Moro e Gilmar: divergências no debate do Senado…


…e Mario Sergio, morto no voo da Chape: talento e rebeldia

ARTIGO DA SEMANA

Madrugadas de sombras: do voo da Chape às emendas da meia-noite

Vitor Hugo Soares

Madrugadas temerárias estas que atravessamos, no Brasil da transição de novembro, ao desembocar como uma pororoca (ou filme de terror) no último mês da folhinha deste ano de 2016, de tantas expectativas que se desfazem da noite para o dia. Esperanças de superação humana, de grandes conquistas no esporte e sopros alentadores da vida democrática desabam de repente, ou são esquartejadas em fração de horas. Nesta semana foi assim na política, na economia, no governo e na chamada vida real, marcada para sempre por dois episódios referenciais em matéria de exemplos e possibilidades de reflexão.

Na terça-feira, a pavorosa queda do avião sem combustível, que se destroçou no vale colombiano ao pé de uma montanha. Morreram 71 pessoas (jogadores, jornalistas, tripulantes, funcionários e cartolas) que viajavam juntas. Foi ceifada na calada da noite a caminhada de glórias e de sonhos de conquistas ainda maiores da Chapecoense, time da cidade catarinense de Chapecó, e de um País inteiro à procura de uma utopia ou boa causa em que se agarrar.

Ironicamente, do alto do morro (mostrou a repórter Lília Teles no Jornal Nacional), é possível avistar – a poucos quilômetros de distância – o aeroporto de Medellin, ainda marcado pela memória do desastre em que morreu Carlos Gardel, quando o avião em que viajava com os seus músicos e auxiliares pegou fogo, na decolagem, horas depois de apoteótica apresentação do nome maior do tango. O destino do voo da Chapecoense era o aeroporto de Rio Negro, também ali bem pertinho. Na quarta, outra paulada. Desta feita de caráter político – com entorno marcado por burlas, malandragens e graves desvios éticos e de princípios – urdida nas sombras da madruga. Antes, no meio da tarde, um ato incendiário de desordem, promovido em Brasília por corporações sindicais e grupos ditos “‘de esquerda” sob a capa de protestos contra a votação, no Senado, da PEC do teto dos gastos.

Na verdade, uma prévia violenta e perigosa do que se daria a seguir, no plenário da Câmara, durante a longa e cavernosa sessão de “emendas da meia-noite” (na perfeita e completa definição do juiz Sérgio Moro). Aí foi desferido o ataque mutilador, que transforma em monstrengo para ameaçar juízes, promotores e procuradores da justiça, o acalentado projeto das 10 Medidas Contra a Corrupção, com mais de 2 milhões de assinaturas de cidadãos, colhidas de norte a sul do Brasil. Emendas, cortes, retalhamentos e penduricalhos, de interesses mal disfarçados de parlamentares e partidos suspeitos ou diretamente acusados de envolvimento em grossa corrupção, foram aprovadas na madrugada, desfigurando por completo (na essência) o projeto original. A alteração mais grave, se levada a termo no Senado, coloca uma guilhotina sobre o pescoço dos magistrados encarados como ameaças a corruptos e corruptores. Em síntese, a inversão quase completa de tudo. Ou seja: as regras anti corrupção ditadas por suspeitos ou diretamente acusados de malfeitos criminais.

Nos protestos de Brasília, registre-se, nenhuma palavra, grito de ordem ou faixa contra a corrupção, corruptos ou corruptores. “Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”, diriam ironicamente, os franceses. Que também andam trocando das pernas na política, no governo, e na moral, ultimamente.

Nos dois casos – a queda do voo da Chape e a sessão da meia-noite, no Congresso, feita às sombras, com parlamentares e partidos metidos na trama, aproveitando-se maleficamente do estado de choque e comoção nacional -, o jornalista observa e recorda toques de semelhanças simbólica e sentimental que remontam a cena antológica do filme “Bom Dia Tristeza”, dirigido por Otto Preminger. Trama cinematográfica baseada no romance homônimo de Françoise Sagan (citado recentemente pelo atual mandatário Michel Temer, na entrevista comemorativa dos 30 anos do programa Roda Viva, da TV Cultura.

