Leonardo Boff: Foto: Mila Cordeiro


DO JORNAL A TARDE

Patrícia França

Um dos fundadores do PT, o teólogo Leonardo Boff diz que o partido cometeu erros e que deve fazer uma autocrítica para resgatar a credibilidade. Precursor da Teologia da Libertação na América Latina e punido pela igreja com o “silêncio obsequioso”, o ex-padre, hoje ligado ao pensamento ecológico, afirma que o papa Francisco, ao fazer a opção pelos pobres, transformou a doutrina num bem comum da Igreja.

O senhor tem cobrado uma autocrítica por parte do PT. Porque o partido é tão resistente em reconhecer que se perdeu no caminho a ponto de se corromper como mostrou o mensalão e agora a Petrolão?

Toda autocrítica é dolorosa, porque implica humildade da pessoa em reconhecer seus erros. Não é fácil não só às pessoas, mas instituições reconhecerem que houve desvios e que, como instituição, carregam responsabilidades e irresponsabilidades. Outro dado que é considerado pelo PT, e eu não aprovo, é que eles não querem dar armas ao inimigo para serem usadas contra o PT. Dizer que o PT confessa que cometeu erros e portanto, que isso reforça a crítica do outro lado. Eu acho que não, acho que em política devemos trabalhar com transparência, no pressuposto de que o povo é muito compreensivo, ele entende que pode haver erros quando há sinceridade em reconhecer os erros, ele não é vingativo. Ele tem a predisposição de perdoar, de compreender, e esse caminho deveria ser percorrido pelo PT e não foi até hoje. Eu vivo cobrando e acho que é um dever cívico nosso cobrarmos isso. É um dever deles como políticos prestarem contas aos seus eleitores dos seus benfeitos e os seus malfeitos.

Se ele (Lula) for candidato à presidência, seguramente vai ganhar estrondosamente
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O impeachment da ex-presidente Dilma foi um golpe da direita, dos chamados partidos neoliberais, ou resultou de erros do PT nos 13 anos que esteve no comando do País?

Houve erros de administração que não configuravam crime a ponto de destituir uma presidente. As oligarquias, os donos do dinheiro nunca aceitaram que alguém do andar de baixo chegasse à presidência da República. Que um sobrevivente da grande tribulação, como Lula, chegasse a ser a pessoa que transformou as relações sociais no Brasil. Então eles armaram um motivo de narrativa, de argumentação que foi rebatida pelos melhores juristas do país e do estrangeiro, mostrando a falsidade e o mesmo equívoco, o mesmo sofisma dessa argumentação. Mas para eles não interessava a argumentação, interessava tirar a presidente de qualquer maneira. Encontraram um álibi para isso, inventaram aquelas famosas pedaladas, que foram feitas por quase todos os governadores, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, pelo Lula, porque é uma questão administrativa, compreensiva. Mas eles transformaram aquilo num crime, montaram um processo injusto. A gente precisa entender que se trata de um golpe de classe que utiliza o parlamento para novamente voltar ao poder e garantir o nível de acumulação que eles temiam perder e, por isso, esse impeachment tem que ser denunciado como um golpe armado pela oligarquia do dinheiro, pelos 77.440 super ricos que controlam mais da metade do PIB brasileiro. E atrás disso há interesses mais globais, geopolíticos, dos Estados Unidos, de manter sob controle a sétima economia do mundo (o Brasil).

Sem essa autocrítica a que o senhor se refere, será possível o PT convencer a sociedade de que o impeachment foi de fato danoso à Nação?

Acho que aqueles que propiciaram o golpe e diziam que com a saída da Dilma vai ser uma nova primavera no Brasil, um surto de desenvolvimento, estes hoje estão profundamente decepcionados, vendo que a situação piorou e o crítico mais feroz, mais superficial, que era o Paulinho da Força (deputado federal Paulo Pereira da Silva (SD-SP)), que vivia gritando em atos solenes ‘fora Dilma’ agora está dizendo Temer é muito pior que Dilma. Se esse está dizendo isso, significa, efetivamente, que tanto a situação econômica, política quanto a cultural (…), a atmosfera do nosso país piorou enormemente.

Creio que o PT tem uma dificuldade objetiva que é de resgatar a credibilidade
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As eleições municipais de outubro representaram uma grande derrota para o Partido dos Trabalhadores. O senhor acha que, a partir de encontros como o promovido pelo MST com a presença de Lula, na semana passada em Salvador, o PT tem como se refundar, voltar às origens?

