“Homens impiedosos colocaram em curso uma estratégia cruel”

Deltan Dallagnol, em seu discurso de agradecimento pelo prêmio da Transparência Internacional, denunciou os ataques do Congresso Nacional contra a Lava Jato.

Ele disse, segundo a Folha de S. Paulo:

“O pano de fundo desses ataques é a negociação de acordo com uma companhia que pagou algumas das maiores propinas. A companhia tinha um departamento só para fazer esses pagamentos ilícitos. Dezenas de políticos foram envolvidos. Quanto mais perto estávamos do acordo, maiores eram as reações do Congresso. Nessa semana, a Câmara dos Deputados cruzou a linha”.

E depois:

“Nessa semana, quando uma tragédia levou o país a um grande luto, homens impiedosos colocaram em curso uma estratégia cruel. Enquanto o Brasil chorava o acidente aéreo que matou diversos jogadores de futebol, enquanto as manchetes estavam cheias de dor, deputados da Câmara trabalharam ao longo da noite para infligir o mais forte ataque que a Lava Jato sofreu ao longo de mais de dois anos de vida”.


Moro e Gilmar: divergências no debate do Senado…


…e Mario Sergio, morto no voo da Chape: talento e rebeldia

ARTIGO DA SEMANA

Madrugadas de sombras: do voo da Chape às emendas da meia-noite

Vitor Hugo Soares

Madrugadas temerárias estas que atravessamos, no Brasil da transição de novembro, ao desembocar como uma pororoca (ou filme de terror) no último mês da folhinha deste ano de 2016, de tantas expectativas que se desfazem da noite para o dia. Esperanças de superação humana, de grandes conquistas no esporte e sopros alentadores da vida democrática desabam de repente, ou são esquartejadas em fração de horas. Nesta semana foi assim na política, na economia, no governo e na chamada vida real, marcada para sempre por dois episódios referenciais em matéria de exemplos e possibilidades de reflexão.

Na terça-feira, a pavorosa queda do avião sem combustível, que se destroçou no vale colombiano ao pé de uma montanha. Morreram 71 pessoas (jogadores, jornalistas, tripulantes, funcionários e cartolas) que viajavam juntas. Foi ceifada na calada da noite a caminhada de glórias e de sonhos de conquistas ainda maiores da Chapecoense, time da cidade catarinense de Chapecó, e de um País inteiro à procura de uma utopia ou boa causa em que se agarrar.

Ironicamente, do alto do morro (mostrou a repórter Lília Teles no Jornal Nacional), é possível avistar – a poucos quilômetros de distância – o aeroporto de Medellin, ainda marcado pela memória do desastre em que morreu Carlos Gardel, quando o avião em que viajava com os seus músicos e auxiliares pegou fogo, na decolagem, horas depois de apoteótica apresentação do nome maior do tango. O destino do voo da Chapecoense era o aeroporto de Rio Negro, também ali bem pertinho. Na quarta, outra paulada. Desta feita de caráter político – com entorno marcado por burlas, malandragens e graves desvios éticos e de princípios – urdida nas sombras da madruga. Antes, no meio da tarde, um ato incendiário de desordem, promovido em Brasília por corporações sindicais e grupos ditos “‘de esquerda” sob a capa de protestos contra a votação, no Senado, da PEC do teto dos gastos.

Na verdade, uma prévia violenta e perigosa do que se daria a seguir, no plenário da Câmara, durante a longa e cavernosa sessão de “emendas da meia-noite” (na perfeita e completa definição do juiz Sérgio Moro). Aí foi desferido o ataque mutilador, que transforma em monstrengo para ameaçar juízes, promotores e procuradores da justiça, o acalentado projeto das 10 Medidas Contra a Corrupção, com mais de 2 milhões de assinaturas de cidadãos, colhidas de norte a sul do Brasil. Emendas, cortes, retalhamentos e penduricalhos, de interesses mal disfarçados de parlamentares e partidos suspeitos ou diretamente acusados de envolvimento em grossa corrupção, foram aprovadas na madrugada, desfigurando por completo (na essência) o projeto original. A alteração mais grave, se levada a termo no Senado, coloca uma guilhotina sobre o pescoço dos magistrados encarados como ameaças a corruptos e corruptores. Em síntese, a inversão quase completa de tudo. Ou seja: as regras anti corrupção ditadas por suspeitos ou diretamente acusados de malfeitos criminais.

Nos protestos de Brasília, registre-se, nenhuma palavra, grito de ordem ou faixa contra a corrupção, corruptos ou corruptores. “Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”, diriam ironicamente, os franceses. Que também andam trocando das pernas na política, no governo, e na moral, ultimamente.

Nos dois casos – a queda do voo da Chape e a sessão da meia-noite, no Congresso, feita às sombras, com parlamentares e partidos metidos na trama, aproveitando-se maleficamente do estado de choque e comoção nacional -, o jornalista observa e recorda toques de semelhanças simbólica e sentimental que remontam a cena antológica do filme “Bom Dia Tristeza”, dirigido por Otto Preminger. Trama cinematográfica baseada no romance homônimo de Françoise Sagan (citado recentemente pelo atual mandatário Michel Temer, na entrevista comemorativa dos 30 anos do programa Roda Viva, da TV Cultura.

Na exuberante praia da Riviera Francesa, na metade dos anos 50, a livre e antenada garota Elza (Mylene Demongeot) reflete sobre o que ela imagina ser o desesperante fim da adolescência, na sombria transição que vai dar no insondável e perverso mundo dos adultos. O pai viúvo, um rico “bon vivant” que dividia com a filha os melhores momentos da existência irresponsável e feliz, para os dois, agora está apaixonado por outra mulher, e a filha considera que ele nem a enxerga mais. Elza apanha um punhado da finíssima terra da praia, e vê a areia fina escorrendo, como se a vida lhe escapasse entre os dedos.