Na exuberante praia da Riviera Francesa, na metade dos anos 50, a livre e antenada garota Elza (Mylene Demongeot) reflete sobre o que ela imagina ser o desesperante fim da adolescência, na sombria transição que vai dar no insondável e perverso mundo dos adultos. O pai viúvo, um rico “bon vivant” que dividia com a filha os melhores momentos da existência irresponsável e feliz, para os dois, agora está apaixonado por outra mulher, e a filha considera que ele nem a enxerga mais. Elza apanha um punhado da finíssima terra da praia, e vê a areia fina escorrendo, como se a vida lhe escapasse entre os dedos.

De retorno a esta trágica semana da transição de novembro para este dezembro insondável. Lembro de Mario Sergio Pontes de Paiva, para o autor destas linhas, pessoalmente, uma das perdas mais dramáticas e comovedoras da tragédia anunciada do avião do voo da Chape (que cobra investigações cabais sobre seus submersos caminhos e punições exemplares de responsáveis). A Mário Sérgio, – suas jogadas incríveis que vi na juventude, ao lado de meu falecido pai (morava quase na frente do portão da Fonte Nova, bastando descer uma ladeira no bairro de Nazaré/Saúde),- devo em grande parte o meu enorme amor pelo futebol e pelo Vitória. Dele, também, herdei traços da rebeldia da juventude em Salvador, que ainda conservo hoje.

No desastre político da Câmara, deixo com o Juiz Sérgio Moro, condutor da Lava Jato, o alerta antes do ponto final: “Essas emendas da meia-noite que não permitem debate da sociedade mais aprofundado do Parlamento não são apropriadas em temas tão sensíveis… O Senado pode passar mensagem errada se aprovar nova lei neste momento”. Há quem discorde, e até tente fazer chicana agressiva e indelicada, a exemplo do ministro do Supremo, Gilmar Mendes, que também participou do debate de quinta-feira, promovido pelo presidente Senado, Renan Calheiros, que viraria réu horas depois. É isso, por enquanto. O resto, o tempo dirá quem tem razão.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor-soares1@terra.com.br

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Comentários

Jair Santos on 3 dezembro, 2016 at 9:59 #

“Nos protestos de Brasília, registre-se, nenhuma palavra, grito de ordem ou faixa contra a corrupção, corruptos ou corruptores. “Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”, diriam ironicamente, os franceses. Que também andam trocando das pernas na política, no governo, e na moral, ultimamente.”
Aguardemos amanhã, se na manifestação organizada pelo MBL (do PSDB) com participação de promotores , juizes e outros inatacáveis haverá faixas de “Fora, Temer” ( o amigo que tentou proteger Geddel)!!!!
“O resto, o tempo dirá quem tem razão.”


Taciano Lemos de Carvalho on 3 dezembro, 2016 at 11:12 #

Quem diria! É do PDT o deputado autor da emenda que que prevê crime de responsabilidade para juízes e membros do MP. Ele responde a, pelo menos, dois processos. Em um deles é acusado de corrupção.

A essa altura, torna a se contorcer na sepultura o Velho Caudiolho, Brizola.

Do Estadão, mas pode também ser achado em vários outros sites.

http://politica.estadao.com.br/blogs/coluna-do-estadao/autor-de-emenda-que-pune-juizes-weverton-rocha-responde-a-dois-processos/

Weverton Rocha (PDT-MA), autor da emenda que prevê crime de responsabilidade para juízes e membros do MP, responde a dois processos. Num deles, pede a suspeição do juiz; em outro, é investigado por corrupção.
O deputado teve sua campanha financiada por empresa investigada na Lava Jato. A Queiroz Galvão doou R$ 100 mil. A maior contribuição veio de um colega de partido, o deputado Felix Mendonça (BA), que, por meio da sua a empresa, a MRM, doou R$ 250 mil.


Taciano Lemos de Carvalho on 3 dezembro, 2016 at 11:14 #

Isso “explica” o “zelo” dele em apresentar a emenda intimidatória.


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