Creio que o PT tem uma dificuldade objetiva que é a de resgatar a credibilidade, porque ele não só sofreu ataque político, o ataque mais forte foi midiático, pela imprensa das três grandes famílias que controlam, os grandes jornais, as grandes televisões e criaram uma narrativa extremamente pessimista, extremamente apocalíptica e, no caso de Lula, difamatória. E ao mesmo tempo considerando o PT igual aos demais partidos e a origem da grande corrupção, o que é um erro histórico. A corrupção é endêmica, está encravada nas nossas instituições e o PT se deixou levar por essa lógica. Então o PT não é a origem dessa corrupção. O PT tem uma dificuldade objetiva de novamente resgatar a confiança do povo e só conseguirá por dois caminhos: 1º- voltando às suas origens, o diálogo com suas cidades, com a base, o povo, com os sindicatos, os camponeses. 2º – Onde o partido governar, fazer administrações exemplares. Eu mesmo viajando por este País visitei muitas prefeituras do PT. Uma que admirei aqui na Bahia foi Vitória da Conquista, com o prefeito Guilherme Menezes (foi derrotado em outubro por Herzem Gusmão (PMDB), que tirou o PT do município depois de 20 anos no poder).

Pois é, Conquista era o reduto mais antigo do PT no País, governou o município por 20 anos e perdeu em outubro para o PMDB, com 70% dos votos. Se tinha gestão, como o senhor diz, como explica o povo ter dito não ao projeto do PT?

Se criou uma narrativa da mídia de que ‘se é PT é corrupto’ e ‘não podemos eleger e reeleger alguém que é corrupto’. Sem saber que outros partidos, e isso está sendo revelado pela Lava Jato, são a mesma linha do PT e até pior, e fizeram muito mais das propinas, do assalto aos bens públicos. E está sendo poupado o PSDB porque, na verdade, a Lava Jato é iniciativa do PSDB para chegar ao poder sem passar pelas eleições, por uma via canhestra, indireta e possivelmente eles vão conseguir isso. Porque por mais que eles sejam delatados nunca são levados a juízo, porque eles armaram isso junto com Moro (juiz Sergio Moro), junto com Janot, junto com o Pentágno nos Estados Unidos. O Brasil não é pequeno, temos que pensar o Brasil dentro da correlação de forças mundiais, onde eles jogam um papel importantíssimo dentro do Atlântico Sul e lá eu também acompanho, ajudo grupos de ONGs que se infiltraram, como a dos irmão milhonários Cock e George Soros (banqueiro) que financiam estes movimentos e manifestações públicas, principalmente o dessa juventude, e esses estão presentes aí. Isso foi denunciado, provado por nosso maior analista de política internacional Moniz Bandeira, que escreveu livro enorme recentemente, A desordem mundial , que diz que a questão do Brasil não é só do Brasil, é uma questão geopolítica dentro da segunda guerra fria. E são Estados Unidos e China, e a China já penetrando fortemente em toda a América Latina… Como o Brasil pertence aos Brics e é hoje hegemômico na América Latina, estão atacando o Brasil, estão atacando a China e aí levam avante este enfrentamento desta segunda guerra fria.

Pelo o que o senhor está colocando, a democracia no Brasil está sob risco. A Lava Jato seria uma espécie de acordão envolvendo o PSDB, o Judiciário, o Ministértio, Público, Legislativo, Executivo. Mas as instituições não estão funcionando?

Olha, se nós compararmos igualdade social que é fundamental para a democracia, respeito aos direitos , participação popular com a nossa democracia, ela é antes uma farsa do que uma realidade. É uma democracia de baixíssima intensidade, a maioria das instituições não funciona, é mentira. Basta ver as prisões, a violência no campo, invadindo casas de agricultores, estuprando, matando, a violência generalizada, no Rio, São Paulo, nas grandes cidades. É uma sociedade montada para 80 milhões de brasileiros. Cento e vinte milhões que se lixem. Toda a planificação política, econômica do governo (Temer) é sobre um Brasil pequeno, menor, é o que a classe dominante quer. Dizem que a grande maioria está acostumada à forme à miséria, à pobreza, eles se viram de qualquer maneira. Estamos diante de uma nova farsa, que ela se repete há quase 15 anos. Quando a classe dominante se dá conta que o do andar de baixo sobe, começa a ganhar mais e mais poder nos seus espaços, eles vêem que a natureza da sua acumulação está sendo afetada, dão um golpe de estado.

