Pier de Ipanema, Rio de Janeiro anos 60

Rio, mas também posso chorar

Janio Ferreira Soares
A primeira vez que fui ao Rio – e lá se vão umas boas décadas -, logo entendi as razões que levaram alguns de meus ídolos a trocar o Cristo da Barra pelo Redentor, Itapuã por Ipanema e as escadarias do Colégio Central pelas pedras do Arpoador.

Confesso que não recordo minha reação quando vi aquelas colossais montanhas contornando praias cheias de uma gente bronzeadamente linda, mas certamente devo ter pensado: “ah!, deve ter sido isso que inspirou neguinho a repartir o sol em crimes, espaçonaves, guerrilhas e cardinales bonitas. Nesse caso, my friend Charles, também vou!”.

E aí, com os olhos cheios de cores e o peito cheio de amores, lá fui eu arrastando meus tamancos sobre pedras simulando ondas em branco e preto no calçadão de um Brasil que, se já era meio pandeiro, com a invasão de uma turma de cadência dessemelhante transitando entre a suavidade da Bossa Nova e a crueza do Rock’n Roll, virou referência na literatura, cinema e música, cujo som executado por uns novos e geniais baianos, pasme, tinha até cor. “Garçom, mais um chope e um sanduíche de pernil!”.

Se a Bahia, como dizia Ari Barroso, era a terra da felicidade, aquela fascinante urbe (à época ainda de encantos mil e agora abrigando em suas esquinas tipos como João Ubaldo, Glauber, Caetano, Bethânia, Raulzito, Gal, Moraes, Wally Salomão, Antônio Torres, João Gilberto e tantos outros que seguiram o mestre Caymmi e também pegaram seus itas em busca de um Norte qualquer) era o sinônimo perfeito da geleia geral que Gil e o Jornal do Brasil difundiam.

Mas como nem tudo são chopes, se nas agitações e no visual a Guanabara continuava imbatível, na política os fluminenses seguiam vacilões, ora fazendo gracinha elegendo índios e macacos, ora escolhendo governantes que ainda hoje continuam sendo a mais exata tradução do que de pior existe na famosa malandragem carioca, tudo devidamente acompanhado daquele “exxxxperto” sotaque de quem se considera a última azeitona da empadinha do Bracarense.

Falando nisso, bem antes de sua quebradeira financeira e moral, o Rio já emitia sinais de uma pindaíba também intelectual, claramente percebida nos atuais cronistas de seus costumes e nos frequentadores dos botequins, agora simples pontos de encontro de deslumbrados turistas com chapéus Panamá e jeitão de quem chegou meio século atrasado para ver aquela garota que inspirou Tom e Vinicius a imortalizá-la na canção maior, atualmente substituída por meninas de barrigas trincadas e coxas bombadas desfilando seus duros balanços a caminho de uma banca de açaí.

Quanto ao mar, em breve sob o comando do cajado de Crivella, periga se abrir para um novo êxodo. Velho herege que sou, sinto muito, my friend Charles, mas dessa vez, não vou. Pobre Rio.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beirada baiana do rio São Francisco e nas vizinhanças do Raso da Catarina.

nov
26
Posted on 26-11-2016
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BOA TARDE!!!


Fidel Castro, em foto de 1966


DO EL PAÍS

Mauríicio Vicent

Líder autoritário ou simplesmente um tirano para meia humanidade, lenda revolucionária e flagelo do “imperialismo ianque” para os mais despossuídos e para a esquerda militante, Fidel Castro era o último sobrevivente da Guerra Fria e certamente o ator político do século XX que mais manchetes de jornal acumulou ao longo de seus 47 anos de domínio absoluto em Cuba, um poder caudilhista que começou no dia 1º. de janeiro de 1959, após derrotar pelas armas o regime de Batista. Nem mesmo no ocaso de sua existência, depois que uma doença o afastou do Governo em 2006, sua influência desapareceu da ilha que sempre foi pequena demais para ele, pois Fidel a concebia como uma peça a mais no grande jogo da revolução universal, seu verdadeiro objetivo na vida.

Ao morrer tinha 90 anos. O presidente Raúl Castro, seu irmão, anunciou o falecimento em um pronunciamento pela televisão. “Com profundo pesar compareço para informar ao nosso povo, aos amigos da nossa América e do mundo que hoje, 25 de novembro do 2016, às 10h29 da noite [1h29 de sábado, pelo horário de Brasília] faleceu o comandante em chefe da Revolução Cubana, Fidel Castro Ruz”, disse o presidente, comovido. “Em cumprimento à vontade expressa do companheiro Fidel, seus restos serão cremados nas primeiras horas de amanhã, sábado, 26. […] Até a vitória! Sempre!”

