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Postado em 23-01-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 23-01-2017 00:09


Presidente Michel Temer fala com Francisco Zavascki,
filho do juiz do STF Teori Zavasck no velorio dele
DIEGO VARA REUTERS

DO EL PAÍS

Tom C. Avendaño

São Paulo

Ainda nem se sabia ao certo se o juiz do STF Teori Zavascki estava ou não a bordo de um avião que havia caído em Paraty, na quinta-feira passada, e as redes sociais brasileiras já tinham começado a compartilhar uma mensagem: “É infantil pensar que criminosos do pior tipo simplesmente resolvam se submeter à lei (…). Se algo acontecer com alguém da minha família, vocês já sabem onde procurar! Fica o recado.” O texto havia sido escrito no Facebook em 2016 por Francisco Zavascki, filho do magistrado morto, e fazia referência às ameaças que seu pai supostamente recebia, na condição de relator da Operação Lava Jato no STF, que há anos revela a maiúscula corrupção da elite política e empresarial brasileira. Não falava de ameaças físicas – e, de fato, Francisco já afirmou que duvida que a morte do pai tenha sido um atentado. Mas dava no mesmo. O juiz do único tribunal com poder e documentação para processar políticos com foro privilegiado do país (isto é, a elite) havia morrido num súbito e, para muitos, misterioso acidente. De repente, no Brasil as suspeitas valem mais que qualquer fato demonstrável.

As redes sociais começaram a manejar seus próprios dados. Fala-se que Zavascki levava no avião documentos fundamentais para a Lava Jato e que foram perdidos para sempre (não se sabe). Viralizou também o trecho de uma conversa, gravada pela Justiça em 2016, em que dois senadores se queixam de que Zavascki estava distante demais da esfera política para que eles pudessem impedir a sangria de processos que provoca entre os partidos (Zavascki era famoso por se afastar de qualquer ingerência). Outros argumentam que, em 3 de janeiro, num site com fotos de aviões, houve 1.885 consultas à imagem de uma aeronave semelhante à do acidente (a causa é desconhecida). Uma teoria mais sofisticada diz ainda que, uma vez mais, tudo foi obra do ex-presidente Lula, que esconde um segredo tão nefasto que o impediria de ser candidato na eleição de 2018 (Lula não tem foro privilegiado e, portanto, não era competência de Zavascki).

A obsessão nacional com esses dados, de origem e confiabilidade questionáveis, não nasce de um desejo de encontrar algo em que acreditar. Ao contrário: quando tais informações são compartilhadas, sempre chegam acompanhadas de mensagens recordando que não se pode acreditar em nada. Se não vêm das instituições do país, são ruins. E se vêm delas, também são. Mesmo sabendo que todo acidente mortal com um juiz que investigava as altas esferas políticas sempre motivará a paranoia, o debate nacional brasileiro parece ter se entregado ao niilismo mais profundo. “Neste país de burros, ninguém engole nada, e depois todos engolimos tudo”, dizia Rogério, um taxista de meia idade que passava por um bairro residencial de São Paulo na noite de sexta. “Sabemos que os que mandam roubam, que os que roubam manipulam tudo. E nem nos importamos com os que saem ganhando com tudo isso. Então, em quem vamos confiar? Em ninguém, amigo. Que vergonha esse país”, afirmava, repetindo as palavras que já viraram um mantra nacional.

No entanto, essa desconfiança não nasceu nos cidadãos. É justamente a política que há meses semeia dúvidas sobre quem é responsável por isso ou aquilo, e que intenções oculta. Durante o julgamento político que culminou com seu impeachment, a ex-presidenta Dilma denunciou repetidas vezes “um movimento conspiratório” para afastá-la do poder. O substituto, Michel Temer, precisou ver como seu homem forte, Romero Jucá, afastava-se do cargo de ministro do Planejamento acusado de conspirar contra a Lava Jato. O Ministério Público, por sua vez, acusou dias antes Lula de ser o “comandante máximo do esquema” nada concreto, com o qual realizou ações que não são conhecidas. E Lula, após cada nova denúncia (tem mais de meia dúzia), costuma dizer que tudo é uma “conspiração” feita por “eles”. Em outubro, Renan Calheiros, presidente do Senado, teve de responder às acusações de que conspirava contra a investigação. E, nesta semana, até um político de primeira linha, Ciro Gomes, aspirante a candidato para 2018, defende que a morte de Zavascki foi parte de um plano que conduziu Temer ao poder.

Esse gotejamento contínuo de desconfianças parece ter inundado as ruas. Tem gente já dizendo que os investigadores da caixa-preta do avião poderiam ser primos de fulano ou cúmplices de beltrano. No Brasil dos cegos, quem desconfia é rei.

