade de Columbia destacou a obra de Matthew Desmond, Evicted, que conta como os despejos em massa após a crise das hipotecas de 2008 condenou milhares de cidadãos à pobreza.

A obra Sweat, de Lynn Nottage, dedicada aos obstáculos enfrentados pelos trabalhadores dos Estados Unidos para atingir o sonho americano foi premiada na categoria de teatro, enquanto o prêmio de história foi dado para Blood in the Water, uma investigação sobre as consequências das revoltas na prisão de Attica, em 1971. A categoria de poesia também premiou uma obra dedicada às minorias raciais, reconhecendo Tyehimba Jess por seus poemas dedicados às noções de raça e identidade.

A nível local, o Pulitzer de 2017 premiou o The Salt Lake Tribune, o jornal do Utah que revelou “o tratamento perverso, punitivo e cruel” dado às vítimas de agressões sexuais na Universidade Brigham Young, a mais prestigiosa do Estado. A categoria de notícias urgentes destacou um jornal de Oakland, na Califórnia, por sua cobertura de um incêndio que provocou a morte de 36 pessoas. O júri afirmou que os jornalistas “expuseram as falhas da cidade na hora de tomar medidas que poderiam ter prevenido [a tragédia]”.

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