Mas depois de incontáveis mortes jornalísticas anunciadas em Miami, além de 650 atentados frustrados, incluindo planos de achocolatados com cianureto e roupas de mergulho pulverizadas pela CIA com bactérias assassinas, pode-se dizer que o falecimento real de Fidel Alejandro Castro Ruz já quase nem é notícia.

Sua biografia começa no dia 13 de agosto de 1926 no pequeno povoado de Birán, perto de Holguín, na antiga província cubana do Oriente. Foi o terceiro dos sete filhos tidos fora do casamento por Ángel Castro, um rude fazendeiro galego que chegou a Cuba como soldado de reposição no final da guerra de independência, e a cubana Lina Ruz, que trabalhava como empregada na propriedade familiar. Até se divorciar da sua primeira esposa e se casar com Lina, no início dos anos 40, Ángel não deu aos filhos o sobrenome Castro, razão pela qual até o final da adolescência Fidel carregou o estigma de ser filho bastardo. Isso não o impediu de se destacar rapidamente como um aluno arrojado e brilhante nos internatos jesuítas pelos quais passou, primeiro em Santiago de Cuba e depois em Havana, uma formação que se incrustou no núcleo duro do seu caráter.

Em 1945, começou a estudar Direito na Universidade de Havana, onde o ambiente de pistolas e efervescência política o levou a se juntar a rocambolescas aventuras revolucionárias, como a tentativa de expedição armada para derrotar o ditador dominicano Rafael Leónidas Trujillo, em 1947. Um ano depois, sendo já um proeminente líder estudantil, participou na revolta do Bogotaço, desencadeada pelo assassinato do líder liberal colombiano Jorge Eliezer Gaitán – foi sua primeira experiência de insurreição popular. Nesse mesmo ano de 1948, contraiu matrimônio com Mirta Díaz-Balart, estudante de Filosofia de uma família endinheirada, com quem teve seu primeiro filho, Fidelito.

Segundo o jornalista norte-americano Tad Szulc, autor da biografia mais rigorosa já escrita sobre Fidel, desde a sua juventude ele acreditou que havia “líderes destinados a desempenhar papéis cruciais na vida dos homens, e que ele era um deles”. Essa convicção, unida à sua intuição política e grande poder de persuasão, assim como sua audácia e capacidade de “transformar os reveses em vitórias”, o fizeram se destacar em um momento muito especial da história cubana, quando a corrupção generalizada e o descrédito do Governo de Carlos Prío Socarrás eram terreno fértil para a luta política.

Depois de se formar advogado, em 1950, e abrir um pequeno escritório, entrou integralmente para a política com o Partido Ortodoxo, que o designou candidato ao Congresso nas eleições que deveriam ser realizadas em junho de 1952. Contudo, no dia 10 de março desse ano, a história de Fidel Castro e de Cuba mudou para sempre, com o golpe de Estado encabeçado pelo ex-sargento Fulgencio Batista.

O líder cubano era o último sobrevivente da Guerra Fria

Por ter considerado fraca sua reação ao golpe, Fidel rompeu relações com a Ortodoxia e planejou uma ação armada que deveria provocar uma insurreição popular. Mas a tentativa de tomar de assalto o quartel Moncada, em Santiago de Cuba, no dia 26 de julho de 1953, acabou em fracasso e resultou na morte de 67 dos 135 integrantes do comando revolucionário, a maioria deles assassinada depois dos combates. Os rebeldes foram julgados num processo muito ruidoso, no qual Fidel assumiu sua própria defesa: com a célebre alegação conhecida como A História Me Absolverá, ele expôs seu programa político e revolucionário, que incluía em suas reivindicações a restauração da Constituição de 1940.

Fidel foi condenado a 15 anos de prisão, e seu irmão Raúl, a 13, mas os moncadistas foram anistiados em 1955, e Fidel partiu para o exílio com um grupo de fiéis seguidores. No México, onde conheceu Che Guevara, preparou o desembarque do iate Granma, que ocorreu a 2 de dezembro de 1956, na costa oriental de Cuba – uma ação que marcou o início de dois anos de luta guerrilheira na serra Maestra e que finalmente resultou na fuga de Batista, em 1º. de janeiro de 1959.
Fidel Castro, em 1966.
Fidel Castro, em 1966.

