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Postado em 27-11-2016
Arquivado em (Artigos) por vitor em 27-11-2016 00:22


DO EL PAÍS

Juan Cruz
Jan Martínez Ahrens

Javier Rodríguez Marcos
Cidade do México

“A história não absolverá Fidel Castro.” O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa o diz cheio de surpresa. Conheceu bem Fidel porque acreditou na revolução. Tinha acabado de saber, pelo EL PAÍS, da morte do líder cubano. Eram oito horas da manhã de sábado em Guadalajara (México). O escritor peruano pediu um tempo para refletir sobre o artigo que escreverá para este jornal, mas avançou uma opinião ainda sem ter se recuperado de uma notícia que está no centro de todas as conversas entre escritores e editores presentes à Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a mais importante do mundo em espanhol.

Vargas Llosa ainda está usando roupa de ginástica. Fez um pouco de esporte antes de participar da homenagem que será prestada pelos seus 80 anos. “Sou o último sobrevivente do boom da literatura hispano-americana”, ri o escritor antes de tomar um gole de café com um pouco leite e lançar sua primeira reflexão. “Espero que essa morte abra um período de abertura, tolerância, democratização em Cuba. A história fará um balanço destes 55 anos que acabam agora com a morte do ditador cubano. Ele disse que a história o absolverá. E eu tenho certeza que a história não absolverá Fidel”.

Vargas Llosa foi um dos intelectuais latino-americanos que viram na Revolução Cubana uma luz democratizadora. Chegou a fazer parte do grupo de escritores que visitavam Castro, mas logo se decepcionou. A perseguição aos dissidentes o horrorizou. Havia represálias, lembra o Nobel, não apenas pelas ideias políticas, mas também pela orientação sexual: mesmo que fossem partidários do regime, “Castro chamava os homossexuais de enfermitos (doentinhos)”.

Héctor Abad Faciolince. “Sem Fidel, o boom teria tido outras proporções. Alguém poderia hesitar se os escritores eram parasitas da revolução ou se a revolução era parasita dos escritores. Ao contrário, houve uma simbiose que funcionou nos anos sessenta, enquanto intelectuais franceses como Jean-Paul Sartre se aproximaram dessa árvore e dessa sombra”, afirma o escritor colombiano, de 58 anos. “Mas houve uma ruptura e foi quando a revolução pediu que Vargas Llosa doasse o montante do Prêmio Rómulo Gallegos, obtido por A Casa Verde, e prometeu-lhe que seria reembolsado secretamente. Aí se viu a capacidade de corrupção da política. Com Vargas Llosa não funcionou para eles”, conclui o autor de Somos o Esquecimento que Seremos.

Nélida Piñón. “Fidel acabou há muito tempo. Na verdade, foi o fim de uma utopia inatingível”, diz a escritora brasileira, de 79 anos. “Eu o conheci. Ele era um homem que falava, falava e falava, prolongava as histórias sem deixar que o outro dissesse nada”, ri Piñón, para quem o líder cubano está cheio de sombras: “Impôs o terror, perseguiu os gays, encheu as prisões”. E as coisas boas? “Que foi um construtor de utopias, de sonhos. Mas faz muito tempo que sua história terminou. Isso acontece com todos os heróis: não resistem ao seu próprio heroísmo”.

Enrique Krauze. O grande historiador mexicano, de 69 anos, não lamenta absolutamente a morte de Fidel. “Agora o mundo será menos ruim. Foi o ditador mais longevo da história latino-americana e nunca tive sentimentos por ele”, diz. Para o autor de Siglo de Caudillos (Século de Caudilhos), a morte abre a possibilidade de uma abertura, especialmente na área econômica, o grande calcanhar de Aquiles do regime. “Donald Trump verá com bons olhos que Cuba caminhe em direção ao capitalismo, mas para ele dará no mesmo que continue sendo uma ditadura”, conclui.

Sergio Ramírez. Para o escritor e ex-vice-presidente da Nicarágua, a intolerância de Fidel ficou clara quando ele decidiu obrigar o poeta Heberto Padilla a fazer uma autocrítica stalinista para um livro que o regime tinha apontado como indesejável. “Então o terror se manteve, veio a perseguição aos intelectuais, aos homossexuais. Acabou em seguida com a primavera cultural cubana, instaurou a ideia de que se estava com ele ou contra ele”, afirma Ramírez, de 74 anos.

