Moro em São Paulo antes da Sétia:
em defesa da magistratura…


…e James Stewart em “Anatomia de um Crime”

ARTIGO DA SEMANA

Alerta de Moro, terremoto em Brasília, e um filme

Vitor Hugo Soares

Antes de assentar a poeira do terremoto que varreu Brasília, a partir da prisão do ex manda chuva da Câmara, Eduardo Cunha, e sua condução para o cárcere em Curitiba, segue o Planalto em desassossego. São os repiques dos tremores: nesta sexta-feira, 21, áreas e figuras das sombras sob suspeitas e investigações no Congresso Nacional amanheceram sob o cerco da Polícia Federal empenhada na Operação Métis, com o objetivo de desarticular associação criminosa armada (formada por agentes da Polícia Legislativa), suspeita de tentar embaraçar as apurações da Lava Jato.

Pode parecer incrível aos olhos do mundo, mas está bem “nos conformes” (para usar uma típica expressão soteropolitana) dos padrões da atual crise política e moral que o País atravessa. Os fartos indícios criminosos de que policiais legislativos faziam varreduras em casas de parlamentares, para descobrir e eliminar escutas instaladas por ordem do Judiciário. De acordo com policial que fez delação premiada, três senadores ( Fernando Collor de Mello e Gleisi Hoffmann) e um ex-parlamentar (José Sarney, ex-presidente do Congresso) se “beneficiaram” com as ações de contra inteligência. Em círculos mais restritos e bem infor mados da política e do empresariado, as ações motivadoras da Métis ganharam uma denominação própria e especial: a “contra ofensiva de Renan”. De resultados ainda a conferir, com o andar da carruagem de fogo pelos cerrados do Planalto Central do Brasil.

Ouvidos moucos para o aviso contundente dado, através de atos e palavras, pelo juiz Sérgio Moro na semana por findar: na quarta-feira, com a efetivação da esperada prisão de Cunha e, no dia seguinte, com a palestra marcada pelo inconformismo e justa indignação (de magistrado íntegro, competente e cumpridor do dever), contra as manobras de ataques ao efetivo exercício da magistratura, mal escondidas no arremedo do plano de reformas defendidos pelo presidente do Senado, Renan Calheiros. http://app2.correiobraziliense.com.br/access/noticia_127983242361/554129/63/eq.gif

Não custa relembrar, principalmente aos que fazem ouvidos de mercador e tentam confrontar com ameaças o juiz condutor da Lava Jato. No concorrido ato realizado na sede da Justiça Federal, em Curitiba, Moro voltou a condenar o projeto de Renan Calheiros. E a reafirmar que ninguém é contra que autoridades que cometam abuso sejam responsabilizadas, desde que abusos tenham sido praticados. O condenável e preocupante, para o magistrado, é que o projeto de Renan representa, por sua abrangência.

– Corre-se o risco de se criar o que é chamado de crime de hermenêutica, punir o juiz por ele ter tomado uma decisão interpretando a lei. Alguém que eventualmente discorda, se esse projeto for aprovado, poderia em seguida propor ação penal contra o juiz, apenas intérprete da lei, como é uma exigência e uma garantia da magistratura e da sua atuação independente – afirmou Moro em sua aplaudida fala ao qualificado auditório.

Mais direto e contundente ainda, no ato, foi o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, porta-voz da Força-tarefa da Lava Jato, que acusou o projeto de ter como objetivo uma atitude espúria: “retomar as práticas de corrupção e fazer calar as investigações contra a corrupção no País. “O que está ocorrendo – no momento, é um abuso do poder de legislar”.

É inevitável para o jornalista e cinéfilo – no rastro dos fatos, imagens e palavras relevantes da semana – a recordação do enredo de um clássico do cinema: o filme “Anatomia de um Crime”, clássico do consagrado diretor Otto Preminger, que assinala, também, um dos mais extraordinários desempenhos do saudoso ator James Stewart. Apesar da larga distância no tempo que separa a obra de ficção do suspense criminal nos Estados Unidos, e a dramática realidade deste período temerário no Brasil.

