ARTIGO

UM CRIME CONTRA A BAHIA – E NINGUÉM PROTESTA

Antonio Risério

Salvador assiste hoje àquele que é o maior crime urbanístico contra a cidade, desde que Thomé de Sousa comandou a sua construção em 1549. E não vejo ninguém bater na mesa. Nem sequer reclamar. O negócio é chutar Geddel e seu apartamento na Ladeira da Barra. Mas, em comparação com o que o governo estadual está fazendo na Avenida Paralela, o apê de Geddel é pinto.

A Paralela é, hoje, o retrato mais preciso que conheço desta cidade. Tem de tudo: vendedores de crack, sede da Odebrecht, lojas (não vou dizer “igrejas”) evangélicas, oficinas de carros velhíssimos, revendedora de automóveis importados, condomínios, terreiros de candomblé, etc.

Era uma avenida bonita. Quase 20 km de extensão, com um belo canteiro central – um parque longitudinal muito bonito, obra de Burle Marx. Lateralmente, havia lagoas e bosques.

Mas notem que estou empregando os verbos no passado. O governo do Estado da Bahia, com sua estética sindicalista, está destruindo a avenida. Montando ali um trem suburbano, uma ferrovia murada ligando Salvador e Lauro de Freitas.

Mas o mais grave nem é a destruição de um belo parque de quase 20 quilômetros. Claro que isto é um delito absurdo. A delinquência governamental em ação. Que merece todas as minhas vaias. Mas o pior ainda não é isso (somando-se à poluição sonora do futuro pseudometrô).

O pior, como disse, é que teremos uma ferrovia MURADA. Olhem no mapa. A Avenida Paralela passa justamente entre os bairros pobres do miolo da cidade e os bairros privilegiados da beira do mar. Com o MURO, a cidade ficará irremediavelmente apartada. Teremos o nosso MURO DA VERGONHA.

“Nem Soweto em Johannesburgo foi tão segregada durante o apartheid. A Paralela perderá o jardim de Burle Marx para dar lugar a uma ferrovia murada com nove estações que ocuparão toda a largura do canteiro central. Seus moradores, funcionários e trabalhadores terão ainda que suportar a matraca do trem dia e noite” – escreveu o arquiteto Paulo Ormindo, o único baiano que até hoje protestou contra esse crime.

Mas o mais escandalosamente cruel, como disse, é o apartheid. De um lado, vai ficar a cidade pobre tipo Pau da Lima. De outro, a cidade privilegiada tipo Pituba-Costa Azul. Com o muro, a segregação física será oficializada – e por um governo que faz de conta que é de esquerda. Um amigo me lembra que nem mesmo um cachorro vira-lata conseguirá passar de Cabula para Piatã. Comparativamente, o Minhocão é obra delicadíssima…

Não posso esperar nada da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Este órgão existe apenas para carimbar oficialmente as ordens do governador, um bundão autoritário, como sempre o chamei. Foi a Secretaria, afinal, que assassinou a área de proteção ambiental de Pituaçu, deixando que invasões “white collar” reduzissem o parque ecológico ao tamanho de um dedal.
Como se não bastasse, a destruição do parque de Burle Marx foi autorizada pelo Inema, o Instituto Estadual de Meio Ambiente, órgão do governo.

Mas onde estão os baianos, que não protestam? Onde estão os ambientalistas que tempos atrás defenderam as lagoas do lugar, virando inclusive manchete na mídia local? Como o ex-ministro da Cultura, por exemplo, que, com sua retoricazinha de merda, acha um crime o apê de Geddel, mas não diz uma sílaba sobre o muro da vergonha, sobre o APARTHEID físico que seus chefes estão construindo?

Onde estão os ambientalistas que abraçavam chaminé e a velha igrejinha do Rio Vermelho? Todos calados, comprados, cooptados. Onde estão os celebrados artistas locais? Onde estão os contestadores da tropicália? Onde estão Capinan e Caetano Veloso? Cadê a axé music? A cidade que se foda, que o importante são as coreografias do próximo carnaval?

