ARTIGO/CINEMA

Francofonia, O Louvre sob Ocupação

Lucia Jacobina

Quem pensar que o culto da arte obedece a objetivos transcendentes, pode estar seriamente equivocado. Essa parece ser a premissa sobre a qual repousa o último filme de Alexander Sokurov, “Francofonia”, ganhador do Prêmio de Melhor Filme Europeu no Festival de Veneza 2015. Na abordagem sobre o Louvre, o diretor não está interessado no patrimônio artístico, mas em enfatizar o valor econômico ali representado e a forma como descreve ter ocorrido sua apropriação, por meio do saque, da pilhagem, do roubo, da guerra e da destruição.

Excelente argumento para explorar num filme, levando-se em consideração todos os tesouros expostos pelos museus espalhados pelo mundo inteiro que fizeram parte de civilizações hoje desaparecidas, como os mármores de Elgin, o Código de Hamurabi, a pedra da Roseta, o altar de Pérgamo, a porta de Ishtar, a Vênus de Milo, a Vitória de Samotrácia, o busto de Nefertiti, para citar alguns dentre tantos que repousam longe dos locais onde foram originalmente concebidos. E sobre os quais numerosas reivindicações têm sido feitas em vão pelas nações espoliadas aos governos de seus atuais detentores.

Mas é preciso reconhecer que a capacidade narrativa do diretor se perdeu inteiramente ao desenvolver o tema. Bem diferente da técnica utilizada em Arca Russa, cuja filmagem foi feita em um único plano-sequência, através do qual ele mostrou os suntuosos salões do Palácio de Inverno, hoje Hermitage, em São Petesburgo, com sua comitiva de aristocratas desfilando por entre vasos e colunas de malaquita, pórfiro e lápis-lázul, num cromatismo deslumbrante.

Sabe-se que Sokurov trabalha com a arte e a história em seus filmes, analisando sobretudo seus aspectos crítico e político. E sempre manejou sua câmara criando técnicas inovadoras. Contudo,a fragmentação das imagens em Francofonia não consegue contar a história, deixando o espectador confuso e perplexo. A forma de narrar remete inicialmente ao documentário, mas logo passa aos diálogos nos quais o diretor confronta os poucos personagens,inclusive ele próprio discorre sobre a fragilidade da arte, enquanto conversa com o comandante de navio que transporta uma carga num mar revolto; em seguida o formato da tela se reduz e a cor muda para sépia para descrever a visita do general nazista em sua cobiça para obter informações do responsável pelo museu; e, por último para inserir na cena um incompreensível Napoleão declarando ter feito a guerra com a única finalidade de reunir todo aquele acervo de telas e esculturas, enquanto uma Marianne recita em vão a divisa republicana: “Liberdade, igualdade, fraternidade”.

A começar pela impropriedade do título original, “Francofonia”, ao qual o tradutor brasileiro acrescentou “O Louvre sob Ocupação”, na tentativa talvez de melhor informar ao público, até comparar o tratamento dispensado pelo invasor nazista aos franceses e russos, Sokurov não conseguiu ser imparcial.

Os relatos sobre a guerra registram que a máquina nazista nada poupou em sua perversa destruição e com ela a riqueza dos países ocupados foi criminosamente saqueada e em muitos casos destruída, inclusive cidades e populações inteiras. A Alemanha sempre iludiu os adversários,oferecendo e logo em seguida rompendo os acordos.Dessa forma, a França pagou o preço por Vichy. Assim como a Rússia também pagou caro pela cobiça dos bolcheviques presos na armadilha de ter aceito a ajuda do capitalismo alemão para instaurar o regime socialista.

Lúcia Jacobina é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

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