Querido 2017

Janio Ferreira Soares

Como este é meu primeiro texto sob sua jurisdição, gostaria de me apresentar. Eu sou um ribeirinho que há 58 ancestrais seus chegou por essas bandas pesando menos de 2 quilos e com uma previsão nada favorável de um dia subir nas goiabeiras do meu quintal e depois cair de flecha no rio que corria perto.

Mirrado que nem um grilo, só quando já gafanhoto me contaram que alguns parentes me olhavam com um misto de pena e conformismo e faziam um bilu-bilu no meu queixo mais como um “vai com Deus!”, do que com a intenção de obter um sorriso de quem não tinha nenhum ânimo para dá-lo. Mas aí, talvez pelos unguentos no peito e pactos entre Cecília e seu Santo Antônio de tantas cumplicidades, fui dormir anjinho e hoje estou este velho bandoleiro que a cada 15 luas sai campeando madrugadas atrás de palavras que, com jeitinho e paciência, primeiro viram ideias; em seguida, linhas; e, por fim, recebem um ponto parágrafo decretando que chegou a hora de soltar o laço e seguir em frente.

Caso pedras não rolem em meu caminho e não haja nenhuma tentativa de golpe para antecipar 2018 – como se a solução dos nossos problemas fosse uma questão de par ou ímpar, azul ou encarnado ou de petralha ou coxinha -, quinzenalmente estarei por essas quebradas falando de brotos e coisas assim, de banhos de Lua, de ti e de mim, um cara por demais sentimental que gosta de citar letras de músicas sem identificar suas procedências não para roubá-las de seus autores, que filho do tenente Zé da Silva não se presta a esse serviço. Geralmente não as nomeio porque gosto de atiçar a memória de quem as lê a ir buscá-las lá no sleeping bag onde repousam o espinho da rosa que feriu Zé e o sorvete que gelou seu coração.

Não sei se antes de assumir você teve algum tipo de orientação sobre as peculiaridades do nosso país, principalmente do idiotismo geral que anda imperando por essas paragens, cada vez mais amplificado por poderosas redes sociais criando ídolos a granel.

A propósito, quando você tiver um tempinho leia o texto que João Pereira Coutinho escreveu sobre o assunto na Folha de São Paulo. Ele nos lembra que podemos imaginar o mundo com mil possibilidades tecnológicas, mas não devemos esquecer de que quem vai alimentá-las somos nós e nosso velho primitivismo, formado, entre outras coisas, por sentimentos como a inveja, o medo, o ciúme e a vergonha, e que isso prevalecerá em qualquer cenário. Afinal, conclui ele, macacos com melhores Smartphones nunca deixarão de ser macacos. Apenas ficarão mais patéticos ou perigosos.

Agora me dê licença que eu vou ver um vídeo de Thammy Gretchen e Luciano Huck completamente nus, dançando lambada. Claro que é montagem. Mas tem gente que jura que estava no baile. Boa sorte e oremos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na ribeira baiana do Rio São Francisco

Be Sociable, Share!

Comentários

ROSEANE CAMPOS pessoa on 10 Março, 2017 at 15:19 #

prezado janio,
conheço uma cronica sua chamada Noite dos filhos ausentes. Tive acesso a este material na articulação do semiárido. Uma amiga sugeriu a leitura e me deparei com minhas origens. Sou sobrinha de Edgar Campos. Estou juntando alguns materiais sobre a família. Como faço para conseguir este material. Diga-se de passagem que é de excelente qualidade. Tentei na internet e não consegui localizar.
Tinha no meu computador , mas o mesmo teve um problema e perdi o arquivo.
Tem como disponibilizá-lo para mim.
Atenciosamente,
Roseane Campos Pessoa.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • Janeiro 2017
    S T Q Q S S D
    « dez   fev »
     1
    2345678
    9101112131415
    16171819202122
    23242526272829
    3031