Os críticos, em geral, sugerem a quem vai assistir o filme de Preminger, imaginar-se na pele de um dos 12 jurados que, no final, terá de dizer “inocente” ou “culpado”. É bom ficar atento e ligado na trama que corre na tela, porque os espectadores não recebem informações privilegiadas. O crime não aparece diante das câmeras em nenhum momento. É um daqueles magníficos “filmes de tribunais”, que todo verdadeiro amante do bom cinema sente saudades. Ficamos sabendo de um corpo cravejado de balas e de que um tenente fez os disparos.

“Anatomia de um crime coloca-nos diante do direito real, com todas as suas manipulações, cortinas de fumaça, incertezas. No centro de tudo, o ex-promotor Paul Biegler (James Stewart) que, segundo a análise de um dos críticos do filme, “abandonou sua carreira de sucesso e agora ocupa-se de coisas mais interessantes, como pescar, dedilhar um jazz ao piano (trilha fantástica de Duke Ellington), e a conversar com um velho amigo sobre Filosofia do Direito”. Mais que isso, não conto nem sob tortura.

Nem sobre Anatomia de Um Crime, nem sobre a devastadora passagem da Lava Jato esta semana por Brasília. Nem mesmo sobre o intrigante artigo assinado pelo ex-presidente Lula, na Folha de São Paulo ou, mais intrigante ainda, a entrevista do ex-governador e ex-ministro Jaques Wagner, na Tribuna da Bahia, sobre os caminhos e descaminhos do PT e seus agentes mais destacados, em mais de 13 anos de poder. Dois conteúdos que pedem análise mais detalhada, com lupa, se possível.Fica para depois.Ufa, que semana!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail; wlmailhtml:/compose?to=vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Humberto Rangel on 22 outubro, 2016 at 9:37 #

O Vitor Hugo dá show de forma e conteúdo. Excelente!


luiz alfredo motta fontana on 22 outubro, 2016 at 11:21 #

E o nome da serpente era Renan!

Moro e Renan?
Não é crível.
Moro só atingirá Renan se o Senado assim o desejar.
Renan sobrevive e impera, apesar da amante e da pensão movida a propina.
Negociou com um senado decadente, promiscuo, corporativista, a troca de seu mandato pela renúncia à presidência.
Voltou triunfante, eleito novamente por seus pares, sem que o inquérito inaugural sequer ousasse tornar-se denúncia.
Detém o poder de confirmar ou não a indicação de ministros do STF, da recondução do do PGR, entre outras funções.

Sintoma exemplar de seu domínio é o acovardamento dos senadores habitués das sessões não deliberativas na sexta-feira, não ousaram dar quorum minimo,, correram para casa, assombrados e temerosos taç qual comerciantes que cerram as portas quando algum traficante de peso atingido.

Renan e Moro?

O Senado já o poupou, o STF finge não ter notado o acúmulo de inquéritos, o PGR prefere duelar com Cunha.

Quanto ao filme, distancia-se a mais não ver da nossa realidade, o que se estupra aqui é a ingenuidade dos crédulos, o que se macula é a fé na isonomia, sobretudo a tênue isenção dos julgam os protegidos pela benesse do foro privilegiado.

Renan e Moro?

Precisaria antes, qual Lula, despir-se do exercício do poder.

Ao mais, Renan nunca age só, coube a um tucano, Flexa Ribeiro, na qualidade de Secretário da Mesa Diretora, a compra dos equipamentos de contraespionagem.


luiz alfredo motta fontana on 23 outubro, 2016 at 7:52 #

Nada como Josias para entender e falar de Renan!

———————-

“Temer alista seu governo na infantaria de Renan

Josias de Souza 23/10/2016 05:06

Às favas a lógica com o caso da Polícia Legislativa do Senado. Sob Renan Calheiros, montou-se nos porões do Poder Legislativo um departamento de bisbilhotagem. Com verba pública, adquiriram-se equipamentos de inteligência capazes de fazer e desfazer grampos e escutas ambientais. Às custas do contribuinte, policiais legislativos foram mobilizados para proteger senadores suspeitos de assaltar o Estado. Realizaram-se varreduras de escutas em gabinetes, residências funcionais e imóveis particulares —em Brasília e alhures. E Renan, em vez de ficar constrangido, está irritado.

