Sergio Cabral: preso e fichado em Bangu 8…


…e o livro de Sagan que faz Temer
querer escrever um romance


ARTIGO DA SEMANA

Que semana!: Temer no Roda Viva, Jornalismo, Poder, Prisões e Romance

Vitor Hugo Soares

Dois ex-governadores do Rio de Janeiro (Sérgio Cabral e Antony Garotinho) terminam a semana (quem diria?) recolhidos ao complexo penitenciário de Bangu, sem previsão de soltura. E mais neste avassalador começo de segunda-quinzena de novembro: agentes e militantes do extremismo desvairado ocupam as dependências da Câmara, em Brasília, gritam, sobem na mesa e pedem a volta da ditadura com os militares no comando. A jornalista Cláudia Cruz bate de frente com o juiz Sérgio Moro (implacável inimigo de corruptos e corruptores de qualquer sexo ou estatura, públicos ou privados). Ela ensaia uma pantomima com seus advogados de defesa, depois vai visitar o marido, ex- todo poderoso do Congresso brasileiro, Eduardo Cunha, em uma cela de prisão em Curitiba.

Para culminar, o Brasil e o mundo parecem tomados por uma febre terçã , enquanto aguardam, entre tremores malsãos e em completo desassossego, a posse de Donald Trump na Casa Branca, para presidir os Estados Unidos pelos próximos quatro anos. Oi oito, a conferir.

O dezembro e o fim de 2016 que se aproximam – a deduzir pelos sinais explícitos citados acima (e outros ainda submersos) deste novembro invulgar – prometem fazer tremer dentro das sua vestimenta encarnada até Papai Noel: o bom velhinho criado pelo consumismo capitalista, que nesta fase do ano costuma tomar o lugar do verdadeiro dono da festa maior da cristandade, nascido em uma pobre estrebaria de Nazaré, na Galiléia . Exemplo que o saudoso analista político da Tribuna da Bahia, Ivan de Carvalho, costumava lembrar ao seu neto, em conversas pré – natalinas. Saudades!

Na cauda (ou seria na cabeça?) deste furdunço geral, merece destaque especial, ainda, a entrevista do presidente da República, Michel Temer, do PMDB, levada ao ar na noite de segunda-feira no Roda Viva, para assinalar os 30 anos do referencial programa jornalístico da TV Cultura e da televisão brasileira. A gravação do programa se deu no Palácio da Alvorada (recentemente desocupado pela ex-mandatária petista Dilma Rousseff, que agora se apressa em informar que nunca teve apoio do velho amigo de farra, Sérgio Cabral, enquanto este é conduzido pela PF para a cadeia, sob vaias da população e foguetório dos injustiçados membros do Corpo de Bombeiros da esculachada e traída população do Rio. As imagens da cabeça raspada do ex-governador – até bem pouco nome de proa do PMDB e da política nacional – empresta um caráter especialmente dramático à situação. Mas é a praxe para todos os presos em Bangu.

No caso da entrevista do Roda Viva, além do âncora, Augusto Nunes, mais cinco profissionais de variados veículos da mídia – de diversificados estilos pessoais, de pensamento e jeito de atuar na profissão – participaram da conversa. Mesmo diante da tempestade de fatos subseqüentes, o programa produziu assuntos quentes, polêmicas e controvérsias interessantes (o efeito de uma eventual prisão de Lula em especial), durante quase uma hora e meia: política, poder, polícia, prisões, misturado com amenidades – da paquera de Temer com Marcela (a primeira dama) ao sonho acalentado pelo atual mandatário, de enveredar pela escritura de um romance nos moldes do livro mais famoso de Francoise Sagan, “Bonjour, Tristesse”, adaptado e levado às telas do mundo, depois, em filme antológico.

“Quando você é escritor, o primeiro livro deve ser uma coisa da sua vida. E eu vejo isso em vários. Françoise Sagan, por exemplo, escreveu “Bom Dia Tristeza”, eu lí isso há muito tempo. Você percebia que era a vida dela, ficcionada. Depois ela escreveu outros, não era a mesma coisa… Então, eu acho que, na verdade, quando eu penso agora, anoto umas coisas, é uma coisa que eu me recordo lá dos dois anos e meio de idade. Porque eu morava em uma chácara… e eu me recordo de tudo que aconteceu naquela primeira chácara. Então”…, disse Temer no final de Roda Viva, deixando algum suspense no ar.