Juan Villoro. Surpresa, mas nenhuma tristeza. Irônico, o escritor e pensador mexicano lembra que Fidel chegou a adquirir a condição de líder eterno. “Nós o considerávamos imortal, mas no final vimos que era humano”. Para Villoro, de 60 anos, a morte de Castro fecha um ciclo que estava esgotado havia muito tempo. “Tenho a idade da Revolução Cubana e envelhecemos juntos. Foi a depositária de muitos ideais de justiça social, mas ela mesma foi traindo esses ideais. As razões são variadas, mas foram decisivos os seus próprios erros e a perseguição aos dissidentes. Minha maior decepção foi o fuzilamento do general Arnaldo Ochoa”, afirma.

Daniel Divinski. “Fidel foi um ponto de inflexão na história da América Latina, mais além dos excessos posteriores… O pior? O avassalamento dos direitos humanos, a perseguição de pessoas que não eram contra a revolução, mas que queriam reformas, e não derrubá-lo”. Para o conhecido editor argentino, de 74 anos, não há herdeiros de Fidel. “Ele acaba em si mesmo. Nos últimos tempos, decepcionou muito. Como dizia Perón de si mesmo, já era um leão herbívoro. Surgirão outros, mas já não haverá uma liderança individual como a sua”.

Julio Ortega. “Fidel construiu um aparato cultural, mas paralisou a cultura. Produziu repressão e exílios, tudo se reduzia a defender a revolução. Ele decretava quem era o bom e o mau. E não houve só um caso Padilla, mas vários. Estamos agora em outra época e as coisas vão melhorar”, diz o crítico peruano.

Claudia Piñeiro. “Com a morte de Fidel, acabou o século XX”, sintetiza a escritora argentina.

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Comentários

Daniel on 27 novembro, 2016 at 14:11 #

Llosa, como sempre, iluminado e preciso! Esse sim um orgulho para a América Latina!


Taciano Lemos de Carvalho on 27 novembro, 2016 at 15:35 #

“Escritor de direita, Mario Vargas Llosa é laureado pelo Nobel da Literatura.”

Isso aí publicado pelo Movimento Endireita Brasil.

Como dizia o macaco, personagem de Chico Anísio: Não precisa explicar, eu só queria entender.


Jair Santos on 27 novembro, 2016 at 17:02 #

Fidel, visto por Eduardo Galeano

Assim Eduardo Galeano se referiu a Fidel no livro Espelhos, uma verdade quase universal:

E seus inimigos não dizem que apesar de todos os pesares, das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.

E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo.

E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes.

E nisso seus inimigos têm razão.

Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.

E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.

E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia a la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar.

E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha.

(Do livro “Espelhos, uma história quase universal”)

Tradução: Eric Nepomunceno.


Vanderlei on 27 novembro, 2016 at 19:38 #

Será que os brasileiros, que adoraram e bajularam tanto o Fidel, mudariam para Cuba para viverem com toda a “liberdade” que existe lá? Ou então, gostariam que o Fidel fosse ditador no Brasil como ele foi em Cuba?
Cercear a liberdade de uma pessoa é tão hediondo como matá-la.


Taciano Lemos de Carvalho on 28 novembro, 2016 at 11:23 #

Fidel teve seus erros, sim.

Mas…
Esse foi o país que Fidel deixou como exemplo para o mundo!

* Cuba tem o segundo melhor IDH da América Latina. [1]

* Segundo o Banco Mundial, Cuba tem o melhor sistema educacional da América Latina. [2]

* Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o sistema de saúde cubano é um ‘modelo mundial’. [3]

* A indústria biotecnológica do país é tão avançada, que diversos estado-unidenses viajam para Cuba atrás de remédios e vacinas baratos e raros, que sequer existem nos EUA. [4]

* Segundo estudo da ONU, Cuba é o 2º país menos violento da América Latina, com 4,2 homicídios por 100 mil habitantes. Para efeito de comparação, esse índice chega a 25,2 por 100 mil habitantes no Brasil. [5]

* A taxa de alfabetização na ilha chega a 99,9%. [6]

