( Publicado originalmente na Folha de S. Paulo , em 24/08/2014 . Reproduzido pelo jornalista Claudio Leal nesta terça-feira, 07/02.)

RESUMO Considerada a musa dos existencialistas nos anos 50, a cantora francesa grava novo álbum em homenagem ao belga Jacques Brel e volta a se apresentar em Paris. Ligada às ideias de esquerda, ela fala da música brasileira, que admira, e das mudanças econômicas e políticas pelas quais seu país tem passado.

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CLAUDIO LEAL

Aceso no letreiro vermelho da casa de espetáculos Olympia, o nome de Juliette Gréco injeta em Paris a sensação de que Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir ou Boris Vian podem ser reencontrados em cafés de Saint-Germain-des-Prés. Esses três amigos estão mortos, a primavera é a de 2014, e a musa dos existencialistas resiste em seu mítico robe negro, aos 87 anos.
Encerrado o show, ela retornará ao palco por três vezes, nenhuma delas para bisar, somente para agradecer aos aplausos.

A salvo de uma chuvosa tarde de maio, nove dias mais tarde, Gréco bebe um copo de vinho branco no restaurante Zebra Square, próximo à ponte Mirabeau. Cercada de mesas vazias, tem os olhos sombreados por lápis preto e enquadrados pela franja que espeta a face branca. “Nunca teria pensado em fazer isso. Nunca. Por pudor e por medo. Por medo, talvez, de não estar à altura”, afirma a cantora sobre o recém-lançado álbum “Gréco Chante Brel” (Universal Music), em homenagem ao compositor belga radicado em Paris Jacques Brel (1929-78), um dos autores mais regravados da história da canção francesa.

Na passagem dos 35 anos de morte do cantor, em 2013, duas perguntas íntimas a fizeram superar esse receio: “Por que não? Por que não posso dizer que o amo?”. Casada com o pianista Gérard Jouannest, 81, colaborador de Brel por dez anos e coautor de “Ne me Quitte Pas”, Gréco subverte essa canção e impõe um tom intimidador ao mendicante “não-me-deixe”. “Eu amo demais Brel para vê-lo chorar diante das mulheres. Isso me enerva”, confessa. “Eu o vejo ameaçador, mas, ao fim, destruído e aos pedaços.”

Em 1949, a voz grave de Juliette Gréco invadiu as noites parisienses. Marcado por letras tiradas da obra poética de escritores como Raymond Queneau (“Si Tu t’Imagines”) e Jules Laforgue (“L’Éternel Féminin”), musicadas pelo compositor franco-húngaro Joseph Kosma, o repertório começou a ser pesquisado em livros selecionados por Sartre. O filósofo lhe indicava as páginas e não só a estimulou a cantar mas lhe deu de presente a inédita “La Rue des Blancs-Manteaux”, que escrevera para sua peça “Entre Quatro Paredes”.

“Je Suis comme Je Suis”, poema de Jacques Prévert encampado por Gréco, definiria a imagem de mulher emancipada, disposta a armar barricadas em defesa de sua liberdade -incluindo a de fazer uma plástica no nariz: o dela foi encurtado na década de 50.

Passada a estreia no cabaré Buf sur le Toit, reduto de escritores desde os anos 20, circulou em duas caves: o jazzístico Club Saint-Germain e o existencialista (e efêmero) Le Tabou, criado em porão descoberto por ela. O público da cantora encheria prateleiras e era encabeçado por Albert Camus, Merleau-Ponty, Jean Cocteau (que a incluiu no filme “Orfeu”) e Jacques-Laurent Bost, entre outros bem-pensantes. Por algum tempo, ela namorou o músico Miles Davis.

EXISTENCIALISMO

Militante da Resistência Francesa, sua mãe sobreviveu ao campo de concentração de Ravensbrück, onde reencontrou uma das filhas, Charlotte, presa ao lado de Juliette pela Gestapo, em 1943 -a futura cantora foi libertada antes da irmã.

