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Postado em 05-02-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 05-02-2017 01:19


Velório de Marisa Leticia
Fernando Bizerra Jr EFE

DO EL PAIS

Talita Bedinelli

São Paulo

Ainda era madrugada quando três amigos de Sorocaba chegaram à sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, onde o corpo de Marisa Letícia Lula da Silva chegaria às 9h deste sábado. Foram os primeiros. Horas depois, centenas de apoiadores do ex-presidente Lula já faziam uma fila ordeira no porta do local, na expectativa de poder dar um abraço nele. “O Lula é o Lula”, explicava Luciano Gonçalves Porto, 34, um dos sorocabanos que deixou sua cidade às 23h desta sexta-feira rumo à Grande São Paulo. “Foi uma perda grande. Marisa foi uma batalhadora que lutou muito pelos direitos das mulheres”, descrevia a professora Marluce Gonçalves Cardoso, 61 anos, também no início da fila. A ex-primeira-dama morreu no final da tarde desta sexta-feira, depois de ficar internada por dez dias devido a um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Do lado de dentro do prédio, desde pouco antes das 9h Lula recebia familiares e amigos no salão do sindicato, onde ele iniciou sua carreira política como líder de greves históricas no final da década de 1970. Foi ali também que ele conheceu sua “galega”, a mulher que viria a ser sua companheira pelos próximos 43 anos, quando ela foi ao local buscar um carimbo para poder retirar a pensão do primeiro marido, morto em uma tentativa de assalto anos antes. Por volta de 10h30, imprensa e público foram autorizados a entrar. Abaixo de uma foto gigante em preto e branco que retratava o casal, Lula abraçou grande parte dos que esperavam, um a um. Muitos dos populares deixavam o local chorando.

O velório da ex-primeira-dama também serviu de espaço para desabafo de petistas. “Essa morte prematura está muito ligada a esse clima de ódio que existe no país”, afirmava Gilberto Carvalho, ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência e amigo de Lula. Referia-se ao turbilhão da Operação Lava Jato, que, há quatro meses, tornou a ex-primeira-dama ré em duas investigações, ao lado do marido. Era acusada de, com Lula, ocultar um tríplex no Guarujá, que teria sido reformado pela construtora OAS, e também de ter sido beneficiada pela compra de um apartamento em São Bernardo do Campo, pela Odebrecht, mas que não estão, oficialmente, em nome deles. Ela ainda é citada em investigações relacionadas a um sítio em Atibaia, para o qual teria comprado dois pedalinhos, de 5.600 reais no total. “Não é exagero dizer que mataram dona Marisa”, dizia, taxativo, o senador Lindbergh Farias. “Ela foi vítima de uma perseguição infame”. O senador fez questão de destacar que o partido continuaria a fazer oposição ao presidente Michel Temer, pese a visita feita por ele a Lula, no hospital Sirio-Libanês, onde Marisa Letícia estava internada.

Mais positivo, o vereador petista Eduardo Suplicy dizia acreditar que a morte da ex-primeira-dama poderia servir para pacificar o país. Ele destacou que o ex-presidente Lula se colocou à disposição de Temer para ajudá-lo, se preciso. “Neste momento de desavenças tão profundas, a morte de dona Marisa criou essa vontade de se conversar sobre o Brasil”, destacou o ex-senador.

Mas o ex-presidente aproveitou seu discurso emotivo, em frente ao caixão da mulher, para acusar seus oponentes de perseguição. “Dona Marisa morreu triste com a maldade que fizeram com ela”, afirmou. “Que os fascistas que fizeram isso com ela tenham coragem de pedir desculpas”, afirmou, enquanto fazia pausas para beijar o rosto da mulher. “Não sou eu quem tenho que provar que sou inocente. Eles que vão ter que parar com as mentiras. Descanse em paz, que seu lulinha paz e amor vai continuar brigando”, concluiu para depois cair em lágrimas novamente.

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Comentários

Daniel on 5 Fevereiro, 2017 at 10:45 #

É absolutamente lamentável – e perverso – que se use o funeral de um cônjuge para fazer o mais rasteiro proselitismo político.

