Cunha embarca para prisão em Curitiba

DO PORTAL G1

Bibiana Dionísio, Thais Kaniak, José Vianna, Malu Mazza e Marcelo Cosme

Do G1 PR, da RPC e da GloboNews

O ex-presidente da Câmara e deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi preso nesta quarta-feira (19), em Brasília. A prisão dele é preventiva, ou seja, por tempo indeterminado. A decisão foi do juiz Sérgio Moro no processo em que Cunha é acusado de receber propina de contrato de exploração de Petróleo no Benin, na África, e de usar contas na Suíça para lavar o dinheiro.

O ex-deputado embarcou às 15h em um avião da Polícia Federal (PF) no aeroporto de Brasília com destino a Curitiba, onde ficará preso. (veja no vídeo acima)

A previsão é de que Cunha chegue à capital do Paraná por volta das 17h. No despacho que determinou a prisão, Moro diz que o poder de Cunha para obstruir a Lava Jato “não se esvaziou”. O juiz havia autorizado a PF a entrar na casa de Cunha no Rio de Janeiro para prendê-lo. (leia a íntegra da decisão de Moro)

Moro é responsável pelas ações da operação Lava Jato na 1ª instância. Após Cunha perder o foro privilegiado com a cassação do mandato, ocorrida em setembro, o juiz retomou na quinta-feira (13) o processo que corria no Supremo Tribunal Federal (STF). Nesta segunda (17), Moro intimou Cunha e deu 10 dias para que os advogados protocolassem defesa prévia.

Em nota divulgada por seus advogados, Cunha afimou que a decisão de Moro que resultou na prisão é “absurda” e “sem nenhuma motivação”.

De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), em liberdade, Cunha representa risco à instrução do processo e à ordem pública. Além disso, os procuradores argumentaram que “há possibilidade concreta de fuga em virtude da disponibilidade de recursos ocultos no exterior” e da dupla nacionalidade. Cunha tem passaporte italiano e teria, segundo o MPF, patrimônio oculto de cerca de US$ 13 milhões que podem estar em contas no exterior.

Para embasar o pedido de prisão do ex-presidente da Câmarax, a força-tarefa da Operação Lava Jato listou atitudes, que conforme os procuradores, foram adotadas por Cunha para atrapalhar as investigações.

Entre elas, a convocação pela CPI da Petrobras da advogada Beatriz Catta Preta, que atuou como defensora do lobista e colaborador da Lava Jato Julio Camargo, responsável pelo depoimento que acusou Cunha de ter recebido propina da Petrobras.

Atitudes de Cunha para atrapalhar a Lava Jato, segundo o MPF:

– Requerimentos no TCU e à Câmara sobre a empresa Mitsui para forçar o lobista Julio Camargo a pagar propina;
– Requerimentos contra o grupo Schahin, cujos acionistas se tratavam de inimigos pessoais do ex-deputado e do seu operador, Lucio Bolonha Funaro;
– Convocação pela CPI da Petrobras da advogada Beatriz Catta Preta, que atuou como defensora do lobista Julio Camargo, responsável pelo depoimento que acusou Cunha de ter recebido propina da Petrobras;
– Contratação da KROLL pela CPI da Petrobras para tentar tirar a credibilidade de colaboradores da Operação Lava Jato;
– Pedido de quebra de sigilo de parentes de Alberto Youssef, o primeiro colaborador a delatar Eduardo Cunha;
– Apresentação de projeto de lei que prevê que colaboradores não podem corrigir seus depoimentos, como fez o lobista Julio Camargo, ao delatar Eduardo Cunha (refere-se ao projeto de lei de autoria do deputado Heráclito Fortes (PSB-PI), um dos membros da tropa de choque que o ex-deputado federal Eduardo Cunha liderava);
– Demissão do servidor de informática da Câmara que forneceu provas que evidenciaram que os requerimentos para pressionar a empresa Mitsui foram elaborados por Cunha, e não pela então deputada “laranja” Solange Almeida;
– Suspeita do recebimento de vantagem indevida por emendas para bancos e empreiteiras;
– Manobras junto a aliados no Conselho de Ética para enterrar o processo que pede a cassação do deputado;
– Ameaças relatadas pelo ex-relator do Conselho de Ética, Fausto Pinato (PRB-SP);
– Relato de oferta de propina a Pinatto, ex-relator do processo de Cunha no Conselho de Ética.

Falso empréstimo
Um dos tópicos do pedido de prisão fala sobre um empréstimo que, segundo o MPF, teria sido fraudado entre Claudia Cruz, esposa de Eduardo Cunha, e Francisco Oliveira da Silva, presidente da Igreja Evangélica Cristo.