Nenhum historiador pode assegurar que Fidel era marxista quando estava nas montanhas da serra Maestra. Não há um só documento que comprove isso. Mas existem, sim, provas de que seu confronto com os Estados Unidos vem de longe. Na carta que enviou à sua colaboradora Celia Sánchez no dia 5 de junho, logo depois de aviões de Batista bombardearem a casa de um camponês com projéteis norte-americanos, ele diz: “Ao ver os mísseis que jogaram na casa de Mario, jurei que os americanos vão pagar bem caro pelo que estão fazendo. Quando esta guerra acabar, começará para mim uma guerra muito mais longa e grande: a guerra que vou lançar contra eles. Estou percebendo que esse será meu verdadeiro destino”. Para muitos analistas, essa famosa carta é crucial para compreender a psicologia e o modo de agir de Castro a partir daí.

Fidel desceu da montanha envolto na bandeira de José Martí e transformado num ídolo popular que encarnava os valores da justiça social numa nação empobrecida pela ditadura. Intelectuais de todo o mundo, encabeçados por Jean Paul Sartre, saudaram sua vitória, e aquela magia durou alguns anos, embora a revolução logo tenha se radicalizado.

Naquele momento Castro gozava de um imenso apoio popular, e sua imagem era a de um genuíno líder revolucionário, jovem, atrevido e cheio de frescor, nada que ver com os cinzentos dirigentes dos países comunistas da Europa Oriental, instalados no poder por obra e graça dos tanques soviéticos, e portanto simples marionetes do Kremlin.

Já em 17 de maio de 1959, Fidel deu início a uma reforma agrária que expropriou os grandes latifúndios produtores de açúcar, muitos deles norte-americanos, ao que se seguiu uma série de medidas de cunho social. As escolas religiosas foram nacionalizadas, houve uma campanha nacional contra o analfabetismo, e tanto a educação quanto a saúde passaram a ser gratuitas e universais. Em junho, Fidel abandonou a promessa de promover eleições livres em 18 meses (“Primeiro a revolução, depois as eleições”, disse) e empreendeu um drástico reordenamento das instituições, enquanto os fuzilamentos dos primeiros tempos da revolução eram criticados no exterior.

Fidel saiu de Sierra Maestra convertido em um ídolo popular

Seus desencontros iniciais com EUA se transformaram em ácidas tensões tão logo a espiral de medidas e contramedidas se tornou incontrolável. Washington adotou as primeiras restrições do embargo econômico e, em maio de 1960, Fidel reatou relações diplomáticas com a União Soviética, rompidas por Batista em 1952.

Não há consenso sobre se foi o líder da revolução, com sua aposta pela via socialista, quem arrastou os EUA para o enfrentamento, ou se foi a Casa Branca, com sua intolerância às medidas revolucionárias, que levou Fidel a se colocar sob a proteção de Moscou e abraçar uma ideologia que não era a bandeira original da revolução. De qualquer forma, desde o princípio a disputa com os EUA se colocou no centro da política nacional, e embora seja verdade que tal circunstância condicionou um governo cubano com a síndrome do estado de sítio, também é verdade que serviu a Fidel como justificativa para tudo.

Foi protagonista da crise dos mísseis, junto a Kennedy e Jruschov

Durante meio século, Fidel governou a ilha à base de discursos e utilizou maciçamente a televisão para conseguir se conectar com as pessoas e obter respaldo popular, um tesouro político que administrou com a mesma habilidade com que se desfez de inimigos quando mais lhe conveio e utilizou seus aliados para montar um sistema político sob medida para si, tendo o Exército e o Partido Comunista como pilares do seu poder.

Um de seus bons amigos, o prêmio Nobel colombiano Gabriel García Márquez, escreveu certa vez sobre ele que “sua devoção pela palavra” era “quase mágica”. “Três horas são para ele uma boa média para uma conversa comum. E, de três horas em três horas, os dias passam para ele como sopros”, afirmou Gabo. A descrição parece exagerada, mas não é, nem de longe. Qualquer político estrangeiro que tenha tratado com ele pode testemunhar isso, para não falarmos dos milhões cubanos, de qualquer idade, que precisaram deveram dedicar milhares ou dezenas de milhares de horas da sua vida a escutar os discursos e arengas do comandante.