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Comentários

Vanderlei on 23 Janeiro, 2017 at 8:51 #

Um avião de última geração e sofisticado tecnologicamente “CONTRA” um pequeno aeroporto, totalmente desprovido de tecnologias aviônicas (sistemas de navegação e comunicação), situado numa área de mudanças climáticas inesperadas, entre o mar e as montanhas. Ou seja, um desafio para pouso e decolagem para qualquer piloto experiente. Portanto, naquele momento do pouso, o Aeroporto de Paraty não era apropriado para o pouso de aeronaves, salvo problemas técnicos, que serão investigados, o voo teria de ter sido alternado para outro aeroporto próximo, como de Ubatuba ou Angra dos Reis. Além do mais, quem realmente sabia que o Teori Zavascki estaria naquele avião? Acredito, sinceramente, que nem o comandante sabia quem ele iria transportar para Paraty até a hora de preparação do plano de voo. Se uma sabotagem tivesse sido feita, por que o avião percorreu 200 quilômetros, inclusive transpondo a Serra do Mar, e a sabotagem só foi acontecer na hora do pouso e justamente na segunda aproximação da pista e não na primeira? Se foi sabotagem, o sabotador ou sabotadores são verdadeiros gênios, ou profissionais de efeitos especiais de Hollywood,fazendo a sabotagem acontecer exatamente no momento do pouso, mais de trinta minutos da decolagem, forjando parecer um mero acidente. Vamos aguardar as investigações.


Taciano Lemos de Carvalho on 23 Janeiro, 2017 at 9:46 #

Eu não tenho certeza se foi sabotagem ou não.

Agora só tenho uma certeza. Daqui para a frente se eu entrar em um avião com algum ministro do STF, darei meia volta e pego outro avião.


Carlos Volney on 23 Janeiro, 2017 at 16:14 #

Olha, vou me permitir um pitaco.
Conheço um pouquinho do “ramo” pois fiz, por diletantismo, o curso de piloto privado e ontem conversei com três amigos que são comandantes da aviação comercial, um deles em voos internacionais.
O Vanderlei está certíssimo. Do ponto de vista da aviação, é impossível que esse acidente tenha sido planejado, a não ser que o piloto fosse um suicida. O que houve foi rigorosamente acidental, tendo como causa principal a falha humana – jamais deveria ser tentado um pouso naquelas condições, principalmente pelo fato de só um piloto estar no comando de tantas tarefas e sem condição visual. A aeronave estolou – perdeu sustentação – ao tentar efetuar uma curva e chocou-se com o mar, só isso. Aguardemos a conclusão da investigação…


Taciano Lemos de Carvalho on 23 Janeiro, 2017 at 17:40 #

Estranho, não? Justiça decreta sigilo de investigações do acidente que matou Teori

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-01/justica-decreta-sigilo-de-investigacoes-do-acidente-que-matou-teori


Mariana Soares on 23 Janeiro, 2017 at 23:58 #

A Lei 12.970, de 2014, assim determina, em todos os casos de acidentes aéreos.


Taciano Lemos de Carvalho on 24 Janeiro, 2017 at 7:48 #

Verdade, a lei determina o sigilo em acidentes aéreos. Lei sancionada em 2014, mas justificada usando-se argumentos dos mais fracos.

“Na época da formulação da lei, a principal reclamação de membros do Cenipa era de que a polícia tinha acesso a todos esses dados e que isso atrapalhava as investigações. “Queremos proteger e não apontar culpados. Com o sigilo de informações, temos a garantia para pessoas que, por exemplo, deem depoimentos voluntários sem que as informações vazem”, aponta o coronel da Reserva da Aeronáutica Fernando Silva Alves de Camargo.

A lei também garante ao Cenipa o poder sobre as informações contidas na caixa-preta do avião, gravações de comunicações entre órgãos de controle de tráfego aéreo, entre outros dados coletados manual e automaticamente.

Caso alguma autoridade policial queira ter acesso às informações contidas pelo Cenipa, um especialista auxiliará para prestar as informações. Caso o órgão não disponibilize essas informações, apenas uma decisão judicial garante o acesso as fontes. A lei também prevê que o juiz tem 72 horas para se pronunciar.”
http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2014/08/saiba-como-funciona-a-lei-do-sigilo-em-investigacoes-de-acidentes-aereos


luis augusto on 25 Janeiro, 2017 at 10:06 #

E que sigilo é esse que todo mundo já sabe o que saiu na gravação?

A propósito, mantenho a tese publicada no PE de que foi um acidente, e pelo agora visto, por falha humana.


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