Crivella festeja vitória em Bangu…


…no Rio suburbano de Nelson Rodrigues que esquerda nega

ARTIGO DA SEMANA

Rio, zonas norte e oeste que “as esquerdas” negam

Vitor Hugo Soares

Passado o bafafá da campanha eleitoral e da votação; contados os votos e sacramentados os resultados, do segundo turno das eleições municipais, o incrível outubro de 2016 foi embora, para nunca mais. É hora inevitável dos balanços, das análises de cada lado: de contar e cantar os feitos dos vencedores. E escutar, com a paciência possível, o choro de lágrimas de esguicho (a expressão é de Nelson Rodrigues) e as lamúrias dos derrotados.

No caso especial do Rio de Janeiro – o universo mais rico e emblemático da refrega de domingo passado no Brasil – o desfecho foi a paulada do bispo Marcelo Crivella (assim ele sempre foi chamado na Bahia, ponto de partida deste artigo semanal e onde o missionário da Igreja Universal deu passos relevantes no começo de sua trajetória política). É recomendável um aprendizado, tipo “intensivão”, sobre as zonas norte e oeste da Cidade Maravilhosa.

No foco do curso, uma especialização em Bangu, região escolhida pelo senador evangélico do PRB e prefeito eleito, da cidade tambor de ressonância mundial do País, para fazer a sua festa da vitória. No discurso, ele exaltou os católicos que “contribuíram decisivamente para o êxito da nossa campanha”. E rezou, em seguida, um Pai Nosso, enquanto Marcelo Freixo e suas “esquerdas reunidas” se lamuriavam e blasfemavam, na Cinelândia, contra tudo e contra todos (ou quase), depois da derrota traumatizante.

No meio da “massa”, ao pé do bar “Amarelinho”, – das históricas batalhas verbais e etílicas dos intelectuais de esquerda, dos Anos 70, (e o autor destas linhas não se exclui ao lembrar), – uma fauna política e cultural variada: desde simples militantes, executores das tarefas mais pesadas e arriscadas, até pensadores da moda, jornalistas e artistas (boa parte órfãos da Lei Rouanet), deslocados de suas bases, em várias estados, para contribuir na campanha do candidato de PSOL. Mal (ou bem?) comparando, lembrava o tempo do CPC ou de antigos congressos e encontros estudantis da UNE. O clima pesaroso e o ambiente nostálgico, que vez em quando se abatia sobre a manifestação, parecia dar razão a Chico Buarque (um dos pilares da candidatura de Freixo), nos versos de um de seus sambas mais famosos: “ninguém volta ao que acabou”.

Observo tudo, anoto alguns pontos que julgo essenciais, e recordo do começo dos anos 70, quando, na chefia da redação da sucursal do Jornal do Brasil, em Salvador, iniciei minhas idas mais freqüentes ao Rio. Então, o JB (bem antes de desandar para o triste fim, o memorável diário impresso de prestígio nacional) já ocupava a sua babilônica sede, na Avenida Brasil, 500, na altura do bairro de São Cristóvão, quase na entrada da ponte Rio – Niterói. Na margem da grande veia viária que atravessa o coração da zona norte e impressionava, em seu imenso e diversificado cenário de contrastes, no tempo da ditadura e do chamado “milagre brasileiro” do ministro Delfim Neto.

De vez em quando, ia participar das reuniões para elaborar e discutir pautas das coberturas de grandes eventos nacionais (eleições, por exemplo) ou, mais tarde, para fazer parte do grupo profissional formado, na fase preparatória, para instalação do projeto da Rádio Jornal do Brasil-FM-Salvador. Experiência, na época, que resultou na virada histórica do rádio jornalismo que então se fazia na Bahia. A cada nova viagem, dona Jandira, minha saudosa antenada mãe, recomendava com seu jeito especial de pedir mandando: “sei que não é fácil, mas se sobrar um tempinho livre vá até Vaz Lobo visitar a sua tia Josélia”. Queria notícias da irmã dela, que lá morava desde que casou e saiu de Macururé; município baiano na região do Polígono da Seca.

Garantia a visita, sempre, antes de pegar o avião para desembarcar no Rio. Às vezes não dava para cumprir o prometido. Outras, no entanto, com informações preciosas, sobre o percurso, dadas pelo inesquecível amigo Tuna Espinheira, que fazia cinema por lá, encarava o desafio: saía do Leme Pálace (hotel localizado na praia cinematográfica, onde o JB hospedava seus profissionais e convidados, no tempo das vacas gordas).

Pegava um ônibus na Praça XV e atravessava a cidade inteira. Estação por estação ­– às vezes contemplando o trem do subúrbio, que saia da Central do Brasil e corria pelos trilhos em paralelo com o coletivo em que eu viajava – até chegar na Praça Vaz Lobo, a uns 300 metros de onde morava minha tia: território dos sonhos, da vida real suburbana carioca e das paixões desabaladas de sua gente única e surpreendente. Que eu já conhecia de “fio a pavio”, através dos livros e crônicas jornalísticas magistrais de Nelson Rodrigues (menino em Vaz Lobo ao chegar ao Rio de seu Pernambuco natal), autor de minha voraz predileção desde a adolescência.

Feliz da vida, no retorno à Cidade da Bahia, trazia as notícias pedidas por minha mãe, e muito mais do aprendizado humano e político daquelas visitas ao subúrbio do Rio. Realidade ainda candente, apesar das transformações do tempo, que os “intelectuais das esquerdas” teimam em não enxergar. “Falamos para nós mesmos”, reconhece Freixo, na Veja, depois da tunda do bispo Crivella, que falou para o Rio inteiro (revelam as urnas), principalmente para a cidade submersa das zonas norte e oeste. De Vaz Lobo a Bangu.

O Rio que a professora E PESQUISADORA Ângela Maria Dias capta magnificamente e em plenitude em seu estudo “Nelson Rodrigues e o Rio de Janeiro: memórias de um passional”.

“Como se sabe, qualquer rua tem a diversidade de um elenco de circo. Há de tudo nos seus portões janelas, quartos, salas, alcovas e varandas. Assim era a rua Alegre. Tinha adúlteras, suicidas, funcionários, arquitetos, santos e canalhas. Como se não bastassem os já citados, morava lá, também, um bandeirinha de futebol”. Perfeita parábola do subúrbio carioca, na citação de Nelson, feita pela professora em seu trabalho.

Enquanto não aprender a lição do Rio de Nelson Rodrigues nas urnas, Freixo e seus neo seguidores (boa parte desertores do barco petista de Lula e Dilma, que afunda a olhos vistos), seguirão apanhando. De Crivella e outros. A conferir.

Nelson Rodrigues para todos!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor­soares1@terra.com.br

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Comentários

luís augusto on 5 novembro, 2016 at 15:11 #

Caro Vítor, emocionante essa memória. mas fria e cortante no que diz respeito à perda do trem por nossa esquerda – nossa, no caso, minha, sua e de tantos mais.


Lucia Jacobina on 5 novembro, 2016 at 18:21 #

Com memória e lucidez você construiu sua louvação ao irreverente eleitorado carioca, invocou seu intérprete mais fiel e celebrou o Rio que ao lado de Buenos Aires parecem ser as duas urbes latinoamericanas suas preferidas. Parabéns, Vitor, pela crônica!


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