Sempre concebeu a ilha como uma peça a mais na revolução universal

Sempre à frente de Cuba e protegido por um grupo de “históricos” de confiança, durante meio século Fidel foi protagonista de todos os grandes acontecimentos do país e de não poucos fatos de repercussão internacional. Em abril de 1961, comandou pessoalmente as operações militares para derrotar a invasão da baía dos Porcos, uma aventura organizada e financiada pela CIA nos tempos de Eisenhower e herdada por John Kennedy. O líder revolucionário aproveitou essa agressão para fazer o que até então não se atrevera: declarar o caráter socialista da revolução e unir ainda mais os cubanos em torno da sua figura. Um ano depois, com apenas 36 anos de idade, Castro foi o protagonista da Crise dos Mísseis, quando, em nome da fraternidade socialista, Cuba se tornou um campo semeado por foguetes soviéticos, e o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear.

De um modo ou de outro, suas mãos e sua cabeça estiveram em tudo: no apoio às guerrilhas e movimentos rebeldes na África e América Latina; na fracassada aventura do Che Guevara na Bolívia, que foi precedida de uma incursão do revolucionário cubano-argentino no Congo; na safra açucareira dos 10 milhões, nos anos setenta, mais uma das suas estratégias voluntaristas concebidas como a salvação produtiva do país, e cujo fracasso estrepitoso o obrigou a se entregar definitivamente à União Soviética e a engolir o lodaçal burocrático do socialismo real para se sobrepor ao colapso. Fidel Castro foi também o principal responsável pela ocorrência do “quinquênio cinzento” da cultura cubana e pela introdução de inúmeras instituições copiadas da URSS; pelo êxodo do porto de Mariel, que em poucos meses de 1980 lançou ao exílio 125.000 cubanos, numa fuga vergonhosa que escandalizou o mundo e dividiu ainda mais as famílias cubanas; pelo fuzilamento do general Arnaldo Ochoa e de outros indivíduos graduados das Forças Armadas e do Ministério do Interior acusados de narcotráfico, na mais grave fratura interna ocorrida até então dentro da Revolução. Outros marcos foram a guerra de Angola, por onde passaram mais de 300.000 soldados cubanos em 15 anos; o triunfo sandinista de 1979, apadrinhado pelo líder cubano em campos de treinamento da ilha e nas casas de protocolo de Havana; a derrubada de dois aviões da organização anticastrista Hermanos al Rescate; a crise dos balseros e a lendária resistência do comandante à política de embargo econômico norte-americana, uma justificativa perfeita para quase tudo.
Castro, em uma foto de 2012.
Castro, em uma foto de 2012.

Nos anos noventa, o líder comunista sobreviveu, encastelando-se tenazmente, à debacle provocada pela desaparição do campo socialista. Foi quando proclamou seu lema de “socialismo ou morte”. Nessa mesma época, viu-se obrigado a iniciar uma tímida reforma econômica que incluiu a legalização do dólar e a abertura de espaços à iniciativa privada. Castro percebeu imediatamente que, por um lado, essas reformas seriam a salvação do regime, ainda que, por outro, corroesse a viga-mestra da revolução. A entrada dos dólares na ilha dividiu o país em dois – a parte da população que tinha acesso à moeda norte-americana, frente à parte que não tinha – e marcou um antes e um depois na Cuba de Fidel Castro, que desde 1959 tinha no igualitarismo a sua pedra filosofal.

Apesar de todas as restrições e despropósitos, a iniciativa privada foi abrindo espaço, e o número de trabalhadores autônomos cresceu constantemente, até que, superado o pior da crise, Castro deu um soco na mesa e cerceou o processo de mudanças que ele próprio havia respaldado anos antes. Assim, o século XXI começou em Cuba com uma volta ao mais estrito centralismo estatal, tanto no aspecto econômico quanto no político. Já em 2003, ele não vacilou em enviar à prisão 75 dissidentes, com penas de 6 a 28 anos, apesar da unânime condenação internacional, ao mesmo tempo em que a chegada ao poder de Hugo Chávez na Venezuela foi para ele um sopro de oxigênio econômico – o intercâmbio de petróleo por serviços de saúde tornou-se o pilar das contas cubanas na década passada, rejuvenescendo seu velho sonho de estender a revolução pelo continente. A morte precoce do líder bolivariano representou um duro golpe para ele e para seu irmão Raúl.


