DO EL PAÍS

Afonso Benites
Brasília

Novo motim com mortes (pelo menos 10 mortos, segundo o G1), agora em presídio do Rio Grande do Norte, se soma a massacres de Manaus e Roraima. Além de matar nas cadeias, a guerra entre facções provoca mortes pelas ruas do país.

Um inquietante documento interno da polícia brasileira circula há dias pelas delegacias de São Paulo: “Para conhecimento e demais providências: um comunicado entre os membros do PCC (Primeiro Comando da Capital) dá conta de que armas de fogo foram distribuídas entre os membros do grupo para possível ataques. Consta que no próximo 17 de janeiro o PCC ordenará aos executores o tipo de ataque e o local no qual terá de ocorrer”. O Governo de São Paulo afirma “desconhecer” a ameaça e nem confirma, nem desmente. Alguns policiais, sob anonimato, asseguram que os ataques (a policiais? a delegacias? quem sabe?) caso venham a acontecer, sejam uma resposta a uma iminente transferência de líderes desse grupo presos a prisões mais incômodas.

Para além da ameaça real que o documento implica, ele deixa transparecer a realidade de um poder em geral oculto no Brasil: as máfias que controlam o narcotráfico em grande escala, transformadas em verdadeiros exércitos armados, íntimas do Estado e capazes de sacudir o país inteiro quando se enfrentam. Em maio de 2006, o PCC — também segundo a versão oficial, por conta de uma transferência de presos importante — declarou guerra ao Governo de São Paulo e à polícia. A cidade se transformou em um campo de batalha aterrorizado no qual morreram mais de 500 pessoas, entre agentes, narcotraficantes e transeuntes. Não há um só morador de São Paulo que não se lembre daqueles dias de escolas fechadas antes da hora e ruas solitárias por medo de ficar no meio de um fogo cruzado.

No dia 2 de janeiro, o Brasil despertou com outro pesadelo, o assassinato e decapitação de mais de 56 presos no presídio Anísio Jobim, em Manaus, ligados ao PCC, por parte de membros de um grupo rival, a Família do Norte. Quatro dias depois, a vingança foi executada em Roraima. Desta vez, foram 33 os decapitados e esquartejados. Neste sábado, um novo alerta. Os detentos da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, a maior do Rio Grande do Norte, se rebelaram e, apesar de não informar a quantidade, as autoridades locais confirmam que houve mortes.

O temor das autoridades é que essa guerra de três facções pelo controle das rotas da droga (de um lado o paulista PCC, de outro a amazonense Família do Norte, aliada ao Comando Vermelho, do Rio de Janeiro) saia dos presídios para a cidade. Pode acontecer a qualquer momento. A polícia investiga uma denúncia de que alguns dos assassinos dos presos de Roraima receberam a ordem de seus superiores para deixar que os inimigos fugirem e serem abatidos nas ruas. “Ver alguém morto na casa de sua vizinha é muito mais impactante do que vê-lo dentro de uma prisão”, afirma um agente de Roraima que trabalha nas investigações.

O Brasil é um país violento. A taxa de homicídios é de 26 para cada 100.000 habitantes (na Espanha não passa de 0,7%). E cresce ano após ano. Em 1980 esse mesmo índice se situava em torno de 11. O fácil acesso aos armamentos pelas fronteiras, as guerras entre facções pelo controle das rotas do tráfico de drogas, a disputa por pontos de venda de maconha, crack e cocaína nos principais centros urbanos e a simples intenção de demonstrar poder e obter mais recursos financeiros em regiões nas quais a Polícia simplesmente não está presente são algumas das causas dessa porcentagem.

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