Temer reunido com Lúcia e Renan:bombeiro.

ARTIGO DA SEMANA

Renan – o piromaníaco – o bombeiro Temer, e o incêndio

Vitor Hugo Soares

O outubro incendiário da política brasileira, em 2016, se aproxima do fim, enquanto o jornalista observa, em retrospectiva, imagens da viagem do presidente Michel Temer e da primeira dama Marcela à Índia e ao Japão, de retorno abreviada em quase 12 horas. Situação de dar pena (ou fazer sorrir, a depender do ponto de vista e humor do observador) ver o mandatário da vez, no Palácio do Planalto, forçado a retornar “em cima do rastro”, como se diz nas barrancas do São Francisco, o rio da minha aldeia. Praticamente sem ter tempo de gozar das delícias da parte final dos périplos oficiais do tipo. No caso, do outro lado do mundo, que o presidente deixou às carreiras para vir descascar novos pepinos neste incorrigível pedaço do lado de baixo do Equador.

De imediato, veio acompanhar, de perto, desdobramentos da prisão de Eduardo Cunha, o poderoso ex- presidente da Câmara dos Deputados, envolvido na Operação Lava Jato, apanhado na capital do país pela PF, e levado ao encontro do juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Em menos de uma semana, mal (ou bem?) comparando, Temer parece bombeiro em “plantão de sobreaviso”, que faz das tripas coração na tentativa de apagar o grave fogaréu institucional que o aloprado presidente do Senado, Renan Calheiros, fez grassar em seus domínios. Perturbado, ainda mais, desde a passagem da PF na Operação Métis, braço da Lava Jato, que apavora 7 em cada 10 figurões de Brasília.

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavaski, no meio do furdunço geral, correu na frente e, na quinta-feira, suspendeu liminarmente a operação da PF nos domínios do Senado e redondezas, para posterior decisão do pleno do STF. Jogo rápido, mas de resultados duvidosos e imprevisíveis, apesar dos festejos e fogos soltados, apressadamente, pelo senador alagoano do PMDB, ex-amigo do peito e escudeiro de Collor, depois de Lula e Dilma, e agora fiel aliado e seguidor do governo Temer.

Mas o estrago já está feito, revelam bastidores de fontes quentíssimas da corte. A PF, mais ágil que Teori em sua decisão monocrática, já havia descoberto segredos cabeludos e impensáveis, ao periciar as maletas de varreduras de grampos apreendidas .”Sabe o que aconteceu no submundo do Congresso Nacional”, adianta a bem informada coluna “Esplanada”, da Folha. A conferir.

Na terra, em volta do Lago Paranoá, e no ar do Planalto Central do Brasil circulam outros sinais claros de que o cerco se fecha sobre núcleos estratégicos e sensíveis do poder. As cenas de nervosismo e estresse explícitas (de pânico mesmo, em alguns casos), puxadas pelo descontrole do presidente do Congresso, reproduzem situações muito parecidas com as do filme “Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”: cult italiano do melhor cinema de suspense político dos anos 70.

O medo atravessa Brasília – sob efeito de Rivotril, em doses cavalares – com reflexos pelo país inteiro (ou quase), como uma espécie de cometa carregado de dúvidas e poderosos personagens, sob suspeição, em sua larga cauda: de parlamentares no exercício do mandato a chefes e comandados da Polícia Parlamentar, apanhados com as suas maletas de aprendizes de arapongas (suspeitos de atrapalhar investigações determinadas pela justiça). Além de burocratas que se dizem “meros cumpridores de ordens”.

Penosa e preocupante é a situação, no todo, com notório jeito e sabor de tragicomédia brasileira. O riso fica por conta do detalhe. Do método para debelar o fogo, bolado pelos atuais conselheiros e alquimistas da corte: a panaceia antiga das fórmulas de conciliação que passam por cima de princípios. Em que praticamente tudo se arranja na base do “deixa disso”, do interesse próprio ou do tapinha nas costas. A receita é do tempo da vovó, mas até poderia dar certo mais uma vez. Desde que o problema fosse apenas passar uma borracha para apagar os malfeitos (e os rastros dos malfeitores) e fazer de conta que nada aconteceu.

Os insultos e atitudes erráticas e descabidas de Renan (que mal escondem a tentativa de ganhar no grito, de defesa preventiva, chantagem e ameaças graves a pessoas e instituições), não passariam de engraçada pantomima se a questão se resumisse a apenas dois dos três principais personagens, da crise em andamento e expansão: o piromaníaco presidente do Senado (a definição é do próprio Renan em sua fase pós-Métis), e o ministro da Justiça, Alexandre de Morais. Ambos notórios mordidos pela mosca da vaidade e do encantamento, delícias e delírios do mando e, principalmente, do prazer de se mostrarem poderosos.