Roda Viva de segunda-feira, 14, segue dando pano para manga e bastante o que falar (bem e mal ) em espaços factuais e de opinião, a começar pelas esquentadas redes sociais. Registre-se, a bem da verdade e do jornalismo: isto é acontecimento raro no ambiente conflagrado, egocêntrico e imediatista da mídia nacional (e estrangeira também) nos dias que correm confusos , apressados e sem rumo seguro aparente. Muito ao contrário, a insegura nça, incertezas, titubeios e jogos de cena nas questões mais cruciais e de princípios, são freqüentes e contundentes. Ficaram evidentes em vários momentos da entrevista. Para o bem e para o mal.

Juarez Bahia assinala no verbete que consulto, no seu indispensável “Dicionário de Jornalismo”, para escrever este artigo semanal de informação e opinião: “a entrevista é a base de quase toda matéria jornalística… a entrevista reúne peculiaridades que a tornam própria: dinamismo, atualidade, interesse, agilidade, extensão, intensidade e uma subjetividade tal, que a faz flexível, rica, múltipla no seu caráter de informação”.

No precioso trabalho de referência intelectual e profissional a cuja execução Bahia (assim ele era chamado no JB) dedicou os últimos anos de sua vida notável nas redações e nas universidades ( publicado depois da sua morte, graças ao bravo e generoso empenho de Irene, viúva e companheira firme, corajosa e leal), releio agora, depois do Roda Viva desta semana para não esquecer, o que aprendi em mais de 15 anos de exercício da profissão no Jornal do Brasil, vendo Juarez Bahia pensar e fazer jornalismo.

E ao que Bahia escreveu em seu dicionário, entrego as palavras finais deste artigo:”os maiores riscos da entrevista – seja em que contexto for – estão na dissimulação e na fabulação.Como diz Edgar Morin, “porque se fundamenta na fonte mais rica e duvidosa de todas: a palavra”. Nada melhor para encerrar uma semana tão especial e exemplar quanto esta. Bravo!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Jair Santos on 19 novembro, 2016 at 8:00 #

Golpismo lançou o país no caos
19/11/2016 Miguel do Rosário

O golpe mergulhou o Brasil no caos.

As últimas sessenta horas revelaram instituições completamente apodrecidas.

O judiciário, num surto de violência aristocrática contra a classe política, assume a liderança das campanhas de linchamento e golpismo.

A covardia dos ministros do Supremo, hoje convertidos – todos – ao tucanismo midiático-golpista, é estarrecedora. O que eles esperam para se posicionar em prol Estado Democrático de Direito? Que haja um massacre?

A cúpula do Ministério Público Federal faz todo o tipo de chantagem política para aprovar iniciativas que ampliarão ainda mais o seu poder, que já é excessivo, em detrimento das liberdades individuais e da democracia.

A imprensa há tempos perdeu o rumo e hoje navega desgovernada pelas águas turbulentas do golpismo, despejando diariamente gases tóxicos de ódio e mentira na atmosfera política do país. A violência contra seus próprios jornalistas não é novidade: nasce em 2013 e tende a se aprofundar. Não é a esquerda que agride jornalistas em manifestações, e sim o lúmpen eleitor de Bolsonaro, o exército de zumbis alimentado pela carne podre oferecida pela própria imprensa de esgoto e pelas redes sociais de extrema direita.

Como explicar ao mundo que o congresso do nosso país foi assaltado por um punhado de fascistas gritando vivas a Sergio Moro, pedindo intervenção militar e confundindo a bandeira do Japão com uma bandeira comunista?

Como o mundo vai saber dessas coisas se a nossa mídia esconde a verdade, transformando o Brasil numa grande prisão política, dentro da qual ela tenta – com ajuda dos generosos cofres do governo – manter um controle estrito da informação?

A história por trás da demissão do ministro da Cultura, Marcelo Calero, não é digna da pior república de bananas!

Geddel Vieira Lima, ministro que integra o núcleo duro do governo Dilma, pressionou Calero para liberar uma obra em Salvador porque tinha um apartamento nela. “E eu, como é que fico”, afirmou um ministro de Estado para outro ministro, o da Cultura, o “inocente” Calero, cuja vaidade o levou para o meio do lamaçal.

Calero se demitiu por medo e perplexidade. Medo de ser preso se continuasse atendendo as ligações desavergonhadas de Geddel e perplexo de que um ministro fosse tão descaradamente corrupto.