Com a liberação de Paris, inicialmente sem notícias da família, Gréco encarnaria o êxtase do pós-Guerra e, não sem uma vaidade impetuosa, logo seria nomeada pela imprensa como a musa da corrente filosófica impulsionada por Sartre na conferência “O Existencialismo É um Humanismo”, que superlotou o Club Maintenant, em 29 de outubro de 1945. A proximidade com intelectuais de esquerda se tornaria um curso universitário informal para a estrela aprendiz.

“Sua voz tem milhões e milhões de poemas que ainda não foram escritos”, definiu Sartre no texto enviado para o programa das apresentações da cantora no Rio de Janeiro, em 1950. O filósofo impulsionou sua carreira e a ajudou na descoberta do poder da linguagem.

“Conhecia não muito bem, mas não muito mal, o valor da palavra. A palavra é uma arma terrível”, declara a artista à Folha. “Eu já tinha a tendência de considerar que era responsável por minha vida. Sabia disso desde pequena. O senso de responsabilidade me ajudou a não ter vergonha de mim mesma.”

Das obras do amigo, ela prefere “As Palavras”. Mas quando tinha dúvidas sobre livros mais encorpados, recorria a outro mestre de filosofia, que a abordou pela primeira vez no bar Pont Royal, atraído pela garota solitária. “Quando comecei a ler Sartre, não entendia nada. Nada! Então, eu pedia a [Maurice] Merleau-Ponty para me explicar: ‘O que quer dizer isso aqui?’. Às vezes, saíamos juntos para dançar”, recorda.

Ainda hoje, nela vivem as paixões de esquerda. Pouco antes da entrevista, o partido de extrema direita francês Frente Nacional saíra vitorioso nas eleições para o Parlamento Europeu. Questionada sobre a derrocada dos socialistas e o avanço da xenofobia, a cantora subitamente se fragiliza: “Ontem à noite, eu chorei muito. Eu estava infeliz, muito triste. Depois, como é minha característica, a raiva subiu um pouco. Isso fez com que me sentisse melhor”.

Gestos faciais animam suas frases. No Olympia, acompanhada por piano e acordeom, beirou o recital: Brel, Léo Ferré e Serge Gainsbourg se reavivaram em interpretações que realçavam os versos. Ela esclarece sua técnica: “Se lemos ‘Amsterdam’, a letra é forte, terrível. A música suaviza as palavras. Quando sou acompanhada pela música, há coisas que são atenuadas, ficam mais doces, menos duras. Brel é muito denso”.

A fama de cantora cerebral, imersa no universo literário, magnetizou jovens compositores. Em 1962, no apartamento de Gréco, amaciado pelo champanhe, Gainsbourg se desnorteou com a estranha dança da anfitriã, enquanto ouviam discos. No dia seguinte, ainda hipnotizado, telefonou: “Tenho uma coisa para você”. O mimo era “La Javanaise”, sucesso instantâneo, dali em diante onipresente em seus concertos.

Como drible no debate sobre o declínio (ou morte) comercial da “chanson”, Juliette Gréco descreve um cruzamento de tradições, no qual o gênero se moderniza.

Em 2009, ela gravou o rapper francês de origem congolesa Abd Al Malik, 39, parceiro de Gérard Jouannest. “Ele tem uma forma moderna de expressão, que remete ao Islã. É um verdadeiro escritor, enormemente talentoso.”

NO RIO

A conversa embica para o Brasil quando ponho sobre a mesa uma cópia de reportagem de Rubem Braga para o “Correio da Manhã”, republicada na coletânea “Retratos Parisienses” [org. Augusto Massi, José Olympio, R$ 35, 160 págs.], um registro dos tempos de correspondente na capital francesa.