O povo não é vingativo, tem a predisposição de perdoar, de compreender
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Mas as esquerdas, não digo só o PT, não estiveram no poder por mais de 13 anos e não conseguiram mudar esse cenário que o senhor coloca?

Acho que um dos defeitos que devem ser reconhecidos dessa dupla admistração Lula-Dilma foi de não ter feito nenhuma das reformas fundamentais que eram necessárias: a política, os meios de comunicação, a tributária, a agrária. Sem isso o Brasil não funciona como democracia. Será sempre uma democracia de baixíssima intensidade, mais formal e não substancial. Isto é: os aparelhos estão aí, mas o conteúdo das coisas que foram feitas elas não são democráticas, são altamente elitistas.

Como o senhor explica o movimento pela volta de Lula no PT e no movimento sociais, sendo que o maior líder do partido é reú em cinco processos penais, três na Lava Jato. Lula terá mesmo condições de retornar ao poder?

Ele não sendo condenado, porque eles estão buscando mil motivos objetivos para condená-los e prendê-los e não estão encontrando. Há indícios, apenas, e acho que não vão encontrar. E como líder político é o único político grande, político de carisma no Brasil, que não encontra nenhum contraponto, não se encontra ninguém no Brasil que possa se contrapor a Lula. Então se ele for candidato seguramente vai ganhar estrondosamente. O povo vai dizer: ‘ele fez aqueles benefícios todos’. Quem da nossa história incluiu 32 milhões de pessoas? Deu Luz para todos, Minha Casa Minha Vida, todos os benefícios sociais. Lógico, ele fez isso sem tocar na natureza da acumulação da oligarquia brasileira e ele permitiu fazer isso. Mas abriu-se uma brecha que beneficiou milhões de pessoas. Isso o povo não esquece. Então aqueles que da pobreza estão caindo para a miséria, vendo seus filhos passando fome, aí eles se rebelam. O que acho é que ainda não caiu a ficha, não se configurou crise ao nível das bases, e quando se configurar a pressão de baixo, penso que haverá imensas manifestações que vão alijar do poder Temer e toda a sua camarilha.

A crise política e econômica que o Brasil vive se assemelha a crise em outros países do Continente, como Argentina, Venezuela, Colômbia e mesmo Cuba. A esquerda, a democracia, na América Latina está sendo passada à limpo?

Há uma ascensão da direita no mundo todo. Em toda a Europa, nos Estados Unidos com Donald Trump, na França, exceção talvez na Alemanha, embora a Merkel (Ângela) seja de direita, mas não é uma direita furiosa. Mas na itália, e na Grécia há uma onda na Europa de direita e com certos traços de fascismo, porque é excludente, não aceita os refugiados, é racista, fundamentalista, etc. E o Brasil está mesma onda mundial, com a ascensão da direita, assim como na Argentina e em todos os países da América Latina. salva o Equador e Bolívia, que se mantêm ainda numa linha progressista, todos os demais países estão se alinhado à lógica do império. Os Estados Unidos de uma forma muito rígida têm dois modos: primeiro, o mundo, o império. Segundo, full-spectrum dominance, dominar todo o especto do planeta. Só faltava dominar o Atlântico Sul e agora eles querem dominar isso. Estão está dentro da estratégia mundial de homogeneização de todos se alinharem ao neoliberalismo mais feroz, dentro de um estilo norte americano. Eles estão alinhando a Europa, alinhado a nós todos, então temos que ver esse componente geopolítico que transcende nós todos para entendermos o Brasil, que está dentro dessa teia de relações mundiais. E por outro lado, todo mundo se dá conta que o próximo futuro da economia será baseado na ecologia. Quem tem água, commodities, bens e serviços naturais e o Brasil é G Zero. Tem o G2, G20. O Brasil é o G Zero, o país que tem a maior riqueza ecológica do mundo, que pode fundar um outro tipo de economia. e qual a pegunta deles: ‘Quem vai controlar este pode imenso?’. Os Estados Unidos se antecipam e China está entrando pesadamente aqui. Então esta luta está para além de nós, se dá por cima das nossas cabeças. Os grandes cachorros grandes os Estados Unidos e China que intervêm aqui e querem manter o controle e realizar a política deles.

O novo presidente americano, Donald Trump, seria um ameaça ainda maior à América Latina?