Uma falta de vergonha inacreditável!

O Jornal Nacional vai dar dez minutos para essa história, ou vai continuar blindando o governo mais corrupto, mais incompetente, mais ilegítimo da república?

Claro que vai continuar blindando, afinal é o governo da Globo!

Que o digam os jornalistas que participaram da entrevista no Alvorada, para a TV Cultura, que ofereceram o espetáculo mais grotesco de puxação de saco da história da imprensa mundial.

E agora, Roberto Freire, o mais agressivo, o mais raivoso de todos os políticos, assume o ministério da Cultura! Ainda tentam dizer que não é golpe? Os brasileiros votaram para ter um ministro da Cultura decente, não uma besta fera reacionária e truculenta como Roberto Freire!

A escória da escória assaltou o Planalto.

O procurador da Lava Jato, Dallagnol, participa de evento ao lado de Pedro Parente, o presidente entreguista da Petrobrás, para anunciar que a operação está devolvendo 200 milhões de reais à estatal. Ora, 200 milhões de reais a Petrobrás tira do fundo do mar em doze horas, considerando a cotação atual do barril de petróleo, uma das mais baixas em décadas.

Como calcular o estrago provocado pela Lava Jato, quebrando quase toda a cadeia nacional de petróleo e gás, destruindo programas de pesquisa, devastando o setor de engenharia e construção pesada, matando a indústria naval, além de subsidiar um golpe que entregou nosso pré-sal aos abutres estrangeiros?

Centenas de bilhões, trilhões de reais?

Não adianta agora prender Garotinho, Sergio Cabral, o raio que o parta. Pode prender todos os políticos, sem sentença, apenas com base em despachos cheios de frases de efeito, para aparecer na capa da Veja.

Pode prender até uns tucanos.

Nada disso serve para justificar tanta destruição: da economia, do emprego, da democracia, do sonho de um país soberano!

A Lava Jato bancou, com verba pública, a viagem de procuradores aos Estados Unidos, para entregar ao Departamento de Estado americano informações contra a Petrobrás, e pedir mais dados para destruir a estatal.

O que poderá justificar o arbítrio de delações incrivelmente desonestas, obtidas à força de chantagens, ameaças e tortura?

A mudança na delação de Otavio Azevedo, da Andrade Gutierrez, não é um escárnio? Manchetes e manchetes com o delator afirmando que deu propina à campanha de Dilma e aí, quando Dilma mostra que o cheque foi nominal a Temer, ele muda a versão e diz que não foi propina?

Que palhadaça é essa?
E todas aquelas manchetes contra o PT e contra Dilma, o que a Lava Jato fará com elas? Como pagará pelo dano à democracia, de ter levado ao poder um punhado de bandidos?

A impressão é que se a cúpula do PCC assumisse o comando do Executivo, do Judiciário, do MP, do STF e da Petrobrás, da imprensa corporativa, não seria tão nociva ao Brasil.

A economia derrete numa velocidade atordoante, ao som das trombetas das falsas notícias, de uma mídia subitamente interessada em vender um otimismo ridículo e impossível.

No Congresso, os políticos têm pressa para aprovar leis que destroem o sonho democrático de 1988. As tais 10 medidas contra a corrupção, propostas pelo MP, destroem as liberdades individuais. A PEC 55 destroi as liberdades coletivas.

Enquanto saqueiam o Brasil, tratam de perseguir Lula, a única liderança capaz de promover um diálogo entre as diferentes classes, construindo um novo pacto de convivência, única maneira de sairmos pacificamente do atoleiro em que o golpe nos lançou.

Moreira Franco, saído das catacumbas mal cheirosas da política fluminense, viaja o mundo como mascate do patrimônio nacional. É coordenador do Projeto Crescer, que pretende vender, em 2017, dezenas de estatais de saneamento, de água, aeroportos, portos. Tudo a preço de banana e financiado com dinheiro público. Ou seja, chineses, americanos, europeus, poderão comprar o Brasil na bacia das almas sem botar um tostão do próprio bolso. Nós é que vamos financiar tudo, como fizemos na privataria tucana.

Os golpistas, com apoio da mídia, não tem projetos além da entrega do nosso patrimônio, da nossa soberania, da nossa democracia, de tudo que conquistamos desde 1988.