Janaína retorna na capa da revista Piauí…


…enquanto caso La Vue derruba Geddel e abala Temer

ARTIGO DA SEMANA

Janaína na área: agora de olho em Temer (e Geddel, que cai)

Vitor Hugo Soares

As sombras de duas novas e pavorosas crises sobrevoam Brasília e Salvador. A primeira, um cada vez mais evidente e rumoroso escândalo de tráfico de influência, no qual o interesse público se mistura no mesmo saco com o privado, particular e pessoal (ou, no máximo, de alguns parentes e amigos explícitos ou ainda submersos).

O caso tem nome – La Vue Ladeira da Barra, monstruosa edificação clandestina de 30 pavimentos, em área protegida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) – e dois personagens, em lados opostos deste triste, mas exemplar, embate de poder e de princípios: o ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, diplomata de carreira concursado do Itamaraty, que deixou o cargo por discordar do jogo interno de pressões impróprias e espúrias e o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, pivô de tudo. Político formado na melhor (ou pior) escola das oligarquias baianas, que, nesta sexta-feira, entregou o cargo e “de cara foi ao chão” – à moda do samba “Piston de Gafieira”, de Billy Blanco – depois de bancar o durão, por quase uma semana, e de meter o Governo do PMDB e o próprio presidente Michel Temer em uma enrascada política, administrativa e moral sem tamanho.

A segunda crise, cujo desfecho foi jogado para a semana que vem, tem espectro ainda mais amplo, malandragens e malandros, aparentemente, ainda mais numerosos. Riscos institucionais ainda mais graves e consequências ainda mais imprevisíveis, tal o tamanho descomunal da afronta a princípios basilares da ética e da moralidade que devem reger uma nação democrática. Refiro-me às escandalosas manobras que conduziram ao adiamento da votação do pacote de medidas de combate à corrupção (a começar pela criminalização do Caixa 2).

No caso da Câmara, a indignação que grassa na sociedade – as cenas de baixarias e defesa aberta da corrupção e da imoralidade em palavras e ações de parlamentares, no plenário, são revoltantes – foi sintetizada com perfeição no protesto, por escrito, do juiz federal Sérgio Moro: “Anistiar condutas de corrupção e de lavagem de dinheiro impactaria não só as investigações e os processos já julgados no âmbito da Operação Lava Jato, mas a integridade e credibilidade interna e externa do Estado de Direito e da democracia brasileira, com consequências imprevisíveis para o futuro do País.”

Na mosca! Em questão de princípios, não é preciso acrescentar uma vírgula sequer. Mas não para por aí, como seguramente se verá nos próximos capítulos do caso La Vue, do ex-ministro Geddel, e na votação na Câmara, que ficou para a a última semana de novembro. A conferir.

Esta semana, que termina com a queda do “superministro”, amigo do peito e negociador de Michel Temer e seu estranho, vacilante e complacente governo, apresentou em sua passagem sísmica, um relevante acontecimento político, jurídico e jornalístico, que acabou ficando meio escondido na sua importância e interesse: o retorno, à cena nacional, de Janaína Paschoal.

Engano completo e rotundo de quem imaginava, ou andou dizendo, que depois de ter contribuído, decisivamente através de pensamentos, palavras e ações (principalmente), para afastar a ex-presidente petista Dilma Rousseff, do comando do poder no Palácio do Planalto, a advogada e professora de Direito Penal da USP iria “viver de fama ou de brisas”, e nunca mais retornaria ao palco principal dos grandes embates nacionais: da lei, da ética, do combate crucial do direito contra a corrupção (pública e privada) e em defesa de inalienáveis princípios das verdadeiras democracias.

Mas, Janaína é um desses raros personagens exemplares, que de tempos em tempos aparecem no Brasil, para reacender na sociedade a chama da crença na força das pessoas e das instituições, acima dos malfeitos e dos malfeitores. É uma daquelas figuras protótipos, que Ulysses Guimarães em seus escritos e discursos costumava chamar de “arquiteto da esperança”. Não é coruja que só pia agouro, nem Cassandra de catástrofes. “Sua legenda é a do herói francês: estou cercado, eu ataco”, diria Ulysses sobre a advogada paulista, imagino, se vivo estivesse.

O fato – excelência maior da informação- é que a personagem fundamental, para o entendimento popular na condução e desfecho do processo de afastamento de Dilma Rousseff, retornou – nesta semana temerária de novembro, – ao foco dos holofotes da cada vez mais complicada (e interessante) vida política, jurídica e social do País. Agora sob o governo de Michel Temer, cercado de ministros e conselheiros que mais parecem cavaleiros do Apocalipse, a julgar pelos recentes acontecimentos.

