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CRôNICA

Auto de Natal no reino da Odebrecht

Janio Ferreira Soares

Cena 1 – O Início. Narrador: “Nossa história começa em 1856, quando o jovem alemão Emil Odebrecht deixa o norte da Prússia e chega à região de Santa Catarina. Lá ele se casa com Bertha Bichels, que ao contrário de Maria não recebeu nenhum anjo profetizando o nascimento de seus 15 filhos, 77 netos e dezenas de bisnetos, entre eles Norberto Odebrecht, aquele que veio ao mundo com o destino traçado por betoneiras de grosso calibre.

Nascido em 1920 num Recife cortado de pontes e fontes coloniais, ainda criança Norbertinho deixaria a terra de Dora, rainha do frevo e do maracatu e se mudaria para Salvador, Bahia de São Salvador, a terra do branco mulato, a terra do preto doutor. E sob as bênçãos do Nosso Senhor do Bonfim (e de São Caymmi), em 1944 ele fundou uma empresa que logo aderiu ao é dando que se recebe que reina em Pindorama desde os espelhinhos aos índios, fato que gerou uma nova versão da Oração de São Francisco (entra um coral de executivos com maletas na mão e canta: ‘Governador, fazei de mim um instrumento de vossas licitações; onde houver obras lhe darei 10 milhões; se for hidroelétrica, 50 milhões; e se for Copa do Mundo chegaremos ao bilhão, pois futebol é o ópio da nação’)”.

Cena 2 – O Meio. Narrador: “E enquanto fortunas surgiam a reboque de rapinagens e políticos eram eleitos com dinheiro vadio, 116 anos após o início da saga odebrechtiana, uma jovem paranaense chamada Odete sonha com o Arcanjo Gabriel lhe dizendo que de seu ventre nascerá um enviado que um dia usará uma capa preta e será guiado pela força de sua espada flamejante para fazer valer a lei e a justiça na terra que nunca as teve. E assim, em 1972 veio ao mundo um varão de nome Moro, desde sempre protegido por anjos guerreiros da Capadócia para que seus inimigos tenham pés, mas não lhe alcancem e facas e espadas se quebrem sem o seu corpo tocar, e nem mesmo em pensamento eles possam lhe fazer o mal (todos cantam: ‘Moro é da Capadócia, salve, Moro!’)”.

Cena 3 – O Quase Fim. Narrador: “E munido com a paciência de Jó, passo a passo o enviado curitibano detona o mito de que algemas não combinam com Rolex e depois de orbitar por satélites de pouco facho, finalmente chega ao núcleo da estrela guia, aquela que há 72 anos brilha nos céus do Brasil atraindo Bitelos, Decrépitos e Angorás que, como Reis Magos ao contrário, chegavam sem ouro nem mirra e saíam cheios de dólares e de geniais apelidos inspirados nas suas feições e mungangas (nessa hora um coral de crianças encerra a apresentação cantando Que País É Esse?, enquanto num presépio vivo uma jararaca toda latanhada deseja boas-vindas a emplumados tucanos convenientemente pousados num poleiro todo sujo de Jucá)”. Bom Natal e, por favor, não excomungue o autor.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beirada baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

luis augusto on 29 dezembro, 2016 at 6:08 #

Tinha lido há alguns dias em A Tarde. Nota 10, de betoneiras a Jucá.


Jair Santos on 29 dezembro, 2016 at 6:18 #

DESVENDANDO MORO

Desvendando Moro
Por Rogério Cerqueira Leite Publicado 13 de outubro de 2016
O húngaro George Pólya, um matemático sensato, o que é uma raridade, nos sugere ataques alternativos quando um problema parece insolúvel.

Um deles consiste em buscar exemplos semelhantes paralelos de problemas já resolvidos e usar suas soluções como primeira aproximação. Pois bem, a história tem muitos exemplos de justiceiros messiânicos como o juiz Sérgio Moro e seus sequazes da Promotoria Pública.

Dentre os exemplos se destaca o dominicano Girolamo Savanarola, representante tardio do puritanismo medieval. É notável o fato que Savanarola e Leonardo da Vinci tenham nascido no mesmo ano. Morria a Idade Média estrebuchando e nascia fulguramente o Renascimento.

Educado por seu avô, empedernido do moralista, o jovem Savanarola agiganta-se contra a corrupção da aristocracia e da Igreja. Para ele ter existido era absolutamente necessário o campo fértil da corrupção que permeou o início do Renascimento.

Imaginem só como Moro seria terrivelmente infeliz se não existisse corrupção para ser combatida. Todavia existe uma diferença essencial, apesar de muitas conformidades, entre o fanático dominicano e o juiz do Paraná – não há indícios de parcialidade nos registros históricos da exuberante vida de Savanarola, como aliás aponta o jovem Maquiavel, o mais fecundo pensador do Renascimento italiano.

É preciso, portanto, adicionar, um outro componente à constituição da personalidade de Moro – o sentimento aristocrático, isto é, a sensação, inconsciente por vezes, de que se é superior ao resto da humanidade e de que lhe é destinado um lugar de dominância sobre os demais, o que poderíamos chamar de “síndrome do escolhido”.

Essa convicção tem como consequência inexorável o postulado de que o plebeu que chega a status sociais elevados é um usurpador e, portanto, precisa ser caçado. O PT no poder está usurpando o legítimo poder da aristocracia, ou melhor, do PSDB.

A corrupção é quase que apenas um pretexto. Moro não percebe, em seu esquema fanático, que a sua justiça não é muito mais que intolerância moralista. E que por isso mesmo não tem como sobreviver, pois seus apoiadores do DEM e do PSDB não o tolerarão após a neutralização da ameaça que representa o PT.

Savanarola, após ter abalado o poder dos Médici em Florença, é atraído ardilosamente a Roma pelo papa Alexandre 6º, o Borgia, corrupto e libertino, que se beneficiara com o enfraquecimento da ameaçadora Florença.

Em Roma, Savanarola foi queimado. Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes.
Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira, seja ela legitimamente aristocrática ou não.


Taciano Lemos de Carvalho on 29 dezembro, 2016 at 12:34 #

“Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira, seja ela legitimamente aristocrática ou não.”

Essa postura é uma verdade.

Enquanto Lula e Dilma foram úteis para a elite banqueira internacional/nacional e a máfia política/empresarial brasileira, incluindo aí os latifundiários do agronegócio, e OXs da vida, foram eles mantidos, abanados, “venerados”, beijados, alimentados (hum!!), propagandeados.

Quando essa elite percebeu que poderia substituí-los, se apoderarem diretamente, sem intermediários ou capatazes, substituíram.


Daniel on 29 dezembro, 2016 at 15:45 #

39 linhas sobre a Odebrecht nenhuma referência sobre o chefe da quadrilha. Curioso…


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