De acordo com os procuradores, Claudia Cruz declarou empréstimo de R$ 250 mil em 2008. Entretanto, a partir de quebra de sigilo bancários de ambos, não foram identificados relacionamento financeiro.
Brasília – O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, embarca para Curitiba após ser preso pela Polícia Federa (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)
O ex-deputado Eduardo Cunha embarca para Curitiba após ser preso pela PF (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

“Ao que tudo indica, Francisco Oliveira da Silva jamais emprestou dinheiro a Claudia Cruz, sendo lógico que a simulação do contrato de mútuo serviu apenas como uma fraude para dar lastro para o ingresso de recursos espúrios provenientes dos crimes praticados por Eduardo Cunha no patrimônio da investigada”.

Os procuradores mencionam ainda empresas, offshores e trusts em nome de Cunha no exterior. Para uma das offshores, o ex-presidente da Câmara declarou patrimônio maior do que o informado à Receita Federal.

“O patrimônio declarado do denunciado Eduardo Cunha para a instituição financeira é de US$ 16 milhões, bem acima dos valores declarados no Brasil, de pouco mais de R$ 1,5 milhão de reais, que aparece nas suas declarações de imposto de renda”, diz o MPF.

A partir das informações prestadas por Cunha às instituições financeiras, o MPF afirma que Cunha era “beneficial owner” – a pessoa que contribui para ou exercita controle sobre a conta. “Diversos documentos demonstram que Eduardo Cunha é o beneficiário efetivo e final (beneficial owner) de todos os ativos depositados na contra Triumph”.

Segundo os procuradores, o casamento de Danielle Ditz da Cunha – filha de Cunha – foi pago com dinheiro de corrupção. O casamento foi realizado no dia 25 de junho de 2011, no Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro.

“Dessa forma, embora a questão ainda mereça maior aprofundamento, resta claro que o dinheiro usado para o pagamento do casamento de Danielle Ditz da Cunha era proveniente de crimes contra a administração pública praticados pelo seu pai, o ex-deputado federal Eduardo Cunha”.

Além da prisão, o MPF pediu a apreensão de oito veículos:
– Porsche Cayenne modelo 2013
– Porsche Cayenne modelo 2006/2006
– Land Rover Freelander modelo 2007/2008
– Hyundai Tucson modelo 2008/2009
– Volkswagen Tiguan modelo 2010/2011
– Volkswagen Passat Variant modelo 2003/2004
– Ford Edge modelo 2013
– Ford Fusion 2013

Cláudia Cruz, mulher de Cunha, já responde por lavagem de dinheiro e evasão de divisas na Justiça Federal do Paraná. De acordo com as investigações, Cláudia Cruz foi favorecida, por meio de contas na Suíça, de parte de valores de propina de cerca de US$ 1,5 milhão recebida pelo marido.

Íntegra da nota de Cunha sobre a prisão:

“Tendo em vista o mandado de prisão preventiva decretado hoje pela 13ª vara federal do Paraná, tenho a declarar o que se segue:

Trata-se de uma decisão absurda, sem nenhuma motivação e utilizando-se dos argumentos de uma ação cautelar extinta pelo Supremo Tribunal Federal.

A referida ação cautelar do Supremo, que pedia minha prisão preventiva, foi extinta e o juiz, nos fundamentos da decretação de prisão, utiliza os fundamentos dessa ação cautelar, bem como de fatos atinentes à outros inquéritos que não estão sob sua jurisdição, não sendo ele juiz competente para deliberar.

Meus advogados tomarão as medidas cabíveis para enfrentar essa absurda decisão.”

Esfera civil
Na Justiça Federal do Paraná, Cunha já responde a uma ação civil de improbidade administrativa, também movida no âmbito da Operação Lava Jato, que alega a formulação de um esquema entre os réus visando o recebimento de vantagem ilícita proveniente de contratos da Petrobras. A ação corre na 6ª Vara Cível.

Além de Cunha, são requeridos na ação civil a mulher dele, o ex-diretor da estatal Jorge Luiz Zelada, o operador João Henriques e o empresário Idalécio Oliveira.

Os advogados de Cláudia Cruz pediram, no dia 11 de outubro, que a Justiça rejeite ação civil pública de improbidade administrativa a que ela responde. O pedido da defesa diz respeito especificamente a ela.

