Villas-Bôas Corrêa:presença e exemplo
na historia do jornalismo do Brasil.


Geddel (com Temer):PF bate à porta em Salvador

ARTIGO DA SEMANA

Villas-Bôas Corrêa: perdas e achados da Bahia ao Paraná

Vitor Hugo Soares

Soube da morte de Villas-Bôas Corrêa – uma das mais completas e notáveis combinações de repórter infatigável e agudo analista político que conheci pessoal e profissionalmente e com quem tive a honra de trabalhar durante anos no Jornal do Brasil – minutos depois de desembarcar no aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP). Chegava da Bahia, dia 15 de dezembro do fim do ano passado, em escala da viagem para umas semanas de descanso e trocas de afetos na pulsante cidade de Ponta Grossa: chamada ora de Princesa, ora de Capital dos Campos Gerais do Paraná, pelos orgulhosos habitantes da daquele eapaço multicultural que visitei ao sul do Brasil.

Escuto de relance a notícia transmitida pela televisão, e isso produz no apressado viajante, sentimentos revoltos e contraditórios, misturados com fortes solavancos no coração. Sem falar no susto pouco depois, quando da aterrissagem em PG. O piloto comunicou as más condições do tempo ( “nuvens baixas e carregadas”), que dificultavam a visibilidade para o pouso visual previsto para dali a instantes. “Faremos uma tentativa, se não der, buscaremos a alternativa dos aeroportos mais próximos”, falou o chefe da tripulação aos passageiros. Todos ainda tomados pelas recentes e amargas lembranças do trágico desastre do voo da Chapecoense a poucos metros da cabeceira da pista do aeroporto de Medellin, na Colômbia.

“E vamos lá”, penso, enquanto o ateu que acredita em milagres arrisca um silencioso, mas confiante pensamento dirigido ao poderoso Santo Antonio da Glória, como dona Jandira (a mãe saudosa) ensinou ainda nas barrancas do São Francisco: o rio da minha aldeia, que agora vejo também pela TV, agonizar sem mais forças para resistir ao massacre. O seu leito de água doce invadido pelo sal do mar, no doloroso embate praticamente perdido em sua foz, em Alagoas.

Triste e indignante espetáculo de inanição, causado por décadas de exploração predatória de seus milagrosos recursos; pela manipulação política e eleitoral por onde passa seu leito; pela irresponsabilidade administrativa, corrupção e acumpliciamentos dos setores público e privado, em anos e anos de sucessivos governos e conchavos que construíram o cenário desta morte anunciada e a olhos vistos.

Reflito sobre tudo isso a pouco mais de 100 quilômetros de Curitiba, ponto central do debate político, jurídico e ético neste tempo da Lava Jato. Referencial na apuração, julgamento e punição de corruptos e corruptores na terra de Cabral – não o navegante descobridor, mas o farsante ex-governador do Rio de Janeiro, que começa 2017 encarcerado no complexo prisional de Bangu, bairro do subúrbio carioca onde o calor infernal tem beirado os 50 graus de sensação térmica, neste começo de verão de rachar o couro, como dizem os sertanejos da beira do rio em cujas margens vim ao mundo.

Nesta semana do retorno, pisando terra firme outra vez, recordo mais detida e agradecidamente de Villas-Bôas Corrêa, que partiu aos 93 anos. Da sua relevante e histórica passagem pelo jornalismo brasileiro, talvez a melhor maneira de homenagear o personagem singular , sujeito da história da imprensa, ao fechar esta narrativa da viagem, marcada por perdas e encontros, entre o fim do ano passado e este insano começo de 2017.

Luiz Antonio Villas-Boas Corrêa era o jornalista político mais antigo do Brasil. Carioca da gema, nascido no bairro da Tijuca em 2 de dezembro de de 1923. Começou a vida profissional no desaparecido A Notícia, escrevendo pequenas notas.Trabalhou depois no Diário de Notícias, O Dia, e chefiou a sucursal do Estadão no Rio de Janeiro por 23 anos.Foi comentarista político da TV Bandeirantes e da extinta TV Manchete. Repórter incansável na apuração dos fatos, texto apurado, elegante como ele só, Villas ao longo de sua trajetória jornalística, acompanhou os principais fatos políticos do país em seu tempo: a transferência da capital para Brasília, o golpe de 64, a ditadura militar, a anistia, as Direta Já. “Um analista privilegiado de momentos marcantes da história do país”, registrou a edição digital do JB .

Foi no Jornal do Brasil onde Villas-Boas Corrêa atuou na maior parte de sua vida profissional:30 anos..A última coluna dele foi publicada na edição digital do JB em agosto de 2011: a Coisas da Política, marco do jornalismo político nacional. Em relação ao referencial homem de imprensa que recém partiu, guardo um sentimento muito especial de admiração e reconhecimento pessoal e profissional. Na primeira passagem pelo JB, quando Villas-Boas assumiu a editoria de Política, eu chefiava a redação da sucursal na Bahia do jornal carioca de alcance e relevância nacionais, sob o comando de Florisvaldo Mattos. Foi então que Villas decidiu abrir a sua famosa e poderosa coluna

para publicar, nas segundas-feiras, um artigo de informação e análise produzido e assinado por profissionais das sucursais do JB, em geral jovens e desconhecidos fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília.

Lembro de ter recaído sobre mim a responsabilidade e a honra de assinar um dos primeiros artigos de Coisas da Política na época da experiência exemplar e generosa de Villas-Boas. Não dá para esquecer o orgulho e o contentamento profissional com a repercussão do artigo que falava dos principais caciques da política local na época – Luis Viana Filho, Antonio Carlos Magalhães e Lomanto Junior.Durante muito tempo, quando ligava da sede para discutir com a sucursal de Salvador a pauta do dia, o também notável Juarez Bahia, editor nacional, começava o diálogo com a pergunta que deu título ao artigo: “E a nossa Bahia, como vai a nossa Bahia?”. Saudades, Villas-Boas Corrêa. Muitas saudades!!!

E fico por aqui, porque começa a circular a notícia de que a Polícia Federal, por ordem da Lava Jato, está batendo nas portas das propriedades do ex-ministro Geddel Vieira Lima em Salvador.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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