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DO EL PAIS

Jan Martínez Ahrens

Washington

Donald Trump fracassou. O grande negociador, o dealmaker, o homem que pode tudo, sofreu, por intermédio de seu próprio partido, a maior humilhação de sua presidência. A votação da reforma da saúde na Câmara dos Representantes foi suspensa in extremis diante do medo de não conseguir maioria suficiente. De nada serviram suas ameaças aos congressistas nem sua bravata de manter o sistema atual, o Obamacare. Os falcões do Freedom Caucus, 36 congressistas republicanos herdeiros do desestabilizador Tea Party, se encastelaram no não e fizeram o presunçoso bilionário sentir o verdadeiro preço da política.

A derrota é de Trump. Ele havia assumido a liderança da batalha e ele, apesar de ter maioria na Câmara dos Representantes, foi incapaz de dobrar seus próprios correligionários. Reuniu-se com eles e fez concessões enormes, incluindo a eliminação dos serviços básicos de saúde. Mas não conseguiu convencê-los. E quando, num gesto de força, decidiu partir para o confronto e adiantar a votação para sexta-feira, perdeu o controle e teve de adiar sua primeira prova parlamentar.

Com uma popularidade muito baixa (apenas 37% aprovam sua gestão), terá de digerir o fracasso e abrir uma nova e dolorosa negociação. O caminho será longo. Os republicanos moderados temem perder sua base eleitoral e os falcões temem trair sua ideologia. A conciliação é complexa. Se a lei vira para o lado mais social, os ultraconservadores voltarão aos velhos tempos. Mas se assumirem as exigências radicais, baseadas numa redução drástica dos serviços mínimos de saúde, então a proposta fracassará na próxima instância, o Senado. Lá, um grupo de notáveis republicanos com capacidade de bloqueio já deixou claro que não aceitará nenhuma reforma que reduza a cobertura já oferecida. E se conseguir superar esse obstáculo, a lei ainda deverá ser referendada por um comitê conjunto e, finalmente, pelo voto de ambas as Câmaras.

A tensão é paradoxal. O mesmo Obamacare que agora divide os republicanos, durante anos os uniu. Desde que em 2010 o presidente democrata foi adiante com seu projeto, os conservadores o consideram um compêndio dos males da esquerda. Pouco importa que a cobertura tenha sido estendida a 20 milhões de pessoas ou que tenha vetado a prática cruel das seguradoras de recusar ou explorar pacientes com doenças anteriores. Para os republicanos, o sistema desenvolvido por Obama ataca a raiz da sua ideologia: amplia a burocracia federal, aprofunda o déficit e acaba com a liberdade de escolha.

Trump, com instinto político, soube monopolizar esse mal-estar. Na campanha e como presidente bateu impiedosamente na criatura de Obama e anunciou que seria ele e mais ninguém que iria sacrificá-la. E assim o encenou. No começo de março, quando o líder republicano na Câmara dos Representantes, Paul Ryan, apresentou o projeto alternativo, o presidente se apropriou dele. Depois do fracasso judicial do seu veto migratório e com as chamas do escândalo russo a cercá-lo, a reforma da saúde se tornou sua grande válvula de escape e sua primeira prova parlamentar.

O projeto apadrinhado por Trump se define por eliminar a obrigatoriedade do seguro de saúde, congelar o programa para os mais desfavorecidos e acabar com o sistema fiscal que alimenta a rede assistencial. A desconstrução é profunda, mas não completa. Continua proibindo as seguradoras de recusar um paciente com doenças anteriores e dá prazos para desmantelar a obra do antecessor. O resultado é um híbrido que não satisfez a ânsia de liquidar dos radicais, mas tampouco cumpriu a promessa de Trump de garantir a cobertura universal.

O Escritório de Orçamento do Congresso, um organismo apartidário cujos estudos gozam de reconhecimento geral, estabeleceu que a aplicação do plano republicano implicaria deixar 14 milhões de pessoas sem cobertura médica no próximo ano e 24 milhões em uma década, elevando a população sem cobertura a 52 milhões. Também significaria um aumento das apólices de 15% para 20% nos próximos dois anos. Tudo isso foi desmentido pela Casa Branca, que tomou como única referência para o estudo a economia que seria obtida pelo seu projeto: 150 bilhões de dólares (cerca de 467 bilhões de reais) em uma década.

Para os radicais, nada disso serviu. Sua obsessão é que o seguro médico fique mais barato e que se reduza o peso do Estado na vida civil. Para esse fim, exigiram que fossem eliminados do projeto os chamados serviços essenciais de saúde incluídos por lei nas apólices e que abarcam a medicina preventiva, o atendimento de emergência, a internação hospitalar, a saúde mental e a maternidade.

A exigência era praticamente suicida. Como lembrou Paul Ryan, assumi-la implicaria que a reforma nunca poderia passar pelo filtro do Senado, onde a maioria republicana é exígua (52 contra 48) e os moderados já anunciaram que rejeitariam uma lei desidratada até esse ponto.

A última tentativa de conciliar ambos os interesses não deu resultado. Embora Trump tenha aceitado a impopular redução dos serviços, os ultraconservadores avaliaram que continuava sendo excessivo o intervencionismo estatal na área da saúde. Ao chegar a esse ponto, qualquer passo seguinte implicaria incendiar a ala moderada. A capacidade de manobra havia sido esgotada. O negociador tinha fracassado e teve de adiar a votação.

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