Pier de Ipanema, Rio de Janeiro anos 60

Rio, mas também posso chorar

Janio Ferreira Soares
A primeira vez que fui ao Rio – e lá se vão umas boas décadas -, logo entendi as razões que levaram alguns de meus ídolos a trocar o Cristo da Barra pelo Redentor, Itapuã por Ipanema e as escadarias do Colégio Central pelas pedras do Arpoador.

Confesso que não recordo minha reação quando vi aquelas colossais montanhas contornando praias cheias de uma gente bronzeadamente linda, mas certamente devo ter pensado: “ah!, deve ter sido isso que inspirou neguinho a repartir o sol em crimes, espaçonaves, guerrilhas e cardinales bonitas. Nesse caso, my friend Charles, também vou!”.

E aí, com os olhos cheios de cores e o peito cheio de amores, lá fui eu arrastando meus tamancos sobre pedras simulando ondas em branco e preto no calçadão de um Brasil que, se já era meio pandeiro, com a invasão de uma turma de cadência dessemelhante transitando entre a suavidade da Bossa Nova e a crueza do Rock’n Roll, virou referência na literatura, cinema e música, cujo som executado por uns novos e geniais baianos, pasme, tinha até cor. “Garçom, mais um chope e um sanduíche de pernil!”.

Se a Bahia, como dizia Ari Barroso, era a terra da felicidade, aquela fascinante urbe (à época ainda de encantos mil e agora abrigando em suas esquinas tipos como João Ubaldo, Glauber, Caetano, Bethânia, Raulzito, Gal, Moraes, Wally Salomão, Antônio Torres, João Gilberto e tantos outros que seguiram o mestre Caymmi e também pegaram seus itas em busca de um Norte qualquer) era o sinônimo perfeito da geleia geral que Gil e o Jornal do Brasil difundiam.

Mas como nem tudo são chopes, se nas agitações e no visual a Guanabara continuava imbatível, na política os fluminenses seguiam vacilões, ora fazendo gracinha elegendo índios e macacos, ora escolhendo governantes que ainda hoje continuam sendo a mais exata tradução do que de pior existe na famosa malandragem carioca, tudo devidamente acompanhado daquele “exxxxperto” sotaque de quem se considera a última azeitona da empadinha do Bracarense.

Falando nisso, bem antes de sua quebradeira financeira e moral, o Rio já emitia sinais de uma pindaíba também intelectual, claramente percebida nos atuais cronistas de seus costumes e nos frequentadores dos botequins, agora simples pontos de encontro de deslumbrados turistas com chapéus Panamá e jeitão de quem chegou meio século atrasado para ver aquela garota que inspirou Tom e Vinicius a imortalizá-la na canção maior, atualmente substituída por meninas de barrigas trincadas e coxas bombadas desfilando seus duros balanços a caminho de uma banca de açaí.

Quanto ao mar, em breve sob o comando do cajado de Crivella, periga se abrir para um novo êxodo. Velho herege que sou, sinto muito, my friend Charles, mas dessa vez, não vou. Pobre Rio.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beirada baiana do rio São Francisco e nas vizinhanças do Raso da Catarina.

Be Sociable, Share!

Comentários

Cida Torneros on 27 novembro, 2016 at 14:34 #

Caro cronista Jânio!
Salve a Bahia que amo também. Mas salve -se quem puder no Rio Cidade Maravilha da beleza e do caos. Como eu que nasci aqui e me criei no chamado Rio suburbano anterior ao inchaço de vis políticas públicas e o avanço avassalador de guetos dominados por tráfico e coalhados de injustiça social , o que posso dizer é que nossas belezas naturais são tão frágeis quando nossos gestores nós roubaram descaradamente o direito de ir e vir. O drama não é privilégio carioca. Há vendilhões do templo espalhados em todas as megalópoles. Os há por certo nos prazeres de usufruir do lucro financeiro e nas chances de gozar da simpatia ou idolatria que o Rio sempre exerceu por artistas e políticos desde os tempos de capital tanto do Império quanto da República pré Brasília. O fato , você está coberto de razão, consistirá no provável êxodo dos que abandonam o barco quando ele tende a naufragar. Aqui estamos à deriva. Mas há milhões de cariocas dos arredores. Nos subúrbios cantados por Chico em minha gente ou na Portela de Madureira e adjacências exaltada por Paulinho como um Rio que passou em nossas vidas. Tem a Penha encantada no alto da pedra cercada agora pelas comunidades do alemão. Há pedras no caminho sim. Crivella pode ser mesmo mais um pedregulho . No entanto, convido você a exxxxxperimentar os bolinhos de aipim recheados de carne seca no Petisco bar tradicional em Vila Isabel. No mais, companheiro, caminhemos contra o vento, sem lenço e sem documento, nesse Brasil de aquarela, em tempos de tantas crises . Guarde um lugar pra mim na Ribeira caso eu grite “eu vou” e emigre para a linda Salvador. Será a revanche. Cariocas invadem a capital baiana em busca de recuperar axé e bênçãos do Bonfim, enfim. Abraços!


Cida Torneros on 27 novembro, 2016 at 15:07 #

Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • novembro 2016
    S T Q Q S S D
    « out   dez »
     123456
    78910111213
    14151617181920
    21222324252627
    282930