Eu tenho a leitura de alguns analistas norteamericanos sérios que dizem que o pior para os Estados Unidos teria sido a eleição de Hillary Clinton. Porque ela estava ligada a Wall Street, à industria militar e como secretária de estado provocou fracasso em toda a Áfríca do Norte, onde ocorreu a Primavera Árabe,no apoiou fortemente a intervenção no Oriente Mèdio e ia bombear atomicamente o Irã. Obama foi que segurou. Então era uma pessoa que usava a violência como forma de criar ordem na política mundial. E se ela fosse eleita presidente seria um desastre, um risco para humanidade.

E Trump aliado com Putin (presidente da Rússia), não é uma ameaça?

Não, porque Putin tem a mesma visão de Trump: fazer uma política interna, uma política para dentro, o nacionalismo, que pode terminar em facismo. Então Putin é um grande nacionalista, ele quer a Rússia histórica, que implica a Criméia, parte da Ucrânia. Ele nesse sentido é um grande estadista.

Então não há o que temer?

Foi como Krugman (Paul, ganhador do Nobel de Economia e ícone da esquerda americana) disse: ‘foi a escolha entre o ruim e o péssimo. A vantagem do Trump é que ele é um bobão, ninguém sabe o que ele faz´. É o pior que a cultura americana pode produzir. Ele não tem nenhuma experiência política, agora ele rompeu com a globalização. ele deu um xeque mate na globalização em função do nacionalismo. Está chamando todas as empresas americanas que estão na China, no México, para voltarem para os Estados Unidos, para geraram empregos, riqueza lá dentro. é uma outra visão que é novamente resgatar o poder enorme político e econômico dos Estados Unidos, e por aí eles influenciarem todos os países, e por outro lado, ele enfraquece a grandes corporações mundiais que dominam o mundo, que são 737 empresas que controlam 80% de todos fluxos econômicos, e agora elas foram rompidas. O eixo de análise de realização da política não é mais a globalização.

E o Brasil ganha com isso?

O Brasil, a América Latina, nunca foram importantes (para os EUA). Começará a ser importante desde que geopoliticamente pode ser a emergência de um poder alternativo a eles, um país que tenha autonomia na sua política, voltado para a África, para controlar toda a parte ocidental da África. Pode hegemonizar toda a resistência aos Estados Unidos, os países da América Latina. Então, Trump vai ter um cuidado em relação a isso, dentro da lógica do Pentágno de dominação global. Então a América Latina pode ganhar algum significado por causa da sua posição política e ecológica. Aí nós não sabemos, porque ele é muito impulsivo, mas mostra a decadência do império, crise sistêmica, que não é regional, de um país da Europa ou da Ásia. É o sistema terra, o sistema vida que está em risco. Então podemos conhecer um apocalípse. Se se criar um conflito armado, utilizando armas nucleares, poderemos colocar em risco a própria sobrevivência da espécie.

O mundo assiste talvez ao maior conflito da sua história, com guerras, ataques terroristas, intolerância religiosa . A humanidade tem salvação?

Aqui cabe uma argumentação menos analítica e mais filosófica, mais religiosa, de acreditar que o sentido vale mais que o absurdo, que a vida tem mais direitos do que a morte, que a luz é mais importante que as trevas. Acho que há uma grande crise, não é como uma grande tragédia que termina mal, mas é uma crise de purificação, de acrisolamento, que purifica. Então vai trocar o modo de habitarmos o planeta. E o papa escreveu uma encíclica exatamente sobre esse impacto: ‘Não dirijo essa encíclica aos cristãos, dirijo à humanidade. Ha á um risco que coloquemos a infraestrutura física ou química que sustenta a vida e aí liquide a vida. A terra pode continuar coberta de cadáveres, ela não precisa de nós, nós é que precisamos dela, mas a vida humana pode desaparecer’. E esse risco é objetivo. Um dos últimos atos de Obama, que poucos comentaram mas é extremamente perigoso e vergonhoso, destinou US$ 526 bilhões para refazer, renovar o arsenal nuclear dos Estados Unidos, como resposta ao Putin, que descobriram que ele tem armas mais avançadas e ojivas mais avançadas que as americanas. Isto alarmou o Pentágno. E Putin está investindo bilhões de dólares para se impor como potência mundial de novo, face à China e aos Estados Unidos de novo. Esse cenário é perigoso, porque pode destruir efetivamente. Grandes nomes da biologia, da cosmologia, ecologia de cientistas [eu pertenço ao grupo que elaborou a Carta da Terra, com Mikhail Gorbachev], que diz que se houver um aquecimento abrupto, a Terra está com dois graus próxima a pular para quatro, cinco graus nos próximos 15 anos, grande parte da humanidade não vai conseguir se adaptar e vai desaparecer. Então estamos numa eminência dramática, como são temas antisistêmicos, que dificulta a acumulação, relativisa, o sistema do capital, quase não se fala disso.

