André Malraux: lições esquecidas

Lúcia Jacobina

Em quarenta anos, completados hoje, 23 de novembro de 2016, André Malraux já conseguiu duas vitórias sobre a morte: em primeiro lugar, a homenagem de seus compatriotas ao seu protagonismo,com o traslado de seus restos mortais de um cemitério para o Panteão dos heróis da França, e o reconhecimento de seus contemporâneos que continuam a celebrar seu nome em todo o mundo como um dos escritores mais representativos da língua francesa e uma das personalidades mais marcantes do século XX.

O agnóstico sempre angustiado com a finitude humana, para quem “refletir sobre a vida – sobre a vida em face da morte – sem dúvida não é mais que aprofundar sua interrogação”, escolheu como refúgio a ação e a literatura por acreditar que “toda arte é uma revolta contra o destino do homem”.

Após adquirir fama e prestígio, muito se tem escrito sobre sua vida pessoal e profissional, desde as pessoas mais próximas como seu sobrinho e filho de criação, Alain Malraux e sua última companheira, Sophie de Vilmorin, até revelações contidas nas biografias de duas ex-esposas, a escritora Clara Malraux-Goldschmidt e a pianista Madeleine Malraux-Lioux, sobre sua intimidade, contrariando seu recato em revelar aquilo que ele considerava “um miserável montinho de segredos”. Inúmeros ensaios e biografias, além de um dicionário para melhor explicar sua obra, foram publicados na França em datas anteriores e recentes, em uma quantidade tal que se torna impossível citar aqui, sem tomar muito tempo do leitor. Em audiovisual, Jean-Marie Drot lançou “Jornal de Viagem”, coleção de 06 DVDs, onde o próprio Malraux discorre sobre as manifestações artísticas mais relevantes no mundo. Enfocando sua vida, dois filmes foram realizados “Le Mystère Malraux”, documentário escrito e dirigido por Rene-Jean Bouyeri e “Malraux, tu m’étonnes! Libre évocation de lavie d’André Malraux”, um filme de MichèleRosier.

No Brasil, conheço apenas uma brochura de autoria de Lourenço Dantas Mota intitulada “André Malraux”, da Editora Brasiliense, 1982, elencando vida e obra do escritor e algumas resenhas jornalísticas de Paulo Emilio de Salles Gomes. E as biografias traduzidas para o português de autoria de Curtis Cate, “Malraux, artista e guerreiro, filósofo e estadista” e “Assinado Malraux”, de Jean-François Lyotard, além de pequenos textos em coletâneas sobre assuntos variados.

Malraux já era escritor consagrado e ministro das atividades culturais, quando anunciou o lançamento de suas memórias, programadas pela Gallimard para publicação em quatro volumes, e em cujas páginas iniciais surpreendeu a todos com a revelação radical de que “a verdade de um homem é, em primeiro lugar aquilo que ele esconde” e por esse motivo intitulou seu livro “Antimemórias”, ao invés de memórias, como escrevem os que relatam suas próprias reminiscências. Até hoje, continua a ser um desafio para seus biógrafos estabelecer o limite entre ficção e realidade nos escritos de André Malraux. Sabe-se ao certo que se baseou em sua experiência pessoal para construir o enredo de “A Estrada Real”, pois esteve no Cambodja como explorador de templos sagrados na selva, onde foi preso sob a acusação de contrabando de baixos-relevos e esculturas e, em outra oportunidade, sobrevoou na companhia de um aviador amigo a região onde acreditava ter vivido na antiguidade “A Rainha de Sabá”. No retorno à Europa, comandou a célebre Esquadrilha Malraux lutando ao lado dos republicanos espanhóis contra o fascismo, experiência narrada em “ A Esperança” e fez parte da Resistência, chefiando a Brigada Alsácia-Lorena, sob o cognome de Cel Berger, durante a ocupação nazista na França. Controvérsias giram em torno de sua presença entre os revolucionários chineses, sobre os quais escreveu “Os Conquistadores” e “ A Condição Humana”, este último premiado com o Goncourt, em 1933, já que neste mesmo período fundou e dirigiu um jornal na Indochina para combater o colonialismo.

Deixou obra literária extensa, desde romances, ensaios sobre artes plásticas e cinematográficas e até um filme “Esperança”, considerado uma obra-prima. De sua curiosidade por outras culturas e civilizações, originou-se “A Tentação do Ocidente”, um de seus livros mais famosos, no qual continua a tradição do diálogo entre ocidente e oriente, nem sempre conciliador ao longo da história, mas na dicção de Malraux sobretudo revelador das nuances caracterizadoras desses dois grandes pilares do pensamento universal.

Nesses quarenta anos de seu desaparecimento, a crença na fraternidade e o combate aos extremismos encarnados por Malraux fazem falta no cenário político atual, diante da ameaça representada pelo retorno ao poder da extrema-direita, principalmente após a vitória de Donald Trump, o Brexit, o crescimento de Marine le Pen entre os eleitores franceses, a incerteza sobre a continuidade de Merkel na Alemanha, a cobiça de Putin com sua política expansionista na Rússia e a crise dos refugiados, lamentáveis acontecimentos que deixam o mundo em estado de alerta.

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

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Comentários

Cida Torneros on 24 novembro, 2016 at 12:19 #

No Rio, temos um colégio público com o nome de André Malraux na zona Sul que ficou famoso por desenvolver nas décadas de 60 e 70 prodigioso


Cida Torneros on 24 novembro, 2016 at 12:23 #

Prodigiosos metodos de ensino. Um oasis na educação daqueles tempos. Formou gerações de atores, músicos, etc. Vale lembrar e homenagear o patrono focalizado no excelente artigo. Parabéns, Lúcia Jacobina. Obrigada pela aula de história.


vitor on 24 novembro, 2016 at 14:56 #

Cida:

Na mosca, o seu comentário sobre o artigo de Lúcia, na passagem dos 40 anos da morte de Malraux. Na mosca! Texto de fôlego intelectual e informações preciosas e oportunas. E o prazer e honra de poder editar no BP artigos como os de Lucia Jacobina e os seus.Bravo!!!


Lucia Jacobina on 24 novembro, 2016 at 23:00 #

Cida, Vitor,

É muito bom trocar informações. Não sabia da existência do colégio, nem da canção interpretada por Julien Clerc, com a qual você enriqueceu a apresentação e homenageou Malraux. Obrigada aos dois.

Pesquisei na internet que as universidades fluminenses têm se debruçado sobre o escritor em teses de mestrado e doutorado. Vi até livro publicado pelo escritor carioca Frederico dos Reys Coutinho. Sei que Malraux esteve, em 1959, no Rio, então Capital do País, tendo visitado também São Paulo e Brasília, a quem chamou “Capital da Esperança”, ocasião na qual elogiou Niemeyer ao definir as formas por ele criadas como as mais representativas na arquitetura desde as colunas gregas.


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