Olhar feliz, Gréco lê o título de sua primeira entrevista a um jornal brasileiro, em novembro de 1950: “A mais bela professora de filosofia”. Enternecida, solta um longo “oh” e leva um beijo até a folha em sua mão esquerda. Sem dúvida, o beijo é para Rubem, mas guarda uma distante lembrança do cronista capixaba e se surpreende ao sabê-lo frequentador do porão Tabou: “O Braga?”.

Aos 23 anos, perto de embarcar com seus vestidos de Elsa Schiaparelli para o Brasil, onde cantaria na boate carioca Vogue, Gréco reafirmou a Braga: “Sim, sou existencialista”. Passadas seis décadas, ouve essa antiga resposta e aceita manifestar suas novas crenças. “O ideal do progresso, o ideal do amor ao outro, o ideal de que os humanos um dia possam se olhar e se escutar. Agora, nós estamos regredindo. Não há mais confiança. Isso me amedronta. É uma época de desconfiança, de ficar voltado para dentro de si. Não é uma época de generosidade. Isso não é a vida.”

Convidada pelo barão austríaco Max von Stuckart, dono da Vogue, para uma temporada curta no Rio de Janeiro, acabou ficando três meses. Tanto abafou que estrelou um ensaio (“ridículo, mas engraçado”) do fotógrafo francês radicado no Brasil Jean Manzon para a revista “Paris Match”, no qual a rebelde dirigia um luxuoso Cadillac. Na semana da posse de Getúlio Vargas, em 1951, cantou para o presidente “La Rue des Blancs-Manteaux”.

Algo enciumada com as constantes menções de Gréco a Sartre em entrevistas, bem como atiçada por fofocas sobre a luxuosa temporada na América do Sul, Simone de Beauvoir ironizou a viagem da “bela cantora” numa carta ao escritor americano Nelson Algren, seu amante: “Ela se diz uma existencialista muito séria e pretende fazer conferências!”.

“Fui ao Brasil há muito tempo e encontrei gente extraordinária. Há uma música do folclore… ‘Juazeiro, Juazeiro…'”, canta Gréco. Informada sobre os autores, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, ela acrescenta: “Adoro isso! A música brasileira é de coração e de sentimento. E, bem, uma música de músicos”.

Apesar da idade, não afasta a possibilidade de retornar ao país: “Quem sabe?”. De suas recordações, emerge uma “coisa terrível” aprendida no país. “Um brasileiro me ensinou este provérbio: ‘Flor sem odor, homem sem honra, mulher sem pudor’. Fiquei chocada”.

O Brasil lhe traria ainda outras descobertas. Em 1993, o letrista francês Étienne Roda-Gil a aproximou dos compositores Caetano Veloso, João Bosco e Tom Jobim, convidados para o álbum “Juliette Gréco”. “Quero que Caetano saiba o quanto o amo. É um homem forte, corajoso.”

A musa da Rive Gauche agora se divide entre uma casa em Verderonne, no norte da França, e outra mais solar em Ramatuelle, na Côte d’Azur, mas segue testemunhando a explosão do comércio em Paris. “No lugar das livrarias, há lojas de vestidos e de sapatos. Isso é uma merda”, reclama.

“Há sempre as sombras. As sombras continuam vivas. Quando vou ao (Café de) Flore, vejo que a clientela procura qualquer coisa que não está mais ali. É bizarro. Em Saint-Germain-des-Prés, sinto que sou um pouco como uma estátua andando… Que não sou real!” Nesse canto mais escuro do restaurante, Juliette Gréco passa a simular uma marcha endurecida. O mito francês se faz de mármore.

Cláudio Leal é jornalista.

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Comentários

regina on 8 Fevereiro, 2017 at 4:58 #

Caríssimo Cláudio, Juliette Gréco, ao seu tempo, nos cafés parisiense ou nós, no presente, saboreando acarajé e abará, no largo da Mariquita em Salvador, são momentos e personagens que, por diferentes motivos, mas imensos em significância, serão para sempre lembrados!! Abraços


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