Trump com Obama na Casa Branca: nova ordem…


…e Napoleão na volta à França: de bandido a majestade.

ARTIGO DA SEMANA

De Napoleão a Trump: a grande (e pequena) imprensa em xeque

Vitor Hugo Soares

Olhando bem para os escombros deixados pelos abalos gerais – e com o devido rigor crítico e autocrítico que, no meio jornalístico, costumamos cobrar dos outros – é preciso reconhecer: foi uma sova e tanto. Refiro-me, é claro, não aos 3 a 0 enfiados pela incrível seleção de Tite na Argentina, quinta-feira, no Mineirão dos 7 a 1 tomados da Alemanha, na Copa do Mundo, mas ao resultado das urnas presidenciais nos Estados Unidos, esta semana.

Uma surra exemplar para muita gente e para muitos setores. E entre os que apanharam mais feio é inevitável constatar: a imprensa, o jornalismo. Grandes (e pequenos) veículos de comunicação e muitas de suas estrelas mais notórias e fulgurantes (nos EUA, no Brasil e no resto do mundo) saíram “lenhados”, para usar uma típica expressão soteropolitana.

Pior mesmo, só os institutos de pesquisa, e seus analistas profissionais, que saíram pouco menos que desmoralizados “por completo”, como dizia a saudosa Calú, uma sábia de Irecê, no sertão da Bahia. Neste caso, a credibilidade seriamente arranhada, ao se consumar a derrota da democrata Hillary Clinton, vendida como “Pule de 10” durante toda a campanha. Mesmo nas pesquisas de no dia da votação, quando o desastre já se desenhava nos jardins da Casa Branca, sob domínio democrata durante 8 anos do governo Obama. Este, outro grande e notório perdedor da refrega eleitoral. Basta ver as imagens do seu desconforto e abatimento físico no encontro com Trump – apesar de todos os salamaleques diplomáticos – para “facilitar” os caminhos da transferência do poder, que muda de mãos e de voz.

Já foi dito, mas nunca é demais repetir: há praticamente um só vitorioso, depois da apuração dos votos nas presidenciais dos EUA: Donald Trump, o nome ungido pelo mirabolante sistema eleitoral norte-americano para comandar a mais poderosa nação do planeta, nos próximos quatro anos. Ou 8, provavelmente, a depender do que virá pela frente, e da carcaça do ganhador agüentar o tranco.

Com alguma boa vontade seria possível identificar mais um punhado de coadjuvantes do triunfo. Tão poucos que daria para contar nos dedos das duas mãos. O próprio Trump precisou apurar bem a vista para identificar alguns deles, durante seu estranho, enviesado e “apaziguador” discurso da vitória, no suntuoso salão do Hotel Hilton. Entre os destaques, membros mortos ou vivos da própria família (como nas festas do Oscar), amigos veteranos de guerra e até um general. Apontados ao mundo na madrugada de quarta-feira, às 5:30h da manhã, horário do Brasil, com o sol nascendo na Cidade da Bahia.

O jornalista de olhos grudados na telinha do canal privado de TV, depois de uma noite inteira zanzando feito zumbi, em busca de informações isentas e confiáveis no computador, nos sites dos jornais, portais e blogs do planeta. Procura inglória, na maior parte do tempo e na maioria dos veículos. “Uma banana para Washington e seus políticos e a grande mídia, agora quem vai mandar nos Estados Unidos somos nós”, sintetiza o texano branco, de 37 anos, que, de férias em New Iorque, festeja a vitória do megaempresário que também não se cansa de demonstrar sua ojeriza aos políticos e que pode governar sem eles.

Talvez a bravata seja desnecessária. Leio, aqui e ali, nos jornais dos dias seguintes, escuto no rádio e vejo na televisão: praticamente todos os adversários do vencedor, mesmo os mais ferozes, aparecem na mídia agora pregando união e torcendo pelo sucesso do presidente eleito. “Eu conheço esta gente!”, costumava dizer o falecido ex-governador Leonel Brizola, em situações semelhantes no Brasil.

