O lindo trio que salvou meu carnaval

Janio Ferreira Soares

Como eu sabia que o melhor carnaval do mundo não tem nada a ver com cordas ou trios, mas sim com a idade de quem o brinca (olha o segredo aí, gente!), aproveitei esses dias de descanso para realizar uma tarefa que vinha adiando há anos e que, de todas que esperavam sua vez na fila das promessas não cumpridas, era a mais urgente. Simbora.

Sabe aquele quartinho onde vivem os objetos que vamos juntando ao longo da vida e que poderiam, se analisados por um olhar mezzo freudiano, mezzo junguiano, até desvendar nossas neuroses, sonhos e egos? Pois foi justamente nele que me enfurnei com uma caixa de Polaramine na mão para mostrar aos ácaros que não estava de brincadeira, só pra resgatar pedaços do meu passado. Explico.

Entre pastas cheias de crônicas que sonham um dia virar livro; fotos de tios e tias que há muito não vejo e que me matam de saudades; um velho violão implorando novas cordas achando que com elas voltarão os tempos de “nessa estrada só quem pode me seguir sou eu”; e pilhas e pilhas de livros cheios de marcadores nas páginas a me olhar com suas orelhas sujas de poeira, como se dizendo: “ô velho sacana, vê se nos fins de semana deixa esse seu jeito macunaímico de lado e vem ler a gente de novo!”, lá estavam duas caixas com mais de uma centena de fitas VHS contendo filmagens que abrangem um período de uns 20 anos da minha vida e que, não fossem limpas agora, se perderiam para sempre no buraco negro do esquecimento.

Pois muito bem, com um bom Videocassete e uma fita de limpar cabeçote de prontidão, deixei pra lá Olinda, santinhas e carros alegóricos despencando no Sambódromo e comecei a rever as lindas feições de Luiza, Júlia e Juca se transmutando ano após ano em meio a brincadeiras, birras e carinhos, desses disfarçados pela vontade de um belo beliscão na bochecha um do outro.

Confesso que até a quarta-feira de cinzas só consegui catalogar uns 10% das fitas, mas já deu pra perceber que, além das mudanças físicas no trio que endoideceu meu coração, certos traços de suas individualidades são de berço. É tanto que, ao assistir Julia, então com 5 anos, já dando o dedo a uns coleguinhas que riem de sua queda do velocípede, só atesta que a brabeza da pretinha vem de longe.

Do mesmo modo, quando Luiza, ainda miudinha, destrambelha a chorar porque não lhe dou a câmera pra ela filmar uns cachorrinhos recém-nascidos, é claro que ali já estava minha marqueteira favorita.

Já Juca, coitado, por sofrer o que todo caçula sofre nas mãos de irmãs mais velhas, tinha tudo pra não ser essa placidez lindamente mansa que até parece de nuvens.

Quanto a mim e Valéria, em todas as filmagens estamos babando. Talvez na Semana Santa, na retomada dos trabalhos, a gente já tenha parado. Mas se eu fosse você, apostava que não.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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