Pilhado numa investigação de mostruário —nascida de uma delação, executada pela Polícia Federal, sob supervisão do Ministério Público Federal e com a anuência do Poder Judiciário—, o Senado reagiu com uma nota oficial assinada por seu presidente. Nela, Renan Calheiros defende as ações de quatro policiais legislativos presos e demarca o seu terreno: “As instituições, assim como o Senado Federal, devem guardar os limites de suas atribuições legais.” Beleza. Mas faltou responder: quem zelará pelo interesse público quando o Senado for utilizado como biombo para ilegalidades?

Depois de emitir a nota, Renan dedicou-se a uma de suas especialidades: a retaliação. Borrifou ameaças no ar. Fez saber ao Planalto que não gostou da entrevista na qual o ministro Alexandre Moraes (Justiça) justificou a operação montada para deter as extrapolações dos policiais legislativos. E voltou a brandir o projeto que pune os chamados abusos de autoridade. Renan faz dessa proposta uma espécie de espada multiuso. Ora espeta os procuradores da força-tarefa da Lava Jato ora cutuca Sergio Moro. Revela-se capaz de tudo, menos de um autoexame que o faça enxergar seus próprios abusos.

De repente, numa subversão da lógica, o Planalto deflagrou uma articulação para acalmar Renan. Coordenador político do governo, o ministro Geddel Vieira Lima tocou o telefone para o senador. O próprio Michel Temer adulou Renan com um telefonema. Antes, enquadrou o ministro da Justiça, convocando-o em pleno sábado para prestar informações sobre a operação em que a Polícia Federal, munida de cinco mandados judiciais de busca e apreensão e quatro ordens de prisão, recolheu equipamentos de espionagem do Senado e prendeu quatro policiais legislativos, entre eles o diretor da Polícia do Senado, Paulo Ivo Bosco Silva, homem de confiança de Renan.

Num par de telefonemas, o governo Michel Temer atravessou a Praça dos Três Poderes para se alistar na infantaria que, sob Renan Calheiros, é acusada de obstruir investigações que alvejam personagens como Fernando Collor, José Sarney, Edison Lobão Filho e Gleisi Hoffmann. O Planalto reforça seu alinhamento com Renan num instante em que a Lava Jato arromba o principal armário do imperador de Alagoas: a Transpetro.

O delator Felipe Rocha Parente, que se apresenta como entregador de propinas, revela aos investigadores os caminhos que a verba suja percorreu para migrar da subsidiária da Petrobras para os bolsos de pajés do PMDB. Estima-se que escoaram por esse duto pelo menos R$ 100 milhões em 12 anos. Desse total, Renam apropriou-se R$ 32 milhões, informou outro delator, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.

Compreende-se a irritação de Renan. Ele tem 32 milhões de motivos para espumar de raiva. Quem conhece o senador sabe: é nos instantes em que está for a de si que ele mostra o que tem por dentro. O que parece incompreensível é o esforço que o governo empreende para demonstar que é parte do problema. Não há governabilidade que justifique o erro político de reforçar a impressão de que Renan manda porque pode e o presidente da República obedece porque tem juízo. Dilma Rousseff mantinha com Lula um relacionamento do mesmo tipo. Deu em Michel Temer.”


Carlos Volney on 24 outubro, 2016 at 13:11 #

Ausente há três semanas, por viagem, permito-me um comentário, aínda que pareça tardio o objeto de minha intervenção.
O Brasil assistiu, ao vivo e em cores, estarrecido, o presidente do Senado, o “inefável” Renan Calheiros, quando da votação do impedimento de Dilma, cobrar, aos berros, à senadora Gleisi Hoffmann gratidão por ter impedido o indiciamento dela em processo que corre no STF, acontecimento ocorrido bem recentemente conforme afirmou.
Quer dizer, Renan deixa inequivocamente claro que o STF se subordina a sua vontade – mesmo sendo ele também réu em vários processos que lá tramitam – no momento de indiciar ou não alguém.
Pois bem, ou mal, o estarrecedor é que a grande imprensa em nenhum momento questionou tal fato e o STF sequer se pronunciou sobre ele.
Eta Pindorama!!!!!!!


vitor on 24 outubro, 2016 at 14:58 #

Grande Volney!!! Bem lembrado, muito bem lembrado! A esperança é que o juiz Moro não deixe passar em vão tudo isso. Retorno providencial o seu a este espaço, inclusive para o editor. Forte abraço.


luiz alfredo motta fontana on 24 outubro, 2016 at 15:22 #

Caro Volney!

