Minha régua e meu compasso

Janio Ferreira Soares

São tantos e tão variados assuntos sacudindo o quase finado 2016, que gostaria de pedir desculpas a você – que gasta alguns minutos de seu sábado lendo o que escrevo neste sertão situado bem na divisa onde Judas perdeu as botas e Lampião ficou completamente cego ao piscar o olho bom pra conquistar Maria -, mas não vou acrescentar nada sobre a imensa dor de milhares provocada pela insensatez de apenas um, até porque os mortos, coitados, merecem mais do que o descanso eterno depois que Galvão narrou seus velórios.

Também não vou tecer nenhum comentário a respeito de John (saudades de Belchior!), nem da espetacular vista que astutos Teletubbies teriam de suas varandas gourmet do entardecer da Bahia, se os Orixás não tivessem agido a tempo de frear o absurdo arquitetônico que desfiguraria as quebradas da ladeira, ainda mais pelo provincianismo do nome, certamente sugerido por fulaninhos que comem lambreta em Guarajuba e arrotam escargot na Côte d’Azur (a propósito, “La Vue” é o cacete!).

Continuando esse preâmbulo de negativas sem fim, tampouco vou falar das espertezas do Boi Manhoso alagoano diante da ameaça de largar as tetas do curral azul, nem da saída de cena de Fidel, fato, aliás, que me fez lembrar da velha piada do cubano que sofreu um enfarte enquanto fugia da Ilha num barco, e não queria morrer sem beijar a bandeira cubana. Aí, como não havia nenhuma a bordo, uma das passageiras lembrou que tinha uma tatuada no bumbum e se prontificou a ajudá-lo. Agradecido, o moribundo, depois de vários beijos, se empolgou e disse: “ahora, señorita, tiene la bondade de virar que yo quiero dar un beso de adiós en Fidel!”.

Pois muito bem, depois de todos esses episódios citados acima, aspiro fundo o espetacular cheiro das mangas que mais uma vez se espatifam no chão do meu quintal e me lembro de duas pessoas fundamentais para minha formação, que acabam de completar 90 anos numa forma física e intelectual que todos imaginamos alcançar se, evidentemente, o destino for simpático ao nosso anseio.

A primeira é minha tia Alda, a quem sempre chamei Mãe Dide, que com seu imenso amor – e sua condição de ex-tabeliã -, foi a extensão da régua que me possibilitou rumos e conhecimentos além das linhas da minha infância, me apresentados justamente pelo segundo personagem em questão, quando, numa distante manhã de 1960, me pegou pelo braço, me colocou num carro e sentenciou: “agora você vai conhecer a Rua Chile”.

Lindemar é seu nome, mas quem quiser também pode chamá-lo de Dadá. Ex-prefeito de Glória (BA), foi ele o compasso que alargou meu mundo para caber nele as revoluções culturais que rolavam na Bahia, essenciais para que essas letrinhas quinzenalmente dancem em sua frente. Aos dois, beijos e umbus-cajá.

Janio Ferreira Soares , cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

Do editor do Bahia em Pauta para Alda que festeja os 90,
com grande carinho e afeto, como no tempo do serviço de
alto falante de Glória, com Zé Layette na apresentação. (Hugo)

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