E ela voltou em tripla aparição e grande estilo: é tema de caprichado perfil de capa da revista Piauí que está nas bancas. O texto, assinado pela repórter Júlia Duailibi, com o título “A Inventora do Impeachment”, traça o retrato humano, político e profissional da advogada. O título interno da reportagem – “A Acusadora”- fala por si só. Recomendo, vivamente, a leitura atenta do trabalho jornalístico de fôlego.

Janaína fez, também, expressiva e polêmica palestra no congresso nacional do Movimento Brasil Livre (MBL), em São Paulo. E ainda, pelas redes sociais, postou o mais duro e importante alerta e a mais relevante advertência ao presidente Michel Temer. A advogada comparou a condução, por Temer, do caso La Vue, à forma como Dilma tratava desvios de conduta de seus subordinados. “Os sinais indicam que o presidente pretende trilhar o caminho de sua antecessora, passando a mão na cabeça de quem precisa ser afastado”, postou a advogada em seu endereço no Twitter.

Os irônicos franceses diriam: “amaldiçoado seja aquele que pensar mal dessas coisas”. Mas é bom escutar com mais atenção o que diz a “Advogada do Impeachment”

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

O editor do BP agradece ao jornalista Luis Augusto Gomes pela dica musical na área de comentários deste site blog para começar o sábado sem Geddel no governo Temer.

BOM DIA!!!

(Vitoe Hugo Soares)

nov
26
Posted on 26-11-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 26-11-2016


DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

TSE tem a saída para um futuro incerto

A crise não acabou com a queda de Geddel Vieira Lima, ministro de Governo do presidente Michel Temer. Poderia ter acabado no começo, há uma semana, se tivesse ele sido demitido na hora.

Ou não, na hipótese de o propósito do ex-ministro Marcelo Calera ser a dinamitagem do que resta da República, pois aí de, qualquer maneira, ele soltaria a bomba envolvendo Temer.

Como o passado já era, resta pensar no futuro e suspeitar que o Brasil chegou ao limite, palavra, aliás, muito usada hoje neste blog.

Há uma ação contra a chapa Dilma-Temer em via de conclusão no Tribunal Superior Eleitoral. Carta há muito na manga, poderá representar o umbral de um novo cenário.

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Um plebiscito: eleições diretas ou indiretas?

Dizem que não há saída fora da Constituição. Nesse caso, na hipótese não tão improvável de Temer cair por pecadilhos da eleição, o que só ocorreria necessariamente em 2017, o Congresso elegeria o sucessor.

Está claro que somente tirar Temer e sua penca de ministros “com passagem” não resolveria, porque, se não viesse ele outra vez, certamente a segunda faixa presidencial-tampão seria ostentada por alguém da laia da maioria dos nossos 594 deputados e senadores.

A situação – já se diz há muito tempo – não é boa. As informações, falsas ou verdadeiras, e os interesses, legítimos ou espúrios, conspiram na produção de um quadro que só aos doutos e iluminados é consentido interpretar.

Na presente balbúrdia política, social, econômica e que mais sub-áreas se queira citar, talvez seja o momento de, enfim, chamar o principal interessado, que é o povo, para, em sua soberania, decidir em plebiscito se quer eleições gerais agora ou se prefere levar o barco por mais dois anos.

Crise haverá se for provada pressão de Temer

O presidente Michel Temer recusou-se a demitir Geddel Vieira Lima quando o ministro foi acusado de tráfico de influência, e agora ele próprio foi alçado ao protagonismo do episódio.

A história fica clara mesmo ao observador menos atento: Geddel vinha pressionando o ministro Marcelo Calero para obter uma licença irregular que permitisse a construção do prédio onde tem um apartamento.

Como o ministro resistiu, Geddel, como ameaçara, foi ao presidente Temer, que teve duas reuniões com Calero, sendo a última na véspera do pedido de demissão.

Nesse encontro, supostamente gravado por Calero e encaminhado à Polícia Federal, Temer mostrou de que lado estava na contenda, o que o visitante já esperava, tanto que teria ido preparado para o Planalto.

Desiludido com a posição presidencial, Calero tomou a primeira medida: saiu denunciando o fato, possivelmente na esperança de que resultasse na exoneração do seu desafeto.

Não tendo sido esse o desfecho, o ex-ministro da Cultura deu sua cartada final: contou, em depoimento oficial, que Temer abonou a conduta aética de Geddel, e se isso ficar provado, eis uma verdadeira crise.