Vai para Marcia Maria, aniversariante deste 19 de outubro, esta linda canção tocada pelo notável pianista e saudoso maestro cubano Rubén González, em insuperável performance que nos remete ao premiado documentário sobre o grupo Buena Vista Social Club.
Uma das melodias prediletas de sempre deste editor do BP (que também veio ao mundo em um 19 de outubro), sei que é, igualmente, integrante da seleta lista das canções preferidas de Marcia .
Cunhada, amiga do peito, e sempre generosa parceira de muitas lutas e travessias , inclusive a deste site blog.
imagino que “Melodia del Rio” tem o poderoso condão de agradar e tocar fundamento coração e sentimentos de librianos.
Para você, Marcita. Para nós os librianos de 19 de outubro (incluido o poeta e compositor Vinícius de Moraes. E para todos os ouvintes e leitores do Bahia em Pauta.

( Vitor Hugo Soares )


OPINIÃO

Juiz é a única face pública de Sérgio Moro

Ninguém disse que o juiz Sérgio Moro é um “democrata”, este entendido como o cidadão que, participando ou não da vida política, qualquer que seja seu papel social, esteja aberto a ouvir opiniões divergentes e aceitá-las ou não.

Por isso, não se explica o esperneio, já deflagrado nacionalmente e repicado por aqui, de setores que pretendem, de alguma forma, desqualificar o magistrado curitibano porque quis “censurar” a imprensa no affair com o físico Rogério Cezar Cerqueira Leite.

Caso venha Moro a candidatar-se a qualquer coisa, até a vereador, que sejam examinadas e discutidas as credenciais técnicas, políticas, morais e de caráter de que disponha para tanto – e que cada eleitor vote como achar melhor.

No momento, porém, o que interessa ao público sobre o juiz da Lava-Jato é se cumpre sua elevada missão com competência, consciência e independência, resistindo mesmo ao monitoramento a lupa que sofre de instâncias superiores.

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Crivella x Freixo:tempo quente no debate

DEU NA VEJA (ONLINE)

Candidatos à prefeitura do Rio, Marcelo Freixo (PSOL) e Marcelo Crivella (PRB) deixaram de lado a política de não agressão e partiram para o ataque no penúltimo debate antes da eleição, transmitido nesta terça-feira (18) por VEJA, RedeTV, Portal UOL e Facebook. Quando estiveram frente a frente no encontro anterior, na Band, os dois evitaram os embates. O candidato do PSOL abriu o debate questionando o adversário sobre as declarações, presentes em um livro de sua autoria, de que católicos praticam “doutrinas demoníacas”. “Como alguém com tanto ódio pode querer ser prefeito do Rio?”, perguntou.

Crivella respondeu que o livro, ‘Evangelizando a África’ foi escrito há 25 anos: “A igreja Católica da África não era a que existe aqui. Vivi um ambiente de guerra, feitiçaria e miséria”, disse. Depois, acusou Freixo de apoiar Black Blocs. “Ódio existe na militância do PSOL, através dos Black Blocs, inclusive com sangue nas mãos de cada um de vocês”, disse Crivella, referindo-se à morte do cinegrafista Santiago Andrade, em 2013. Freixo respondeu que não tem vínculo com Black Blocs e insistiu na vinculação do adversário com a igreja Universal, fundada por seu tio, o bispo Edir Macedo.

Freixo também fez questão de lembrar da presença de Rodrigo Bethlem, acusado de desviar dinheiro da prefeitura na gestão de Eduardo Paes, na campanha do adversário. Ele questionou o apoio declarado na internet, de Carminha Jerominho, filha do vereador preso em 2012 acusado de integrar a milícia: “Recentemente, um grupo miliciano foi para a internet abertamente te apoiar e você disse que o apoio era bem-vindo. Por que a milícia está apoiando você?”. Crivella, visivelmente irritado, respondeu: “É impressionante o que você é capaz de fazer para ter o poder. Não vou descer o nível e dizer que você é canalha, safado, vagabundo. Não vou fazer isso”.

No segundo bloco, com perguntas de jornalistas, Freixo teve que se explicar sobre a polêmica envolvendo militantes do PSOL, que chamaram de genocida o ex-primeiro ministro israelense Shimon Perez. “Esse texto não é do PSOL, mas de um grupo do qual eu discordo”, disse o candidato. Já Crivella foi questionado sobre o apoio de Anthony Garotinho (PR) em sua campanha: “De novo essa lenga-lenga. Vou repetir, o Garotinho não terá espaço no meu governo”, repetiu, impaciente, três vezes.

O clima atenuou nos dois últimos blocos, quando os candidatos responderam perguntas de eleitores sobre questões relativas à cidade. Freixo e Crivella falaram de saúde, educação, mobilidade, segurança e geração de empregos. O próximo e último encontro entre os candidatos está marcado para o dia 28, na TV Globo.