* A taxa de desemprego tem variado entre 1 e 3% nos últimos 13 anos. [7]

* O país foi o único da América a registrar crescimento econômico nos últimos 21 anos, variando entre 1 e 12%. [8]

* Cuba é o único país da América Latina com 0% de desnutrição infantil. [9]

* Possui o maior número de leitos por habitante (5,9 por 1000 habitantes) da América. O Brasil possui 2,4. [10]

* A melhor expectativa de vida da América Latina (79 anos). [11]

* A menor taxa de mortalidade infantil da América (5 para cada 1000 nascimentos). O Brasil chega a ter 19 crianças mortas a cada 1000 nascimentos. [12]

* A taxa mais alta de médicos por habitante da América Latina, 1 para cada 160 habitantes. O Brasil 1 para cada 500 habitantes.


Daniel on 28 novembro, 2016 at 11:24 #

Há algum problema em se considerar “de direita”?

Maria Vargas Llosa ultrapassa meros conceitos ideológicos. Foi (e é) uma voz livre e dissonante em um tempo em que o mais fácil era nadar a favor da corrente populista.

Reitero: um orgulho para a América Latina!


Daniel on 28 novembro, 2016 at 11:30 #

Esses dados de que “Cuba virou um paraíso social com Fidel” não passa de fraude e discurso propagandístico de um sistema falido e que só trouxe repressão e decadência para uma até então progressista e desenvolvida Cuba.

Esse vídeo mostra como Cuba, na verdade, sempre foi um país diferenciado. Sempre foi de vanguarda e representava uma sociedade moderna e democrática!

Lembrando que essas informações do vídeo são proibidas nas escolas cubanas: https://www.youtube.com/watch?v=cZIYsKxOzrI


Jair Santos on 28 novembro, 2016 at 12:12 #

Taciano Lemos de Carvalho on 28 novembro, 2016 at 21:52 #

Texto de Maradona

Morreu o meu amigo, meu confidente, o que me aconselhou, que me ligava a qualquer hora para falar de política, de futebol, basebol, o que me disse que quando fosse Clinton o que vinha era pior, que foi. Bush. Como não se enganou nunca. Para mim, Fidel é, foi e será eterno, o único, o maior. Me dói o coração porque o mundo perde o mais sábio de todos.
Não qualquer um túmulo uma ditadura com 20 homens a desafiar o império americano.
Não é qualquer um que elimina o analfabetismo em um ano.
Não é qualquer um que baixa a mortalidade infantil de 42 % para 4 %.
Não é qualquer um que faz mais de 130 mil médicos, garantindo 1 médico por cada 130 pessoas, com o maior indice de médicos per capita do mundo.
Não é qualquer um que cria a maior faculdade de medicina do mundo, graduando1500 médicos estrangeiros por ano, com 25.000 médicos formados de 84 nações.
Não é qualquer um que envia mais de 30 mil médicos para trabalhar em mais de 68 países do mundo somando cerca de 600.000 Missões.
Não é qualquer um que consegue ser a única nação latino-Americana sem desnutrição infantil.
Não é qualquer um que consegue ser o único país da América Latina sem problema de drogas.
Não é qualquer um que consegue 100 % de escolarização.
Não é qualquer um que pode circular no seu país sem ver uma criança a dormir na rua.
Não é qualquer um que consegue ser o único país do mundo que cumpre a sustentabilidade ecológica.
Não é qualquer um que faça com que a sua população tenha 79 anos de esperança de vida ao nascer.
Não é qualquer um que cria vacinas contra o câncer.
Não é qualquer um que consegue ser o único país que erradica a transmissão mãe-Filho do vih.
Não é qualquer um que consegue ter a maior quantidade de medalhas olímpicas da América Latina.
Não é qualquer um que sobrevive a mais de 600 atentados contra sua vida e a 11 presidentes americanos tentando derrubá-lo.
Não é qualquer um que sobrevive a 50 anos de bloqueio e guerra económica.
Não é qualquer um que chega aos 90 anos, com tanto protagonismo na história mundial.
Amado por milhões. Incompreendido por outros quantos. O que não pode fazer ninguém, é ignorá-lo.
Descanse em paz Fidel #Castro!


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