Trump:apelos patrióticos no discurso da posse…


…e Brizola: pensamento resiste na semana
em que faria 95.

ARTIGO DA SEMANA

Brizola 95, o desastre em Paraty, e a posse de Trump

Vitor Hugo Soares

“Vai ser a concorrência do Diabo com o Demônio, e o vencedor será o Inferno”

(Leonel Brizola, ex-governador do Rio de Janeiro (duas vezes) e do Rio Grande do Sul, político polêmico, desafiador visionário, que festejaria 95 anos neste domingo, 22 de janeiro, se vivo estivesse)

A queda do avião particular na baia de Paraty (RJ), no começo da tarde de quinta-feira (19), seguida da confirmação da morte do ministro Teori Zavascki, relator do processo da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, que deixou perplexos o juiz Sérgio Moro e o País… As últimas diabólicas semanas nos presídios brasileiros (em especial os do Norte e Nordeste), seguidas do ameaçador dia de cão anteontem em Natal – sofrida capital potiguar de antigos e gloriosos feitos históricos e alegre terra do surgimento do “for all” (forró)… A posse, nesta sexta-feira (20), do esquentado e imprevisível republicano Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, cercada de incógnitas, de algumas expectativas razoáveis, e de incertezas infernais, para a poderosa naç& atilde;o americana e para o planeta.

O tempo e os fatos parecem dar razão mais uma vez – apesar das muitas divergências e opiniões em contrário, admito – ao aniversariante deste domingo. Líder gaúcho nascido em Carazinho, fértil e provocador (no melhor sentido da palavra) frasista, principalmente em suas demolidoras e desconcertantes definições de perfis de vestais e poltrões da política nacional e estrangeira, e nas premonitórias previsões que cunhou ao longo dos 84 anos em que esteve em seu país, ou no largo exílio político que enfrentou, antes de partir em junho de 2004, vencido por problemas renais crônicos (ele culpava o tomate da salada do churrasco) agravados por complicações cardíacas em seus últimos dias.

A frase famosa, na introdução do texto, posta ao lado de só três registros factuais (poderiam ser muito mais neste tempo temerário), na abertura do artigo, demonstra não só a agudeza crítica, mas, principalmente, a atualidade do pensar do ex-governador e do seu jeito peculiar e popular de expressa-lo.

Talvez esteja aí a razão do retrato de Brizola (a exemplo do velhinho Getúlio Vargas ) seguir firme pregado na parede (da memória ou das casas) dos que lembram e celebram, em Passo Fundo, Porto Alegre, Rio de Janeiro ou Salvador e país afora, a data de seu nascimento, quase 13 anos depois do seu prematuro desaparecimento. Prematuro, uma vez que ele dizia sempre: “um Brizola vai facilmente muito além dos 90. Tu sabes que eu não minto, podes acreditar, baiano”.

Na triste noite junina da notícia da sua morte, eu estava na redação do jornal A Tarde, onde era editor de Opinião e relutei em acreditar no fato que as agência já espalhavam. Em seguida, com o gancho da longevidade “prometida” pelo líder gaúcho, abri o texto assinado sobre seu falecimento, publicado na edição do dia seguinte: “esta foi a única vez que Brizola me enganou.” Agora, imagino, aos 95 anos, ele seguiria repetindo ser esta uma idade de franca atividade política, intelectual, “ou outra qualquer para quem carregava o seu sobrenome.
Uma vez, no povoado de Carmen, província uruguaia de Durazno, testemunhei ele falar sobre isso durante conversa noturna que entrou pela madrugada, iluminada por um lampião à querosene. Nestes dias soturnos e preocupantes de janeiro de 2017, no Brasil, não faltarão os incomodados a dizer que já falei e escrevi sobre isso. É verdade, e o farei outras tantas, sempre que considerar relevante e necessário como agora. São fatos intensos, impossíveis de esquecer, viva quantos anos eu viver. Salvo por motivos que fujam inteiramente ao meu controle. Razões de memória, por exemplo. Afinal, como afirma o cineasta espanhol Luis Buñuel no livro “Meu Último Suspiro” , que recomendo: “o homem é a sua memória. Um homem sem memória não é nada”.

Enquanto escrevo – no momento da posse de Trump, nos Estados Unidos, dia seguinte ao desastre da morte de Teori (das sombras e dúvidas graves que se desenham no horizonte, cobrando apurações sérias e cabais, além de decisões transparentes e rápidas nas esferas do governo, da polícia e da justiça) – penso na conversa com Brizola, que aconteceu poucos dias antes dele ser expulso de seu exílio, pela ditadura que na época se implantava no Uruguai, até então chamado de “a Suíça da América do Sul”, com ajuda decisiva da violenta Operação Condor, de trágicas lembranças para o continente inteiro. E então, o falecido aniversariante deste 22 de janeiro foi parar em New York, para cumprir nos Estados Unidos a antepenúltima etapa de seu longo desterro, sob garantia e proteção do governo democrata de Jimmy Carter.

No mais, é como dizem os irônicos franceses, já nem tão irônicos assim: “Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”. Voilá! A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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