CRÔNICA

Bob Dylan, Renan e Renoir

Janio Ferreira Soares

Pelas ruas frias de Madrid, um clone de Fito Paez bebe um conhaque e traga um cigarro calmamente sentado numa esquina cheia de bares e pombos. Ao seu lado, uma garota com fisionomia andina e corpo de velocista jamaicana toma uma cerveja e bate a bota de camurça na calçada marcando o som vindo de seu fone verde-abacate que, pelo ritmo, imagino mais um Hip-Hop acelerado do que um Barry White maneiro.

Na praça quase vazia, crianças comem cheetos e bebem suco de caixinha, enquanto um mendigo deitado em direção à Meca faz um incrível malabarismo com uma latinha suspensa no ar, à espera do tilintar de moedas jogadas por comovidos turistas com pena de sua falsa performance.

Perto dali, duas meninas orientais aguardam o sinal abrir trocando beijinhos sob uma sombrinha que as ampara da chuva e, em seguida, entram numa livraria, onde um velho vinil de Bob Dylan gira pendurado num fio de nylon com seu cínico sorriso na capa, como se dissesse: “olha seus felas, não tô nem aí para o que acontece ao meu redor, muito menos para o que estão falando e escrevendo a meu respeito depois que me deram esse maldito Nobel, que, na boa, não vai acrescentar absolutamente nada aos acordes de minhas baladas ligeiras, tampouco aos dias que restam para o vento levar minhas cinzas e meu chapéu de aba larga”.

Roda o mundo, e nas quebradas do sertão alagoano centenas de casacas-de-couro protestam pelo fim da vaquejada pedindo apoio a Renan pai e Renan Filho. Nas redes sociais, o governador logo prestou solidariedade à causa dizendo que a mesma é um patrimônio cultural e blá, blá, blá. Já o garboso presidente do Senado, à semelhança de um velho boi manhoso, mugiu apenas o suficiente, preocupado que está em ruminar manjadas desculpas que possam livrá-lo de ser derrubado pelo rabo por um certo vaqueiro curitibano, dessa vez por impedir investigações oficiais nas baias de seu curral.

Ainda bem que os ipês de outubro já amarelam minha aldeia. Assim, ao menos, posso dizer: xô, Renan! Bem-vindo, Renoir!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, nas barrancas baianas do rio São Francisco

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