O senhor citou o Papa Francisco como um dos precursores da Teologia da Libertação na América Latina. A igreja está mais próxima daqueles valores que o senhor preconizou, junto com Frei Beto e tantos outros?

Acho que esse papa tem um mérito de ter transformado a Teologia da Libertação num bem comum da Igreja. A marca registrada da Teologia da Libertação é a opção pelos pobres, contra a pobreza a favor da liberdade e da justiça social. Esse papa colocou isso como centro da sua prática: justiça social, combate ao sistema da acumulação absurda e do consumo ilimitado, que é o capitalismo. Ele chegou a dizer que o grande terrorista da humanidade não são os terroristas islâmicos. É esse sistema da acumulação e do consumo que não olha aquele que passa fome, esse é o grande terrorismo. É o sistema anti vida. Ele não usa o capitalismo para não conflitar com os Estados Unidos. Mas todo o conteúdo é contra o sistema do capital. Então isso ficou um discurso oficial da igreja. Inclusive saiu um livro do presidente da antiga Santa Inquisição (atual Congregação para a Doutrina da Fé) e o Gustavo Guriérrez o pai da Teologia da Libertação, com o título “Teologia da Libertação como teologia católica”. Antes diziam teologia marxista. E isso é inaceitável por muitos bispos teóricos europeus que vivem com aquele sonho do cristianismo ser a grande aura da Europa, quando na verdade só 24% dos católicos vivem na Europa, 62% na América Latina e o resto no terceiro mundo. Então hoje o cristianismo é uma religião do terceiro mundo e, para mim, esse papa é o primeiro de uma série de uma genealogia de papas que vem do terceiro mundo. E não mais da Europa.

Dentro do cenário mundial turbulento, o discurso do papa Francisco seria, então, uma luz, uma saída para o risco de um apocalípse como a que o senhor se referiu?

É uma retórica profética, de chamar a atenção pelo risco, e simultaneamente é uma retórica de muita esperança. Ele diz ‘temos espírito, temos tecnologia, podemos evitar isso, nós precisamos querer sobreviver, superar o antropocentrismo, que só o ser humano vale, e valorizar todos os seres vivos, que têm valor intrínseco. e o segundo, um elemento mais místico, mais religioso, quando diz que o nosso Deus é um Deus apaixonado, amante da vida. Ele cita quatro vezes este texto da sabedoria ‘Deus é um apaixonado amante da vida e não vai deixar esta vida, que foi eternizada pelo filho, que essa vida se acabe miseravelmente’. O último tópico dele é ‘para além do sol’ e diz que os problemas e dificuldades com respeito à nossa mãe terra não nos tire a alegria da esperança. Temos oportunidade, temos capacidade, mas pesa sobre nós uma ameaça imensa se nós continuarmos nesta rota.

Qual a sua avaliação do governo Michel Temer?

É um grande engodo e, todo o discurso. Ele está fazendo as reformas, mas são todas anti populares, que drenam grande parte da riqueza para a classe dominante, prejudica os salários, prejudica os direitos sociais, as aposentadorias, as políticas de inclusão mais globais, afeta gravemente a cultura. O pensamento brasileiro é colocado à margem, com praticamente abolido do ensino a filosofia e a sociologia que levam o cidadão a pensar o mundo. Este governo só pensa em produzir, consumir, é uma forma mais materialista, rasa de pensar o ser humano. então é um desastre antropológico, culturalmente um atraso de 30 a 40 anos, totalmente fora do ritmo da história e profundamente desumano. É uma democracia de privilégios e Temer se presta a esse serviço de legitimação dessa estratégia perversa.

jan
22


Alexandre Brust


ARTIGO/OPINIÃO

BRIZOLA VIVE E COMPLETA 95 ANOS

Hari Alexandre Brust

Neste 22 de janeiro, o menino Itagiba, nascido em Cruzinha município de Carazinho – RS, em 1922, que aos 14 anos teve que providenciar o seu registro de nascimento, para matricular-se na Escola Agrícola de Viamão – RS, ocasião em que resolveu oficializar o nome de LEONEL, que ele mesmo havia escolhido, em homenagem ao capitão maragato Leonel Rocha, completa 95 anos.