Do blog O Antagonista

A EMPREITADA CRIMINOSA DE DELÚBIO E BUMLAI

Na denúncia apresentada há pouco, o MPF conta a história do empréstimo fraudulento de R$ 12 milhões que José Carlos Bumlai obteve junto ao Banco Schahin a pedido da cúpula do PT. A dívida nunca foi paga, ou melhor, foi paga com contratos bilionários do grupo Schahin na Petrobras.

Segundo os procuradores, “a empreitada criminosa contou ainda com a participação do ex-tesoureiro da agremiação partidária Delubio Soares, que se reuniu pessoalmente com os acionistas do banco Schahin para viabilizar a obtenção dos recursos.”

Parte do dinheiro foi para Ronan Maria Pinto (aquele do caso Celso Daniel) e outra parte foi para a empresa dos publicitários Giovani Favieri e Armando Peralta, que prestaram serviços à campanha do Dr Hélio, do PDT.

Vejam o que diz o MPF:

“José Carlos Bumlai, Giovane Favieri, Armando Peralta e Sandro Tordin se reuniram no segundo semestre de 2004 com o objetivo de fechar a obtenção de um empréstimo fraudulento de R$ 12 milhões que seria concedido pelo Banco Schahin a Bumlai, cujo objetivo na realidade era repassar a terceiros para o pagamento de dívidas do Partido dos Trabalhadores.

Após a liberação do empréstimo, Bumlai começou a repassar os valores aos beneficiários finais por intermédio de operações que tinham por objeto ocultar a origem ilícita do dinheiro. Para isso, contou com a cooperação de Natalino Bertin, que emprestou as contas interpostas do Frigorifico Bertin para dificultar o rastreamento do destino final do dinheiro, tendo em conta que esta empresa movimentava elevadas quantias em negócios lícitos.

Do Frigorífico Bertin, metade dos valores seguiram para a Remar Agenciamento e Assessoria Ltda, de Oswaldo Rodrigues Vieira Filho, empresário do Rio de Janeiro que se incumbiu de direcionar o valor ao empresário Ronan Maria Pinto, em fatos já denunciados pela força-tarefa em abril de 2016.

Outra parcela dos valores foi direcionada pelo Frigorífico Bertin a credores do Partido dos Trabalhadores. Nesse contexto, a empresa Núcleo de Desenvolvimento de Comunicação (NDEC), pertencente a Peralta e Favieri, recebeu R$ 3.405.000,00. O pagamento foi como contraprestação pelos serviços prestados a Helio de Oliveira Santos (PDT), mais conhecido como Dr. HELIO, no segundo turno da campanha a prefeito de Campinas em 2004.

Dr Helio foi o candidato apoiado pelo Partido dos Trabalhadores após a derrota do candidato oficial do partido, Eustáquio Luciano Zica, no primeiro turno. Houve ainda a destinação de R$ 500 mil para pagamento da empresa Omny Par Empreendimentos Consultoria e Participações, que era credora dos publicitários Giovane Favieri e Armando Peralta.”

out
19
Posted on 19-10-2016
Filed Under (Artigos) by vitor on 19-10-2016


Amarildo, na Gazeta On Line (ES)


DO EL PAÍS

Marc Bassets

Washington

Se só os homens votassem nos Estados Unidos, como ocorria até 1920, o republicano Donald Trump seria o próximo presidente. A vitória seria esmagadora e inapelável. Por outro lado, se só as mulheres votassem Hillary Clinton ganharia com facilidade. A divisão por sexos na hora de votar não é nova, mas se acentuou na campanha para a eleição presidencial de 8 de novembro, a primeira em que uma mulher está em condições reais de chegar à Casa Branca. As acusações contra Trump por supostas agressões sexuais, junto com seus comentários machistas, prejudicaram suas aspirações.

A sucessão de depoimentos sobre o comportamento machista e possivelmente delitivo de Trump acompanhou, na última semana, uma nova leva de pesquisas que refletem uma vantagem cada vez mais sólida de Clinton. A democrata supera o republicano por 5,5 pontos percentuais, segundo a média elaborada pelo site Real Clear Politics. As pesquisas publicadas no domingo pelo The Washington Post e The Wall Street Journal confirmam a tendência.

Se Trump não ampliar seus apoios além da base de republicanos fiéis, será difícil que ganhe. É possível, como escreveu Nate Silver, o especialista em estatística que dirige o site 538, que “as mulheres estejam derrotando Donald Trump”.