Tudo indica que sim. Política e culturalmente, Salvador vive hoje os seus mais tristes e desprezíveis dias.

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Comentários

luís augusto on 24 novembro, 2016 at 14:22 #

Um luta antiga e inglória de Por Escrito.


luís augusto on 24 novembro, 2016 at 14:22 #

Um luta antiga e inglória de Por Escrito.


Flávio on 24 novembro, 2016 at 15:27 #

Lindos serão os largos elevados que serão construídos no questionável BRT da prefeitura e Seteps em plena ACM.
Junto com o metrô (sim, metrô), ao menos virá um parque linear pra amenizar, e pomover uso ao canteiro central da paralela m que há muito estava abandonado.

Salvador será grata pelo avanço em mobilidade alcançado pelos 40 km de um metrô moderno e funcional.


Taciano Lemos de Carvalho on 24 novembro, 2016 at 20:23 #

Trem de superfície. Uma coisa horrorosa numa avenida que foi bela.

Mas por falar em Temer defendendo Geddel, aí vai um link do Congresso em Foco

Cármen Lúcia manda PGR investigar Geddel; Calero diz que Temer o pressionou
Em depoimento à Polícia Federal já distribuído à Procuradoria-Geral da República, ex-ministro da Cultura acusa presidente da República de pressioná-lo para atender demanda do secretário especial de governo. Oposição já fala em pedir impeachment do peemedebista
http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/carmen-lucia-manda-pgr-investigar-geddel-calero-diz-que-temer-o-pressionou/


Taciano Lemos de Carvalho on 24 novembro, 2016 at 20:39 #

Luís Augusto: inglória é a luta que não foi travada. E o ‘Por Escrito’ travou a luta, o bom combate, em defesa da Avenida Paralela, em defesa de Salvador.

Como disse certa vez Darcy Ribeiro: ‘Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu’

Alguns venceram, Salvador perdeu.


luís augusto on 25 novembro, 2016 at 5:38 #

Valeu, Taciano. Retiro o termo. A propósito, vi numa dessas TVs políticas longo documentário sobre Darcy em que ele diz essa gloriosa frase.


Taciano Lemos de Carvalho on 25 novembro, 2016 at 5:54 #

Ao receber o título de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, Darcy Ribeiro, encerrou seu discurso com as seguintes palavras:

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.


Taciano Lemos de Carvalho on 25 novembro, 2016 at 5:59 #

Correção: Ao receber o título de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, Darcy Ribeiro
encerrou seu discurso com as seguintes palavras:


Comentarista on 26 novembro, 2016 at 2:59 #

SEU MALUCO !


Cleber on 26 novembro, 2016 at 19:50 #

É muita baboseira em um único texto! Vergonha alheia. Um mínimo de pesquisa evitaria muitas informações inverídicas. Os chavões são o pior, era pra parecer engraçado, mas ficou ridículo. A verdadeira dstr


Daniel on 27 novembro, 2016 at 2:23 #

Baboseira é a defesa cega de um projeto que descaracterizou a Paralela e fez de nosso “metrô” um reles trem de superfície.


Lucas on 25 agosto, 2017 at 11:36 #

Salvador cidade horrorosa, parece um favelão cheio de casas em morros, povos feios e mal educados, cheio de ambulantes abordando a força quem usa óculos pra fazer propaganda de óticas, lixo de cidade que já é feia tem que se foder mesmo, um metro que é na superficie só nessa cidade mesmo de terceiro mundo, cidade que mais parece um labirinto urbano favelizadas, até em bairros ditos “Nobres” dá pra ver puxadinhos e ambulantes enchendo o saco, “cidade” mal planejada que faz uma calor enorme a partir das 11 horas do dias e as ruas não tem arborização pra ameniza a ensolação reflexo disso é as marcas de expressão de raivas nos rostos das maiorias das pessoas, reparem que a mairoia dos soteropolitanos tem akela marquinha de “raiva” de tanto o sol ficar batendo na cara e ter que apertar os olhos


Honorato on 25 agosto, 2017 at 11:43 #

Metrô? Parece mais os trens do suburbio paulistano


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