Não se oferece mais esperança ao povo, apenas sacrifício, arrocho, miséria, violência e desemprego. O combate espetaculoso e midiático à corrupção serve para abafar a leniência com a evasão fiscal, esta sim, que sangra os cofres públicos em mais de R$ 600 bilhões ao ano. Ou seja, em dez anos, R$ 6 trilhões escorrem pelo ralo da sonegação praticada pelas grandes empresas. Neste assunto, ninguém toca, sobretudo a imprensa, ela mesmo líder em sonegação.

Os juros pagos à banca vampira não tem paralelo no mundo, viciando o capitalismo nacional num dinheiro fácil, rápido, seguro. Para que grandes obras? Para que pré-sal? Para que gastar com educação e saúde? Para que construir refinarias? Para que contratar mão-de-obra? É muito mais fácil adquirir títulos do governo e receber os maiores juros do planeta.

A sublevação do país, a desobediência civil, a revolta, a insurgência, a resistência democrática, são a única luz, a única esperança que nos move.

A população sabe disso. Por isso as universidades federais estão quase todas ocupadas. Até mesmo algumas privadas, como as PUCs de Minas e Rio.

Milhares de escolas se sublevam contra as iniciativas golpistas do governo, que atingem diretamente a educação pública, humilhando professor e alunos com leis autoritárias e estúpidas.

A luta para devolver o Brasil ao bom senso vai durar ainda um tempo.


luiz alfredo motta fontana on 19 novembro, 2016 at 8:18 #

Caro VHS

Ainda abatido por uma infecção inoportuna, meio jururu, vou sorvendo teu texto como sorvia na infância a maçã raspadinha sob o olhar e cuidado atento de Dona Luiza.

Que semana!

Embora, Renan continue lampeiro e pimpão, afinal todos são viciados na tal droga da governabilidade. Renan não precisa de seguidores, tem usuários!

Que semana!

Até para americanos, a escolha é Sofia. Livraram-se da dama de pijama vermelho, (Hillary não se veste, traveste-se!) Resta agora aparar o topete de Trump.

Que semana!

VHS!

Agora falando sério, entrevista não é, nunca será fonte isenta de informação.

As vezes é mera escada, por vezes cilada, mas poderá ser lúdica, caso entrevistado e entrevistador sejam ao menos sinceros. O que é raro.

Que semana!

Volto à maçã raspadinha!

Tim Tim!!!


vitor on 19 novembro, 2016 at 11:25 #

Fontana

Tim, Tim, poeta! Melhoras, rápidas e definitivas, que a poesia de Marília é axial por estas bandas , principalmente em semanas como esta.Que semana!
Em tempo: um bom chá de umburana de cheiro (à moda do meu Velho Chico) ajuda a curar. Tim Tim!!!


Taciano Lemos de Carvalho on 19 novembro, 2016 at 13:59 #

Procuradoria diz que Garotinho ofereceu suborno para não ser preso; defesa nega

http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2016-11/juiz-acusa-garotinho-de-tentar-suborna-lo-para-nao-ser-preso


Mariana Soares on 19 novembro, 2016 at 18:11 #

Que semana! E ainda acabou muito pior com a decisão nada isenta, como sempre, da Ministra Luciana Lossio, sobre a origem todos sabemos, de mandar Garotinho para um hotel, ops, hospital de cinco estrelas para não ter que enfrentar, como devido, cana dura em Bangú.
Deu chilique, pronto! Da uma passadinha no hospital, para despistar os bestas, e volta para o aconchego do lar, para curtir os luxos adquiridos com o dinheiro público.
Garotinho não tem absolutamente nada, além de falta de vergonha na cara! Mostrou força e bem estar ao se debater, com força e fúria, para não ir para onde deveria, embora muitos, que até ontem, criticavam que só os petistas iam pra cadeia, tenham saído em sua defesa…
Os empresários estão comendo cana dura e fria em Curitiba e ninguém, além dos seus advogados e familiares, e os temerosos das suas delações, saem em suas defesas…E os políticos? Será assim? Gritou e Luciana e assemelhadas vira em seu socorro?!?!
Que se reúna o pleno do TSE e bote as coisas em seus devidos lugares, caso contrário, que ocupemos as ruas outra vez.


Vanderlei on 19 novembro, 2016 at 23:22 #

Quem sabe esses acontecimentos façam os cariocas acordarem, saindo às ruas, para devolverem a “Cidade Maravilhosa ” para todos nós.


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