Nascido em lar humilde, o filho mais novo de Dª Oniva e seu José, foi engraxate, entregador de carne, carregador de malas em Carazinho e mais tarde, para manter seus estudos em Porto Alegre, trabalhou como ascensorista e zelador. Vitima das carências inerentes a uma família pobre, o jovem idealista, logo sensibilizou-se com os princípios sociais do trabalhismo, pregados por Getúlio Vargas e participou, em 1945, da fundação do PTB. Começava ai uma das mais brilhantes e obstinadas carreiras de um político na defesa das suas convicções.

Militante da mocidade trabalhista, o estudante de engenharia Leonel Brizola, assume a presidência desse movimento político e demonstra desde cedo, a sua capacidade de liderança, atraindo estudantes para integrar o Partido Trabalhista. Seu relacionamento fácil com as lideranças estudantis e sindicais pavimentaram sua candidatura, pelo PTB, à Assembléia Constituinte de 1947 e, aos 25 anos é eleito deputado estadual com uma proposta inédita: EDUCAÇÃO PARA TODOS. Em 1949, o engraxate forma-se Engenheiro Civil pela Universidade Federal do RS e, em 1950, casa-se com Neusa Goulart, irmã de João Goulart, sua companheira inseparável e é reeleito deputado estadual mais votado do RS.

Nomeado Secretário de Obras Pública pelo governador Ernesto Dorneles, revelou-se um excelente administrador e, em 1954, é eleito deputado federal, depois de implantar no Estado o 1º Plano de Obras. Em 1955, menos de 20 anos depois de chegar sozinho, sem conhecer ninguém assume Prefeitura da Capital do seu Estado. Depois de realizar uma das melhores administrações de toda história, da Prefeitura de Porto Alegre, onde construiu 137 escolas primárias, 35.000 novas vagas, acabando com déficit escolar, é eleito em 1958, governador do Estado, onde executou a melhor e mais profícua administração que o Rio Grande do Sul jamais conheceu.

Mudou o perfil econômico, industrial, agrícola e educacional do Estado. Quando assumiu o governo encontrou 1.795 escolas e 300.000 alunos. Entre 1959 e 1962, construiu 5.902 escolas primárias, 278 escolas técnicas urbanas e rurais e 131 ginásios, colégios e escolas normais, totalizando 6.302 novos estabelecimentos de ensino. Foram abertas 688.209 novas matrículas e admitidos 42.153 novos professores. Em 1962 elegeu-se deputado federal pelo antigo estado da Guanabara, e em 1964 foi cassado pelo golpe militar. Vai para o exílio mais longo de um político brasileiro de onde retornou em 1979. Em 1982 elege-se governador do estado do Rio de Janeiro pelo PDT. Único brasileiro que governou dois estados. Logo que assumiu o governo, nomeou para Secretário de Estado seu Vice-Governador, Professor Darcy Ribeiro, discípulo de Anísio Teixeira, que juntamente com o Arquiteto Oscar Niemayer, surpreenderam o Brasil com o CIEP um Centro Integrado de Educação Pública, uma proposta inovadora de democratização da educação pública. Em 1990 reelege-se governador do Rio de Janeiro e conclui o maior programa educacional do Brasil, através da implantação de 506 CIEPs. Dia 21 de junho de 2004, nosso Herói da Pátria saiu de cena.

Registramos a nossa profunda saudade, principalmente, neste momento, em que a corrupção, o nepotismo e a falta de ética corroem os poderes republicanos, sem que uma voz que tenha a sua credibilidade e a sua autoridade, levante-se na defesa do povo humilhado. “Lembramos a todos que houve um político que foi grande quando vivo e que ficou ainda maior quando a gente sente sua ausência. Viva Brizola, pelo seu tamanho em vida e pelo sentimento de ausência que ele nos passa!” (Cristovam Buarque) Para nós seus amigos e seus companheiros e para mim em particular que em 1957, aos 19 anos passei a integrar a sua equipe na Prefeitura de Porto Alegre, Brizola vive, através do legado das suas idéias, da sua coerência e da sua coragem e determinação na luta da defesa dos interesses e dos anseios do povo brasileiro e, cabe a nós, os seus seguidores trabalhistas autênticos, dar continuidade aos seus projetos e as suas propostas consubstanciadas na Missão que Ele legou ao PDT:

“Nós temos a nossa responsabilidade com a história. Nosso partido é o único com determinação de assumir as grandes causas nacionais. Nenhum partido é tão nacionalista quanto o nosso. Queremos um país desenvolvido, autônomo, independente. Nós somos a emanação das lutas sociais. O trabalhismo nasceu da Revolução de 30, de uma inspiração do Presidente Getúlio Vargas, que foi evoluindo de acordo com o processo social, empenhado em garantir direitos à massa dos deserdados. Nós somos as verdadeiras reformas, a mudança, o voto rebelde. O PDT é um partido derramadamente democrático.

