Eike Batista no Rio de Janeiro esta semana…


…e o romance italiano de Roberto Saviano.

ARTIGO DA SEMANA

New York- Rio- Brasília: Eike e um que de “Gomorra” no ar

Vitor Hugo Soares

“…Ser derrotado no poder econômico significa automaticamente ser derrotado na própria pele.

É guerra. Ninguém sabe como se combaterá, mas todos têm certeza de que a guerra será terrível e longa. A mais cruel que o sul da Itália jamais vira nos últimos dez anos”.

(Trecho do livro “Gomorra”, de Roberto Saviano, sobre as poderosas organizações criminosas que agem na Itália.)

Desde a noite de domingo passado, às vésperas de começar fevereiro – antes era o mês do Carnaval e agora nem parece – ronda no ar um “clima” estranho, meio surreal e inquietante. Situação que pareceu, ao jornalista, bastante parecido com o ambiente descrito em algumas páginas capitais do romance reportagem “Gomorra”, que o ganhador do Nobel de Literatura, Mário Vargas Llosa, define como “excelente livro que se lê com espanto e incredulidade”. Pura verdade, da primeira à última página. O livro italiano vale uma leitura comparada com o Brasil atual. O filme também.

Este sentimento bateu pouco antes do começo da madrugada da segunda-feira, quando o programa Manhattan Connection, transmitido pelo canal privado Globo News, foi retirado abruptamente do ar, por alguns minutos, para transmitir um “Plantão”. Era, na verdade, a entrevista exclusiva de Eike Batista – enquanto ele aguardava, em Nova Iorque, a chamada para embarque no voo de volta ao Brasil, para se entregar à Polícia Federal, “e cumprir o meu dever com a justiça e ajudar a passar as coisas a limpo”, como diria dali a instantes, o homem que ocupou o sétimo lugar entre os mais ricos magnatas do mundo no ambicionado ranking da revista Forbes e, desde o começo desta semana, está recolhido na Penitenciária Bangu 9 , no Rio de Janeiro, afogado em dívidas, duvidas, encrencas com investidores graúdos e processos criminais, um deles o da Lava Jato.

Até ali, neste caso, um nome de destaque da lista de foragidos da lei, procurados pela Interpol, Eike seguia no desempenho de seu preferido papel de celebridade, para o bem ou para o mal. Tanto quando atendia a pedidos de “selfies”, como quando alguém indignado passava ao seu lado e dizia coisas do tipo: “está voltando para fazer companhia ao amigo Cabral em Bangu?”.

Ele parecia tranquilo no aeroporto internacional de Nova York , conversando com o repórter e cinegrafista da Globo News, Sherman Costa: uma entrevista exclusiva, jornalisticamente impactante na forma e nas circunstâncias, mas principalmente no conteúdo relevante e cheio de nuances reveladoras – explícitas ou submersas e ainda a serem desvendadas em seus recados cifrados. Seguramente destinada a ocupar um lugar destacado, quando se fizer o apanhado dos feitos da imprensa brasileira em 2017, ano que mal começou. A conferir.

Foi isto que fez o canal privado interromper sua programação, tirando Manhattan Connection do ar, sem aviso prévio, para entrar com o “Plantão” no Brasil, antes de passar a transmissão “en directo”, como dizem os espanhóis, para o aeroporto de NY, onde os fatos clamavam por urgência. Ironicamente, o programa Manhattan Connection (que não perco antes de ir para cama nos domingos) ancorado pelo experiente jornalista Lucas Mendes, tem o seu estúdio e base principal de operação, exatamente em NY. Mas, gravado previamente nas sextas-feiras, a polêmica, informativa e analítica revista semanal da TV, costuma surpreender seus realizadores com peças pregadas pelos fatos. Lucas e seus irônicos parceiros das noitadas dominicais (Caio Blinder, ao seu lado em NY; Ricardo Amorim, de São Paulo ou Rio; Diogo Mainardi, de Veneza; e Pedro Andrade , de qualquer lugar do planeta.

A maior, de que me lembro, foi a da noite do domingo em que foi anunciada a morte de Bin Laden, desde a Casa Branca, no primeiro mandato de Barack Obama. O programa estava no ar e Lucas sentado na bancada esplendidamente situada nas vizinhanças das Torres Gêmeas, destroçadas no atentado de 11 de Setembro, ainda em reconstrução. Emissoras de Radio e TV no mundo inteiro não falavam de outra coisa, enquanto o Manhattan Connection elogiava as virtudes dos produtos de uma famosa camisaria novaiorquina.

Naquele dia, também, a Globo News entrou com o seu plantão para noticiar a morte de Bin Laden. “Um vexame”, considerei na época neste espaço de informação e opinião semanal. Desta vez não chegou a tanto, porque quando o Manhattan foi interrompido, o programa falava da Lava Jato; da volta, ao batente, do juiz Sérgio Moro; das jogadas de Renan Calheiros: dos volteios, no Supremo, para a escolha do substituto de Teori Zavascki, como relator da Lava Jato (acabou caindo nas mãos do ministro Edson Fachin, cercado de expectativas contraditórias), e no bailado de Temer, com a presidente do STF, Cármen Lúcia, para a indicação do substituto, do falecido ministro, na vaga crucial que segue aberta no Supremo.

Por fim, passado o Manhattan e o plantão da Globo News, as imagens emblematicamente contrastantes do dia seguinte: Eike Batista dormindo a sono solto na poltrona executiva do vôo de sua volta ao Brasil, e, mais tarde, já com a cabeça raspada, andando de chinelos no centro do Rio de Janeiro, para prestar o seu primeiro depoimento depois de recolhido a Bangu. Retrato à altura de um personagem de “Gomorra”. Fim ou começo? Responda quem souber.

Vitor Hugo é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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