De retorno a esta trágica semana da transição de novembro para este dezembro insondável. Lembro de Mario Sergio Pontes de Paiva, para o autor destas linhas, pessoalmente, uma das perdas mais dramáticas e comovedoras da tragédia anunciada do avião do voo da Chape (que cobra investigações cabais sobre seus submersos caminhos e punições exemplares de responsáveis). A Mário Sérgio, – suas jogadas incríveis que vi na juventude, ao lado de meu falecido pai (morava quase na frente do portão da Fonte Nova, bastando descer uma ladeira no bairro de Nazaré/Saúde),- devo em grande parte o meu enorme amor pelo futebol e pelo Vitória. Dele, também, herdei traços da rebeldia da juventude em Salvador, que ainda conservo hoje.

No desastre político da Câmara, deixo com o Juiz Sérgio Moro, condutor da Lava Jato, o alerta antes do ponto final: “Essas emendas da meia-noite que não permitem debate da sociedade mais aprofundado do Parlamento não são apropriadas em temas tão sensíveis… O Senado pode passar mensagem errada se aprovar nova lei neste momento”. Há quem discorde, e até tente fazer chicana agressiva e indelicada, a exemplo do ministro do Supremo, Gilmar Mendes, que também participou do debate de quinta-feira, promovido pelo presidente Senado, Renan Calheiros, que viraria réu horas depois. É isso, por enquanto. O resto, o tempo dirá quem tem razão.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor-soares1@terra.com.br

dez
03
Posted on 03-12-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 03-12-2016


Zop, no portal de humor gráfico A Charge Online

DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Eis um esportista – e humano

Surpreende – não poderia deixar de ser assim, até pelo ineditismo – a decisão de Nico Rosberg de abandonar a Fórmula 1 menos de uma semana depois de ter conquistado, pela primeira vez, o título mundial.

Num segmento em que as diferenças são de milésimos de segundo e os egos, infinitamente gigantescos, um piloto, categoria que ao comum dos mortais se assemelha a extraterrestres imperscrutáveis, dá um saudável sinal de humildade.

Não, ele não quer, aos 31 anos, curtindo as delícias de um casamento feliz do qual tem uma filha de um ano e, digamos, sem problemas financeiros, continuar expondo-se numa profissão de “malucos” apenas para bater recordes.

Foi um tapa na cara desses que esperam do esportista a entronização do sacrifício como ideal de vida e estão até hoje pensando em quantos campeonatos e vitórias teria Ayrton Senna se não tivesse morrido.

Na nota em que comunica sua saída, depois de agradecer a todos que o ajudaram a chegar “ao topo”, o grande campeão conclui: “Vou virar a próxima esquina da vida e ver o que está disponível para mim”.

BOM DIA!!!


Entre Chapecó e Brasília

A visita de Michel Temer a Chapecó virou uma tremenda sinuca política.

Se o presidente se restringir apenas a acompanhar a chegada dos corpos ao Aeroporto da cidade, prevista para amanhã cedo, reforçará a imagem de que evita eventos públicos por temer as vaias que refletem sua baixa aprovação.

Se decidir ir ao velório, corre o risco de ser hostilizado por quem interpretar o ato como uma tentativa oportunista de ganhar popularidade, diante de uma comoção nacional.

Nesse ínterim, familiares de jogadores começam a se revoltar com o vaivém do presidente e a dar declarações públicas de que ele estaria valorizando mais sua imagem do que a dor da tragédia.


DO EL PAÍS
Gil Alessi

As delações premiadas mais aguardadas da Operação Lava Jato – e as potencialmente mais danosas para o Governo Michel Temer e para a elite política brasileira em geral – começaram a ser assinadas nesta quinta-feira. A construtora Odebrecht, a maior do setor na América Latina, firmou um acordo de leniência (ajuste de conduta) com o Ministério Público Federal. Foi o primeiro passo para que dezenas de executivos e diretores da empreiteira, inclusive o ex-presidente Marcelo Odebrecht, pudessem finalmente também começar a assinar acordos de colaboração com a Justiça negociados há meses nesta quinta. Os termos do acordo de leniência preveem que a empresa pague uma multa de 6,7 bilhões de reais ao longo de 23 anos – a maior indenização paga por uma companhia brasileira por crimes de corrupção. Em valores corrigidos, o montante chegará a 8,5 bilhões. Parte dos recursos será revertido para autoridades dos Estados Unidos e Suíça, mas a maioria irá para os cofres públicos brasileiros, de acordo com a Folha de S. Paulo. Em contrapartida, a Odebrecht poderá continuar firmando contratos com o poder público, algo visto como fundamental para que continue suas operações e não feche as portas.

O acordo de colaboração com a Justiça é monumental e pode fazer a Lava Jato, a já maior investigação da história brasileira, mudar de escala. Ao todo, 77 executivos e ex-executivos do grupo querem fazer delação premiada em troca de redução de pena, mas o acerto ainda precisa ser validado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki, relator dos processos da Lava Jato. Antes de enviar o material ao STF _a corte é a responsável porque alguns dos políticos citados têm direito a foro privilegiado_, os procuradores irão analisar se o conteúdo das delações feitas pelos funcionários e diretores são relevantes do ponto de vista da investigação, o que pode se estender até as vésperas do recesso do Judiciário, em 20 de dezembro. Da Arena Corinthians, em São Paulo, à usina hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará, existe a suspeita de que dezenas de obras e contratos da empreiteira tenham envolvido formação de cartel ou pagamento de propinas.

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