Renan paira sobre todos, não comete o erro de Cunha.

Cunha abespinhou-se contra o PGR, Renan, ao menos publicamente, operou pela recondução do mesmo.

Quanto ao Moro, embora o VHS insista em lhe atribuir responsabilidades, o tal foro privilegiado impede qualquer ação.

Renan se diverte em arena própria. Cabe ao PGR reconduzido, e ao STF as medidas que a nação espera. Renan, sequer foi denunciado pelo escabroso affair da amante e seu filho pródigo, custeados, ao que noticiou a grande imprensa, pelos caminhos erráticos da propina.

Insisto, Moro nada tem com isto, a responsabilidade é toda do STF, o mesmo que em tempos barbosianos deixou Lula de lado. Este mesmo Lula que está agora ao alcance de Curitiba.

Repito e insisto:

Renan e Moro?

Precisaria antes, qual Lula, despir-se do exercício do poder.


luiz alfredo motta fontana on 24 outubro, 2016 at 19:06 #

Renan investe desabrido

Veja Cristiana Lobo no twiter:

Cristiana Lôbo ?@cristilobo 1 h
Renan comenta ação Métis da PF no Senado e chama juiz que autorizou de “juizeco de 1a. instância”e ministro da Justiça de chefete de polícia


vitor on 24 outubro, 2016 at 21:03 #

A fera parece acuada, poeta. Na entrevista, sinais evidentes de que o desespero começa a bater na porta de Renan. E Moro mandou novo recado, hoje, de Curitiba. O STF e o Congresso não vão poder ficar na moita. Terão que se mover.


Taciano Lemos de Carvalho on 24 outubro, 2016 at 22:48 #

Renan era para estar preso desde os tempos que usou dinheiro de empreiteira para pagar a sua amante.

Gente deste tipo, quanto mais cedo no xadrez menos mal faz ao país.


luiz alfredo motta fontana on 25 outubro, 2016 at 7:07 #

Caro VHS, Nani ilustra bem a cena:

http://www.chargeonline.com.br/php/charges/nani.jpg


Carlos Volney on 25 outubro, 2016 at 22:22 #

Retorno, novamente em descompasso de tempo, só para agradecer a deferência do grande Vitor Hugo, retribuíndo o abraço. Minha saudação também ao nosso poeta Fontana.


Lucia Jacobina on 26 outubro, 2016 at 14:28 #

Caro Vitor,

Embora com atraso, não poderia deixar de elogiar sua primorosa análise política dos fatos da semana passada e a referência a “Anatomia de um Crime”. Realmente, a comparação é perfeita e a imagem poderosa. Afinal, o bom jornalista não deve ter apenas perspicácia para a notícia. Melhor ainda será se ele a enriquecer com sua capacidade intelectual e sensibilidade e colocar o leitor para pensar, eis o que você provoca com sua maneira de expor os fatos.
Após a longa entrevista de Wagner à Tribuna, desnudado ficou o adversário que desbancou a malvadeza na Bahia.
E já que o líder petista gosta de invocar o holocausto em seu benefício, gostaria de fazer um paralelo entre a Bahia e o que vi no Memorial da 2ª Guerra Mundial existente em Riga, capital da Letônia: fotos nas quais são mostradas mulheres e crianças recebendo com cestos de flores as tropas nazistas, satisfeitos pensando na libertação do algoz russo, para depois verificarem o logro quando começaram as perseguições e as execuções pelos carrascos alemães, até voltarem a ser dominados pelo Exército Vermelho.
Mutatis mutandis, vejo a situação que está se desenhando para os baianos diante de suas opções políticas para 2018.
Cresce o papel da imprensa em veicular a notícia e revelar as pessoas primárias ou espertas, através de suas próprias palavras. A nível individual essa experiência já foi feita com Freud pela psicanálise.


Lucia Jacobina on 27 outubro, 2016 at 7:40 #

Vitor,
Estive consultando minhas anotações de viagens e verifiquei que citei equivocadamente o Museu da Ocupação da Letônia como Memorial da 2ª Grande Guerra. Como lá estive em junho de 2009, a memória me pregou essa peça.


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