Daí se percebe com que tipo de mentalidade estamos lidando…


Vanderlei on 5 Fevereiro, 2017 at 18:59 #

Assim, tivemos a oportunidade de conhecer a personalidade deste um homem. E do que ele é capaz!


Jair Santos on 5 Fevereiro, 2017 at 22:20 #

Do doutor em Filosofia Wilson Gomes, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, via Facebook:

Primeiro apareceram os que acusaram Lula de pecado futuro: vai usar a morte da esposa para se fazer de vítima. Acusar alguém de pecados ainda não cometidos é uma tentativa de fechar ao acusado uma alternativa, de desqualificá-la de antemão: “vai doer, mas chorar você não pode; tente, então, ficar quietinho”. “Fazer-se de vítima” é uma dessas expressões curiosas da alma brasileira, vez que quem acusa o interlocutor de se fazer de vítima geralmente está fazendo o papel de verdugo. O carrasco está barbarizando, mas, por favor, tenha compostura, “não se faça de vítima”.

Depois apareceram as condenações pelo “uso político do velório”. Como pode um sindicalista e político enterrar a própria esposa com um coração de político e sindicalista? Tinha que ter havido discrição, silêncio. Como pode um sujeito enterrar a sua companheira de vida, cuja morte foi, no mínimo, acelerada pelo desgosto e por acusações que, segundo ele, são injustas, berrando, esperneando, acusando? Não, o certo era ficar quietinho ou, se fosse mesmo para fazer drama, que se cobrisse de cinzas, batesse no peito, em lágrimas, e gritasse “mea culpa, mea maxima culpa!“.

Fosse apenas questão de ser sommelier do luto alheio, até me pareceria razoável. Afinal, o Facebook é principalmente uma comunidade de tias velhas desaprovando as saias curtas e os comportamentos assanhados dos outros. Mas, é mais que isso. Pode haver um aluvião público de insultos, augúrios de morte e dor, e difamação à sua esposa, durante duas semanas, mas Lula não pode mostrar-se ultrajado ou ofendido, não pode desabafar do jeito que pode e sabe, não pode espernear. Em vez do “j’accuse“, o certo seria a aceitação bovina do garrote, da dor, da perda. Em vez do sindicalista e político, em um ambiente privado do sindicato, velando entre amigos a mãe dos seus filhos, havia de ser um moço composto e calado. Todo mundo tem direito de velar os seus mortos como pode e sabe, exceto Lula.

Uma parte da sociedade brasileira nunca se cansa de mostrar a Lula o seu lugar. E de reclamar, histérica, quando ele, impertinente, não faz o que ela quer. Tem sido assim. Lula já foi insultado de analfabeto, nordestino, cachaceiro, ignorante e aleijado, muito antes de ser chamado de corrupto e criminoso. A cada doutorado honoris causa de Lula choviam ofensas e impropérios porque ele não tinha todos os dedos, porque era uma apedeuta, porque era um peão. Qualquer motivo para odiá-lo sempre foi bom o bastante para uma parte da sociedade.
Agora, estamos autorizados a odiá-lo por mais uma razão: o modo como acompanhou a agonia e como velou sua companheira. Que os cultivados me perdoem a analogia, mas isso me lembra a acusação feita em O Estrangeiro, de Albert Camus, ao sujeito que não conseguiu chorar e sofrer, como aos demais parecia conveniente e apropriado, no funeral da própria mãe: “J’accuse cet homme d’avoir enterré sa mère avec un cœur de criminel”. “Eu acuso este homem de ter enterrado a sua mãe com um coração de criminoso”.

No surrealismo da narrativa política brasileira, a história se repete: Lula deve ser desprezado porque enterrou a esposa com um coração de político e sindicalista e isso não está direito.

Voilà. Lula nunca vai aprender o seu lugar.

Não. E como disse o Chico, “Qualquer canção de dor/Não basta a um sofredor/Nem cerze um coração rasgado/Porém ainda é melhor/
Sofrer em dó menor/Do que você sofrer calado.”


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