Somos a expressão brasileira do socialismo democrático e tomamos a feição social democrata, pois é preciso chegar a um certo nível de igualitarismo para termos desenvolvimento. Nós temos genética, somos uma grande sementeira de idéias em beneficio do povo brasileiro. Temos que estar sempre onde está o povo. Existimos para dar voz aos que não tem voz. Nossa ancoragem é a área deserdada da população. Nosso guia é o “interesse público e o bem comum”.

Hari Alexandre Brust é autor do livro “Brizola- Uma Biografia Política”, membro da Executiva do PDT-Bahia, fez parte da equipe de Brizola na Prefeitura de Porto Alegre, e mais tarde participou dos embates da Cadeia da Legalidade.

Salve o Rio Grande no domingo de saudades de Leonel Brizola, um dos seus filhos mais notáveis, que hoje festejaria 95 anos.

BOM DOMINGO!!!

(Vitor Hugo Soares)


DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Mantenha distância

Faz bem a oposição em reagir, e uma nova cruzada nacional deve ser instalada: Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal seria a “temerização” da corte, não quanto à filiação partidária, porque ele é tucano, mas por sua mediocridade jurídica.

O mal pela raiz

Data: 21/01/2017
15:05:53

O deputado Toninho Wandscheer (PROS-PR) encontrou um jeito simples de combater a Operação Lava-Jato: indicou o juiz Sérgio Moro para ministro do Supremo.


DO EL PAÍS

Marc Bassets
Joan Faus

Washington

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos desde sexta-feira, atacou a imprensa em seu primeiro ato público no cargo. Em visita à sede da Agência Central de Inteligência (CIA), cujas práticas ele comparou com a Alemanha nazista na semana passada, disse que os jornalistas estão entre os seres humanos “mais desonestos da Terra”. Também lhes acusou, sem provas, de mentir sobre o número pessoas presentes na cerimônia de posse desta sexta-feira, em Washington D. C., e sobre outros detalhes de sua chegada na Casa Branca.

Era sua primeira jornada completa como presidente, mas parecia que a campanha eleitoral não tinha terminado: as mesmas palavras, os mesmos ataques. Não importa que já seja presidente, nem que o lugar que lançasse a mensagem contra a mídia fosse um lugar tão solene como a sede da CIA em Langley (Virgínia).

“Estou 1000% com vocês. O motivo pelo qual vocês são minha primeira visita é que estou em uma guerra contra os meios de comunicação. Estão entre os seres mais desonestos da Terra”, disse Trump, com um tom irônico e combativo. Entre o público era possível escutar aplausos e risos. “Deram a impressão de que havia uma briga com a comunidade de inteligência”, acrescentou.

Trump se referia às informações sobre sua disputa com os serviços de inteligência, aos quais desqualificou durante as semanas posteriores de sua vitória, em 8 de novembro. Os ataques aos meios, os quais ele e muitos conservadores identificam com as elites progressistas, são um recurso constante e eficaz em seus discursos.

A Administração Trump começou seu mandato de quatro anos com gestos simbólicos e uma forte contestação em seu país, com dezenas de milhares de norte-americanos protestando contra ele no centro de Washington. O Governo começa também com apenas dois postos, dos 15 departamentos do Governo, confirmados pelo Senado. Seus dois antecessores imediatos – Barack Obama e George W. Bush – tinham confirmado sete a esta altura.

O dia começou entre líderes religiosos e terminou com espiões. Cada gesto, cada palavra, cada mensagem na rede social Twitter – seu meio de expressão predileto – será examinada com uma lupa em busca de sinais de uma presidência que rompe com todas as tradições e que desconcertou grande parte os EUA e do mundo.

Não houve decisões políticas de envergadura desde que, ao meio-dia da sexta-feira, o republicano Trump assumiu o cargo e depois fez um dos discursos de posse mais incendiários que se recordam nos 225 anos de história de pronunciamentos do tipo neste país.

Na sexta-feira assinou um decreto para começar a desmantelar o Obamacare, lei de saúde assinada pelo democrata Barack Obama, que proporcionou cobertura de saúde para 20 milhões de pessoas que não dispunham de plano de saúde, e um anátema para os republicanos.