Calero chamou presidente na chincha

O presidente Temer nem mesmo dignou-se de pronunciar o nome de Marcelo Calero na cerimônia de posse do sucessor, Roberto Freire, mas não pôde deixar de emitir nota após saber que seu nome foi parar no Supremo Tribunal Federal e na Procuradoria Geral da República.

O texto, no entanto, chega a ser uma confirmação do roteiro traçado pelo ex-ministro, ao referir-se à audiência solicitada por Temer “para solucionar impasse na sua equipe e evitar conflitos entre seus ministros de Estado”.

Temer, de fato, conforme a nota, “sempre endossou caminhos técnicos para solução de licenças em obras ou ações de governo”, mas somente depois que vieram a público as démarches de Geddel para conseguir seu objetivo.

Também não foi convincente a ideia de avaliação jurídica da questão pela Advocacia Geral da União, pois o que se depreende é que, naquela augusta repartição, seria elaborado um parecer sob encomenda para dizer que o Iphan da Bahia, comandado por um amigo de Geddel, é que está certo.

De causar riso foi o item em que se diz que Temer “trata todos seus ministros como iguais”, quando se confronta a amizade figadal com o velho colega Geddel e a relação formal com um jovem que caiu de paraquedas em seu governo. Os elogios finais dirigidos a Calero parecem destinados a não valer nada.

Plateia oficial

A posse de Freire no Ministério da Cultura não teve a presença de artistas.

nov
26
Posted on 26-11-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 26-11-2016

DO BLOG O ANTAGONISTA
O ser e o nada de Temer

Michel Temer disse a Eliane Cantanhêde que o substituto de Geddel “tem de ser alguém que não pode ser metido com nada”.

Agora surge a notícia de que pode ser Moreira Franco.

É o ser e o nada de Temer.

nov
26


Geddel e Temer em imagem de junho passado.
EVARISTO SA AFP


DO EL PAÍS

Afonso Benites

Brasília

A demissão do ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) da secretaria de Governo de Michel Temer deu combustível para a oposição tentar emplacar um pedido de impeachment e fez com que os aliados do presidente minimizassem o uso do cargo público para interesses pessoais.

A sexta-feira em Brasília foi de intensa articulação política e de dezenas de declarações de todos os lados. A preocupação da gestão peemedebista é que as votações no Congresso Nacional na próxima semana – a da proposta de emenda constitucional do Teto de Gastos, no Senado, e a das Dez Medidas Contra a Corrupção, na Câmara dos Deputados – possam sofrer alguma influência diante da crise gerada pela queda de um dos homens de confiança do presidente. Ao perder o seu sexto ministro em seis meses, o Palácio do Planalto diz que o ministro demissionário não soube avaliar o tamanho da crise e diz que ele deveria ter se demitido, antes, principalmente para não atrapalhar uma agenda positiva que Temer queria implementar no seu Governo até o fim do ano.

O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero disse à Polícia Federal que Temer e Geddel o pressionaram para interceder em favor do então colega da secretaria de Governo na construção de um luxuoso edifício residencial em Salvador. Essa obra foi embargada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão que é vinculado à Cultura. Como Geddel comprou um apartamento nesse prédio, ele queria que Calero atuasse junto ao IPHAN para reverter esse impedimento. O então ministro se negou a fazê-lo e, segundo relatou à Polícia Federal, passou a receber pressão de vários representantes da gestão Temer, entre eles Geddel e o próprio presidente, além do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e do secretário de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo Rocha.

“O governo vacilou bastante. A decisão pela saída tinha que ser no primeiro momento. A denúncia é grave, robusta”, diz Jarbas Vasconcelos

O deputado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), um dos poucos parlamentares independentes no Legislativo brasileiro que vez ou outra é consultado pelo presidente, fez um diagnóstico semelhante ao feito por assessores da presidência. “O governo vacilou bastante. A decisão pela saída tinha que ser no primeiro momento. A denúncia é grave, robusta. Fica a lição. Contra Geddel existiam precedentes. Agora, tem de fazer substituição rápida e que seja uma pessoa de bons antecedentes”, afirmou. O agora ex-ministro fora citado na operação Lava Jato e, na década de 1990, chegou a ser investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que acabou o inocentando.