Os institutos traçam dois países diferentes, o do voto masculino e o do voto feminino. Clinton abre uma vantagem média de 15 pontos sobre Trump entre as mulheres, quase o dobro da que o presidente Barack Obama teve sobre seu rival republicano Mitt Romney nas eleições presidenciais de 2012. Entre os homens, Trump alcança 5 pontos a mais que Clinton. Romney abriu sete sobre Obama.

“Sem alarde, quase em silêncio, a América se tornou feminocêntrica, e isto alcançou sua máxima expressão na primeira década do século XXI. Uma maioria não silenciosa de mulheres – de aposentadas e integrantes da geração baby boom às gerações X e Y – enfrentam o singular desafio de remodelar a nação à sua imagem, e com isso sacodem a cultura em seu âmago”, escreveram há uma década as estrategistas eleitorais Celinda Lake e Kellyanne Conway no livro What Women Really Want (O que realmente querem as mulheres). Conway é hoje o braço direito de Trump, e a realidade que ela descrevia no livro se tornou o principal problema do seu cotidiano.

Homens e mulheres votam diferente nas eleições presidenciais desde 1980, mas a vantagem de Clinton sobre Trump no voto feminino supera os precedentes e pode acabar sendo a chave do resultado em novembro. Se só as mulheres votassem, a democrata obteria 458 dos 538 votos eleitorais em jogo, e o republicano 80 (cada Estado tem um número determinado de votos eleitorais: quem obtém pelo menos 270 é eleito presidente).

Segundo a pesquisa do The Washington Post, Clinton supera Trump no importante segmento das mulheres brancas com diploma universitário, grupo que optou esmagadoramente por Romney há quatro anos. Que Trump continue sendo o favorito entre as mulheres brancas sem formação universitária é algo que revela uma divisão não só por gênero, mas também por classe social e nível educativo.

A divulgação de uma gravação de comentários machistas feitos por Trump há 11 anos e a avalanche de mulheres que relataram episódios de assédio sexual por parte do magnata agravam seu problema com o voto feminino. O machismo – e não as declarações contra os imigrantes hispânicos nem os planos para discriminar os muçulmanos – pode acabar sendo o muro contra o qual se chocam as suas ambições.

Os muçulmanos representam 1% da população dos Estados Unidos. Os hispânicos, 17%. As mulheres representam 53% dos eleitores e, em eleições presidenciais anteriores, alguns comentários desafortunados — muito mais suaves que os de Trump agora — custaram caro aos candidatos que os pronunciaram.

Há quatro anos Romney disse que, ao procurar pessoas para seu gabinete quando era governador de Massachusetts, apresentaram-lhe “pastas cheias de mulheres”. Referia-se às listas de candidatas. Houve um pequeno escândalo: parecia que as transformava em objeto. O incidente foi uma minúcia se comparado à gravação em que Trump alardeia sua capacidade de agarrar impunemente as genitálias das mulheres, uma frase que ele defende como típica fanfarronada de vestiário esportivo, mas que foi interpretada como incitação à agressão sexual.

A defesa do atual candidato republicano contra as mulheres que dizem ter sido abusadas por ele consistiu em denegri-las —inclusive no aspecto físico— e aludir a conspirações internacionais para destruir sua campanha e manipular as eleições.
Debate sobre o assédio

As palavras e supostos atos de Trump abriram uma discussão nacional, um daqueles debates que colocam o país no divã. Nos escritórios, nos programas de televisão, nas redes sociais se rompe um tabu e se começa a falar das situações cotidianas de hostilidade e abuso sexual.

Algo similar ocorreu com o racismo nos anos de Obama, quando os casos de violência policial contra negros trouxeram à luz a opressão em que vivem muitos afro-americanos e a situação de privilégio em que vivem os brancos.

Não é coincidência que isso tenha acontecido com o primeiro presidente negro na Casa Branca. Não é apesar de Obama, mas sim, em parte, devido a ele que os Estados Unidos discutem a persistência do racismo.

Com Obama, a ferida racial ficou exposta em carne viva. Com Trump é a ferida sexista que aparece sob os focos intensos da campanha eleitoral, e em toda sua crueldade.

Porque não foi Clinton, a primeira mulher nomeada por um grande partido, que suscitou este debate. Pelo contrário, contrasta o escasso entusiasmo ante a possibilidade de uma mulher na Casa Branca com a emoção que rodeou a vitória do primeiro negro em 2008.

Quem colocou o sexismo no centro da campanha eleitoral foi Trump, submetido há dez dias a uma bateria de acusações parecida com a que o ator Bill Cosby enfrentou há alguns meses. Cosby ainda não foi condenado mas o júri da opinião pública já o sentenciou. Algo similar pode acontecer com Trump.

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