Outro gesto das primeiras horas foi o memorando pedindo o congelamento dos regulamentos federais adotados pela Administração Obama. O novo portal da Casa Branca eliminou as referências às mudanças climáticas e só ficou, num documento sobre as prioridades do presidente, sua promessa de eliminar o Plano de Ação do Clima adotado por Obama, que impõe restrições às emissões poluentes.

Em seus primeiros dias no cargo, em 2009, Obama assinou ordens executivas determinando o fechamento da prisão de Guantánamo e proibiu o uso da tortura. Em seu primeiro dia de trabalho como presidente, o dia posterior à posse, no dia 21 de janeiro, telefonou para o presidente do Egito, o primeiro-ministro de Israel, o rei da Jordânia e o presidente da Autoridade Palestina.

No caso de Trump, ao coincidir o primeiro dia completo de trabalho com um fim de semana, é previsível que a segunda-feira seja o primeiro dia real do trabalho a todo vapor na nova Casa Branca.

No sábado, seguindo a tradição de seus antecessores, Trump participou de uma cerimônia religiosa em seu primeiro dia como novo presidente dos Estados Unidos. Ao lado da família e de seu vice-presidente, Mike Pence, e de representantes cristãos, muçulmanos e sikhs, participou de uma cerimônia inter-religiosa na Catedral Nacional de Washington.

Na ocasião, falaram mais de uma dezena de líderes religiosos. Greg Laurie, um pastor cristão da Califórnia, pediu “proteção divina” às Forças Armadas. “Abençoemos a todos cujas vidas estão ligadas às nossas”, disse Jesse Singh, líder dos Sikhs da América.

Trump, cristão ligado à igreja presbiteriana, não é conhecido por sua religiosidade, mas em sua fulgurante ascensão política recebeu o apoio de milhões de eleitores evangélicos e de influentes líderes fundamentalistas cristãos.

Após a cerimônia, Trump tinha agendada uma visita à sede da CIA em Langley (Virginia), nos arredores de Washington, com o indicado para dirigir a agência de inteligência, o congressista Mike Pompeo. A visita envia uma mensagem forte. Trump passou semanas questionando a comunidade de inteligência depois desta ter acusado a Rússia de roubar e-mails do partido Democrata com o objetivo de ajudar os republicanos nas eleições presidenciais.

O novo presidente comparou, na semana passada, seus espiões com a Alemanha nazista depois do vazamento de um relatório com supostos vínculos comprometedores dele com Moscou. A dureza das críticas é incomum, como também é o fato de o antigo diretor da CIA, John Brennan, ter criticado Trump publicamente alguns dias antes da posse.

Em seu primeiro dia completo como presidente, os EUA digerem o discurso de posse de Trump. Em seu editorial deste sábado, o jornal The New York Times esgrime que é uma reavaliação “distorcida” da história norte-americana em que se ignoram as injustiças do passado e os êxitos mais recentes. Na mesma linha, o The Washington Post argumenta que o discurso projetou uma visão pessimista e sombria que não corresponde à realidade do país.

No discurso se percebe a influência de Steve Bannon, o estrategista-chefe de Trump que dirigia uma publicação de referência para a direita norte-americana mais radical. “Foi uma declaração sem enfeites dos princípios básicos do seu movimento populista e, em parte, nacionalista”, diz Bannon numa entrevista ao Post

O assessor vê paralelismos com a retórica do ex-presidente Andrew Jackson (1829-1837). E solicita a compará-lo com o discurso feito nesta semana no Fórum de Davos pelo presidente chinês Xi Jinping que, em contraste com Trump, apresentou-se como o líder mundial da globalização e do livre comércio. “Você verá duas visões diferentes do mundo”, diz Bannon.

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Posted on 22-01-2017
Filed Under (Artigos) by vitor on 22-01-2017


Sid, no portal de humor gráfico A Charge Online

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OAB quer loteria; brasileiros querem Justiça

Para o presidente da OAB, Claudio Lamachia, a distribuição da relatoria da Operação Lava-Jato no Supremo deve ser por sorteio entre todos os ministros, e não apenas os da segunda turma, da qual fazia parte Teori Zavascki.

“Defendo que seja a forma mais republicana possível e o mais breve possível, até em respeito à memória do ministro Teori”, afirmou Lamachia, segundo o Valor Econômico.

A OAB quer loteria; os brasileiros querem Justiça.

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