CRÔNICA

Dória, Eike e a Escola de Princesas

Janio Ferreira Soares

Como num conto de fadas escrito pelos irmãos Grimm, logo depois que Doria foi eleito prefeito de São Paulo, Silvia Abravanel, uma das filhas de Silvio Santos, abriu a primeira Escola de Princesas da capital. Bingo!

Com sede em Uberlândia (MG), a principal meta da instituição é pegar meninas que sonham em ser Ariel ou Cinderela e ensiná-las a sê-las de verdade. Assim, com uniformes cor-de-rosa, lacinhos na cabeça e pagando 1.200 reais pelos três meses de curso, garotas de até 14 anos aprendem como se portar à mesa; como se maquiar sem exageros para não parecer vulgar; como cruzar as pernas sem mostrar os segredos da floresta encantada; e, sobretudo, como agir diante de seus futuros maridos, provavelmente uma combinação de George Clooney, Rodrigo Hilbert e Gugu Liberato, que entra nessa história pelo aspecto óleo Johnson que ele – e todo príncipe que se preza – tem desde criancinha (“que gostoso, mami, passe mais nas dobrinhas, vai, mami!”).

Portanto, se tudo correr bem, o sonho de Doria de transformar São Paulo numa espécie de monarquia sabor porpeta tem tudo para vingar e aí poderemos ter carruagens desfilando nas marginais em pistas exclusivas para cavalos com estilo Ralph Lauren, enquanto o prefeito, com os dedos colados por Super Bonder em solidariedade à atrofia do maestro João Carlos Martins, regerá uma orquestra de moradores de rua na cobertura do Hotel Fasano.

Falando em realezas, me surpreendeu a calma de Eike Batista durante sua entrevista antes da prisão. Como bom jogador de pôquer, ou ele está blefando, ou tem nas mãos cartas que podem detonar muita gente graúda, sem falar nas informações de cunho pessoal (devidamente ilustradas, é claro), que certamente mudariam as regras do jogo. Divago.

“Senhor Batista, é inacreditável como o senhor se lembra dos detalhes dos episódios. Que memória, hein?”. “Olha, digníssimo, desde pequeno fui treinado pelo método Forgenting Curve – ou Curva do Esquecimento -, técnica criada em 1855 pelo psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus, que consiste em adestrar nossa memória para arquivar os fatos que interessam. Anos depois, criei minha própria metodologia e a batizei de Curves of Luma, onde uso o espetacular corpo de minha ex-mulher como se fora um mapa para preservar minhas lembranças. A propósito, tenho aqui algumas filmagens íntimas para mostrar aos senhores e…”.

Neste instante, visivelmente excitados, juízes e promotores pedem uma pausa e retornam com a pergunta que não quer calar: “senhor Batista, nesse filme tem ela só com aquela coleirinha com seu nome, tomando leitinho?”.

Com o indefectível sorriso de quem domina a situação, Eike pega um Pen Drive e, manuseando-o como se fora uma sequência real, desafia: “alguém quer pagar pra ver?”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

Daniel on 4 Fevereiro, 2017 at 17:34 #

Sempre leio com atenção aos textos do Jânio Soares, mas os comentários jocosos e equivocados sobre o governo de João Doria – que, apesar dos desgostosos, faz uma boa gestão – me parecem desnecessários, preconceituosos (desde que o faz baseado na imagem de “bom moço” do prefeito) e pueris.

Torço que a querida Paulo Afonso, de mesmo modo, tenha gestão exemplar e seus gestores tenham tempo e atenção para os desígnios de sua população.


luís augusto on 5 Fevereiro, 2017 at 6:48 #

Só não gostei da referência jocosa à atrofia do maestro. O resto, nota 10.


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