Em casos assim, as vezes basta o tradicional “puxão de orelhas” ou o “remédio” utilizado durante décadas, no sertão nordestino, para corrigir menino que falava demais, (nem se pensava no politicamente correto): A ameaça de “passar babosa na língua”. Sábio e saudoso, Ulysses Guimarães também tinha recomendação capaz de superar situações desse quilate: “Política é conversa de adulto, não de moleque. É doloroso ter de repreender imaturos, com o convite latino: “Puer, sacer est lócus, extra migite”. Em língua crioula: Menino, o lugar é sagrado. Vá mijar lá fora.

O problema – e bota problema nisso – é que em uma das pontas do imbróglio está a ministra presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, que dá evidentes sinais de não estar disposta a participar de nenhum tipo de encenação, no enfrentamento da questão de sensíveis e explosivos contornos institucionais. A firme, sóbria e de pouca brincadeira, presidente do Supremo assumiu como agressão ao Judiciário, e a ela própria, o destempero do presidente do Senado, ao chamar de “juizeco” o magistrado que autorizou a Operação Métis.

Aparentemente decidida a não participar de conciliábulos, (para apagar o incêndio de Renan, quando o governo Temer dá sinais de precisar do incendiário, e de fazer concessões, para aprovar a reforma sobre controle de gastos), é hora de olhar ainda com mais atenção e interesse para a ministra Cármen Lúcia, e seus próximos movimentos e sinais, no vamos ver dos panos quentes dos bombeiros do Planalto. O resto é com o tempo, senhor da razão.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 29 outubro, 2016 at 7:59 #

Caro VHS

Anos passam, sábados se sucedem, este poeta cada dia mais distraído, o BP uma realidade que se confirma, o blogbardofontana, teve sua fase, sumiu, voltou, agora dedica-se apenas à poesia.

Carlos Alberto se despede, com ele minhas lembranças de futebol amarelecem, anos dourados os sessenta, anos tristes os setenta, o futebol se desfez, o mesmo com o velho e bravo rock, com a MPB, com o samba, com o teatro, cinema, com a tua Bahia, com o meu São Paulo, com nossa Minas, com aquele Rio que abraçamos.

Ulysses estava certo, só lhe restava o encantamento no mar. Não se luta contra a inércia, a conivência, a iniquidade, não se prega para indolentes.

Voltemos a 2007, na Jovem Pan, todas as manhãs, a cantiga: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”, em homenagem ao Renan, cujo traseiro tentava permanecer grudado à cadeira da presidência do senado. Nas manchetes o escândalo da amante e filho sustentados pela propina.

Que fizeram os senadores?

Espancaram a ética, como sempre, acordaram: – largue a presidência e nós salvamos teu mandato.
Afinal sustentar amante com dinheiro público é mal menor, até mesmo Simon, o impávido, símbolo da ética, custeava as passagens da namorada com verbas do senado federal. a desculpa do índio velho, pego em falso como piá de calças curtas, era que sua idade avançada, muito embora não impedisse o namoro, impossibilitava viagens sozinho.
E Renan sobreviveu, enquanto Garibaldi Alves estreava terno novo.

Renan volta, o PGR necessita ser reconduzido, os inquéritos dormitam até não mais poderem, a denúncia espera para ser aceita pelo STF.

A Operação Métis o espicaçou? O corporativismo o salva, ou a inércia covarde dos éticos de plantão, tal qual Cristovam que se cala, numa conveniente pose de avestruz.

A verdade é todos s entreolham assustados com a possibilidade das tais malas de contraespionagem começarem a falar. A delação digital destas malas pode desnudar as entranhas da instituição.

Fizeram uma vez em 2007, farão de novo, com a ajuda extra de Temer. Cármen se além de Lúcia, for lúcida, terá der exercitar maestria para escapar do visgo que verte dos palácios.


luiz alfredo motta fontana on 29 outubro, 2016 at 8:25 #

Mas, afinal que é Renan?

Alguém se arrisca?

O que é Renan afora o delírio de eleitores de Alagoas?


luiz alfredo motta fontana on 29 outubro, 2016 at 9:44 #

Quanto a Cármen:

-“Alguém deveria dizer a Cármen Lúcia que Renan a considera muito parecida com o personagem Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro de Chico Anysio.” (Josias de Souza)


Carlos Volney on 29 outubro, 2016 at 11:47 #

Tão brilhante quanto o artigo de mestre Vitor Hugo, o comentário do poeta Fontana, verdadeiramente transcendental. TIM TIM, porque hoje é sábado…


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