Na grande (e pequena ) mídia – nos Estados Unidos, na Europa e pelas bandas de cá do Atlântico Sul – parece se caracterizar um quadro semelhante ao de uma história clássica, deliciosa mas implacável na crítica da imprensa europeia. Conto neste espaço, outra vez, antes do ponto final , para os de memória mais curta.

Quando Napoleão fugiu da ilha de Elba e desembarcou no Golfo Juan, o jornal mais importante da França escreveu em sua manchete principal:

“O bandido corso tenta voltar à França”.

Quando o bandido corso alcançou o meio do caminho para Paris, o mesmo periódico escrevia:

“O general Bonaparte continua a sua marcha rumo a Paris”.

Quando o general Bonaparte se encontrava a um dia de Paris, o jornal dizia:

“Napoleão segue a sua marcha triunfal”.

Quando Napoleão entrou na capital de seu império perdido, o periódico arrematou o processo de sua informação com esta manchete:

“Sua Majestade o Imperador entrou em Paris, sendo entusiasticamente recebido pelo povo”.

Haverá sempre alguém para perguntar: “Mas o que isso tem a ver com a eleição de Trump e a imprensa dos nossos dias?”. Digo que não sei. Responda quem souber.
Vitor Hugo Soares é jornalista. Editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

regina on 12 novembro, 2016 at 7:33 #

Donald Trump ganhou a Casa Branca terça-feira à noite, mas Hillary Clinton recebeu a maioria dos votos, de acordo com os últimos totais.
Hillary Clinton não apenas ganhou o voto popular. Ela ganhou por uma margem substancial.
No momento em que todas as cédulas são contadas, ela parece estar à frente por mais de 2 milhões de votos e mais de 1,5 pontos percentuais, de acordo com meu colega do Nate Cohn. Terá ganhado por uma margem de porcentagem mais larga do que não somente Al Gore em 2000 mas também Richard Nixon em 1968 e John F. Kennedy em 1960.
A eleição de 2000, como a de 2016, levou a perguntas sobre o Colégio Eleitoral, que foi criado em parte para colocar os Estados em condições de igualdade quando se trata de selecionar o presidente.
O Colégio Eleitoral é composto por 538 eleitores, correspondendo o número de cada estado ao tamanho da delegação do Congresso.
Os eleitores de cada estado passam a “votar” para o presidente, com alguns estados tendo um “vencedor-take-all” método de atribuição de delegados. Esses eleitores se reúnem em cada estado e emitem suas cédulas, embora não haja disposição constitucional ou lei federal que exija que os eleitores votem de acordo com os resultados de seu estado. No entanto, as leis que vinculam os delegados, bem como as promessas dos partidos políticos, existem em muitos estados e os Arquivos da Câmara afirmam que os eleitores votaram pelo vencedor do seu estado mais de 99% do tempo.
Por sua vez, o Congresso tem hesitado em tratar ou mudar o sistema de Colégio Eleitoral, a última vez que tentou foi no final dos anos 1960, quando uma proposta foi introduzida para prever uma eleição direta do presidente e vice-presidente com uma segunda volta no caso nenhum candidato recebeu mais de 40 por cento dos votos.
A proposta foi aprovada pela Câmara em 1969, mas falhou no Senado.
Caso prevaleça o resultado dessa eleição, é imperativo revisitar essa, que é uma das formas mais antidemocráticas de se eleger um presidente!!!