Uma das razões que interferiram na demora por essa demissão foi a de que Geddel e Temer são amigos de longa data e o presidente avaliava que seu subordinado estava fazendo um bom trabalho na articulação com o Legislativo, pois juntos conseguiram aprovar todas as propostas que enviaram desde que assumiram os cargos com o impeachment de Dilma Rousseff (PT).
Candidatos a ministro

A queda mal foi concretizada e já começaram a surgir os nomes de prováveis substitutos. Alguns deles são Moreira Franco, o atual secretário responsável pelo programa de privatizações do Governo, os ex-deputados Sandro Mabel e Rodrigo Rocha Loures, e os deputados federais Darcídio Perondi e Jovair Arantes.

Desses todos ventilados até o momento, apenas Jovair não é do PMDB, é filiado ao PTB. Se Temer se decidir por esse último, terá levado em conta não só a troca de seu articulador político, mas também buscará fazer uma costura política para acalmar sua base no Legislativo, já que Jovair é um dos fortes nomes do grupo denominado Centrão na disputa pela presidência da Câmara em fevereiro do ano que vem.

Mabel é atualmente, um empresário e assessor especial da Presidência que não foi nomeado oficialmente no cargo, mas despacha no Palácio do Planalto. Rocha Loures é chefe da assessoria parlamentar da Vice-Presidência e trabalha com Temer desde 2011. Perondi foi o relator da PEC do Teto de Gastos na Câmara e é um combativo deputado defensor do Governo. Todos atuaram nas articulações parlamentares para derrubar a gestão Rousseff.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Temer disse que o próximo ministro tem de ser “alguém que não seja metido com nada”. Quando assumiu o cargo, ainda que interinamente, o presidente dizia que teria um ministério de notáveis. Agora, registra a malquista média de uma exoneração de ministro por mês.
De impedimento à pinguela possível

No Senado a gritaria em torno do caso foi amplificada. O líder da minoria, Lindbergh Farias (PT-RJ), disse que nem a saída de Geddel do Governo seria capaz de frear uma investigação contra Temer. “Esse é um caso claro de crime de responsabilidade, de advocacia administrativa, de trafico de influência. Se o presidente Michel Temer fez isso com um ministro da Cultura, para intervir num empreendimento imobiliário na Bahia, fico a pensar nos outros ministérios. O que estaria acontecendo com o pré-sal, que envolve multinacionais petroleiras?”, questionou o petista. Até segunda-feira as legendas de oposição deverão apresentar um dos pedidos de impedimento do presidente.

O tom da senadora Vanessa Graziotin (PCdoB-AM) foi semelhante. “O Geddel deveria ter se demitido na semana passada, quando foi divulgada a prática ilegal, imoral e criminosa que ele estava adotando”, declarou a parlamentar.

Entre os aliados de Temer, seus principais defensores foram dois tucanos, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso e o senador Aécio Neves, além do senador e presidente interino do PMDB, Romero Jucá – este que foi o primeiro ministro de Temer a cair por suspeita de envolvimento na operação Lava Jato.

“O que temos que fazer é atravessar o rio. Isso é uma ponte, pode ser uma ponte frágil, uma pinguela, mas é o que se tem”, diz Fernando Henrique Cardoso

Participando de um evento do PSDB em Brasília e de um almoço de alguns dos correligionários com Temer no Palácio da Alvorada, FHC disse que não é o momento para se preocupar com “coisas pequenas”, pois é preciso se preocupar com a recuperação econômica do Brasil. “Na situação de transição é difícil, ministros caem, outros vêm. O importante é não perder o rumo. Diante das circunstâncias brasileiras, depois do impeachment, o que temos que fazer é atravessar o rio. Isso é uma ponte, pode ser uma ponte frágil, uma pinguela, mas é o que se tem”, afirmou.

Já Aécio, que perdeu as últimas eleições presidenciais, disse que respeita a decisão pessoal de Geddel de pedir demissão em prol do bem da gestão peemedebista e que o PSDB reafirma o apoio ao governo federal. “Nosso esforço, nesse instante é olhar para frente. Temos um Brasil em frangalhos, onde a economia não reage, onde o desemprego continua crescendo. Temos que ter força e união para aqui no Congresso Nacional avançarmos na agenda do ajuste fiscal pois somente ela vai inspirar novos investimentos no país e a partir daí a recuperação do emprego” declarou.

Jucá, que também é líder do Governo no Congresso, tratou a queda do sexto ministro de Temer como um fato isolado e disse acreditar que isso não afetará nas votações no Legislativo nas próximas semanas. “As votações Congresso são compromisso da base e qualquer fato isolado não terá impacto no entendimento que o governo tem para melhorar o país”, afirmou em sua conta no Twitter.

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Posted on 26-11-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 26-11-2016


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