Vanderlei on 12 novembro, 2016 at 12:16 #

O modelo de eleição americano foi instituído no momento da criação da Constituição dos Estados Unidos, em 1797. Naquela época, cada Estado queria manter seus direitos, principalmente os menores, que temiam ser dominados pelos maiores. Os líderes estaduais não confiavam no povo para escolher o Presidente e, então, decidiram que mandariam seus delegados (como seus representantes) para fazer a eleição.
Cada estado tem um número de delegados, que é relativo ao número de habitantes. Quanto mais populoso o Estado, maior o número de delegados. Assim, é constituído o Colégio Eleitoral estadual, que deve ter, no mínimo, três delegados. Como a Constituição, em 1787, instituiu a autonomia dos Estados, cada um dos 50 existentes nos EUA decide como escolherá seus delegados (se os eleitores devem ser filiados ou não aos partidos, por exemplo).
Mudar tudo isso, nos EUA, é como tentar misturar o óleo à água.


Taciano Lemos de Carvalho on 12 novembro, 2016 at 12:36 #

Todo doido, quando coloca aquele chapéu fica com cara de Napoleão e de mais doido ainda.

Trump nem precisa botar o chapéu.

Verdade que estou com Dom Helder Câmara, que dizia que a diferença, nos Estados Unidos, entre um governo de ‘republicanos’ e um governo de ‘democratas’ (entre aspas, entre aspas) é a diferença entre a Coca e a Pepsi.


Vanderlei on 12 novembro, 2016 at 13:05 #

Vanderlei on 12 novembro, 2016 at 13:06 #

Vanderlei on 12 novembro, 2016 at 13:11 #

Como funciona o voto através do Colégio Eleitoral

https://www.youtube.com/watch?v=afrg2h6Td28


Daniel on 12 novembro, 2016 at 15:12 #

Esqueçam tudo que você ouviram sobre um Partido Democrata “progressista, igualitário e defensor das minorias” x Partido Republicano “racista, machista e xenófobo” e vejam o surpreendente documentário sobre a verdadeira história política dos EUA.

O link segue legendado em português: https://www.youtube.com/watch?v=Tnyqfs8AFM0


LUIZ BORGES on 12 novembro, 2016 at 16:54 #

Governo Trump tem que ser visto sob uma perspectiva diferente.
Creio que não está havendo uma leitura correta dos comentaristas políticos e de economia sobre as possíveis medidas e consequências do futuro Governo Trump.
Temos que ter em mente, que seu discurso não pode ser visto/analisado sob o ponto de vista da economia, da política e mesmo da sociologia. Ele é um NEGOCIADOR. E, dos bons.
Ou seja, como tal, dá um lance alto, para conseguir uma vantagem. Assim, quando diz que vai taxar as exportações mexicanas e as remessas de imigrantes para o México, em 30%, ele sabe que é inviável. Mas, conseguir 5 a 10% para a criação de um Fundo para custear despesas americanas com os imigrantes, passaria a ser aceitável para o Governo Mexicano.
Ao mencionar que vai eliminar ou reduzir o pagamento de gastos americanos com defesa na OTAN e na Arábia Saudita, ele sabe que não é aconselhável. Mas, é certo que tanto os países membros da OTAN como a Arábia Saudita irão, com certeza, assumir, participar ou aumentar suas contribuições.
Com a China, a mesma coisa. Promete pressionar, suspender ou sobretaxar importações. O que almeja, na verdade, é que a própria China adote uma auto taxação e abra mais seu mercado, para manter o grande mercado americano ao seu alcance.
E, assim são todas as suas “bravatas”, verdadeiros movimentos utilizados por grandes negociadores.
Outro assunto que merece uma visão menos parcial diz respeito as pesquisas realizadas. Infelizmente, a nossa visão é altamente influenciada pelo a mídia e o que ocorre nas costas leste e oeste. Alencar como uma das causas dos erros das pesquisas, a vergonha do eleitor dizer que votaria no Trump, é risível. Pode ocorrer nas regiões mencionadas, e só. Se alguém for aos Estados do Sul, Centro e Norte, talvez a vergonha seria dizer que votaria na Hillary.
Somente ficaram surpresos com a derrota da Hillary os que não conhecem os Estados onde ela perdeu. Populações imensas que não se beneficiaram da melhoria da economia americana, após a crise de 2007/2008.
Quem viver verá.


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