ARTIGO DA SEMANA

Dylan, Nobel: um golpe na desesperança

Vitor Hugo Soares

“É a última hora do último dia do último ano feliz e sinto que um mundo desconhecido se aproxima”. (Bob Dylan, na letra da balada folk “Cross the Green Mountain”, da trilha sonora do filme “Gods and Generals” (Deuses e Generais).

Bob Dylan é Prêmio Nobel de Literatura. Às vésperas de atravessar o portal dos 72, neste outubro de geléia geral e desencontros no Brasil (salvo pelo futebol solidário, alegre e competitivo da seleção de Tite a caminho da Rússia), o jornalista pensa com os seus botões: é difícil imaginar algo mais delicioso e de tão reconfortante sabor de presente antecipado de aniversário. Principalmente em se tratando, como é o meu caso, de um antigo passageiro da nau dos insensatos dos anos 60/70, sobrevivente neste meado de primavera no Hemisfério Sul.
Direto ao fato motivador da sensação: abri o portal português “Eu Sou Jornalista”, pouco antes do meio dia em Salvador, na quinta-feira, 13, e dei de cara com a informação estampada na manchete do Diário de Notícias, de Lisboa: “Bob Dylan é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura ee 2016”.
Quase ao mesmo tempo, enquanto tempera o almoço e vê a televisão ligada na cozinha no “Encontro com Fátima Bernardes”, Margarida (também jornalista e viajante do mesmo barco de sonhos e projetos existenciais) grita para o gabinete onde busco no computador um tema menos rotineiro para o artigo da semana: “Você já sabe da última, de Bob Dylan?”.
Penso então, com os dedos frenéticos já correndo pelo teclado do PC: mistérios e magia circulam livre e loucamente no ar. Sinto pena dos que não acreditam no peso do imponderável no caminho das pessoas, das coisas, dos países, da humanidade. Constato em seguida que o poeta, músico e líder referencial da cultura e do comportamento da sua geração (a minha também) e de outras seguintes por décadas, 75 anos a caminho dos 76, norte-americano de Minessotta, é o primeiro cantor a receber a distinção, por “ter criado novas expressões poéticas na grande tradição da canção americana”,conforme sintetizou a secretária-permanente da Academia Sueca, Sara Danius, na cerimônia de anuncio da distinção e valiosa premiação, sob todos os aspectos.Em face do espanto, desassossego e até ensaios de vaias ridículas de alguns “jornalistas especializado” diante do fato inesperado e instigante (que profissionais do jornalismo deveriam saudar e acolher com entusiasmo), Sara completou: “Ele (Dylan) pode ser lido e deve ser lido”. E a esplêndida notícia começou a ganhar o planeta inteiro, já nos minutos seguintes.
Embarco então nas asas da memória e vou parar em um banco da Praça da Piedade, em Salvador, vibrante e antenada Cidade da Bahia do começo dos anos 70. Recém casado, de férias do Jornal do Brasil ( onde já chefiava a redação da sucursal na Bahia) – traço com Margarida os últimos detalhes do plano de viagem de lua-de-mel na Califórnia, então em plena revolução da chamada contracultura, tocada por garotos cabeludos e metidos em calças boca de sino (como eu) -, marcada para dali a três dias, com embarque no aeroporto internacional do Rio de Janeiro.
Amar e ser feliz, livremente, ao som e mandamentos das letras das canções de Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones e Victor Jara (proibido pelas ditaduras vigentes na época no Brasil e no Chile), era tudo (ou quase) que eu mais queria. Hospedado na casa da mana Regina (uma romântica advogada recém formada da UFBA) e do compadre chileno Oscar Vallejos, que já moravam por lá. Casados, por procuração, depois do incrível encontro no Farol da Barra, durante uma reunião internacional de hippies realizada na culturalmente efervescente capital baiana de então. Em seguida, o Jumbo da PanAm ( um edifício voador), 18 horas no ar, na rota pela América Central, passando pelo Panamá, Guatemala, México, até chegar aos Estados Unidos pelo portão de entrada de Los Angeles, no aeroporto coalhado de Hare Chrisnas entoando seus salmos. E, após a troca de avião, o vôo para San Francisco, paraíso na terra das composições de Dylan e da revolução da juventude que me fizera ir tão distante.
E as idas a Berkeley e aos recantos e pontos de encontros de sua revolucionária universidade. Regados a conversas livres e libertárias, vinho “y otras cositas mas”, evidentemente, para não caretas do meu tipo. Além da boa comida em lugares onde você poderia se bater a qualquer momento com Angela Davis, Joan Baez ou o próprio Dylan. “E Blowing with the Wind” rolando solta no ar. Mas a história é comprida e não cabe toda neste espaço.
No jornal espanhol El País, em texto denso e brilhante de informação e análise sobre vida e obra do vencedor do Nobel de literatura – intitulado “O belo outono de Dylan”-, Fernando Navarro assinala: “esquivo diante do seu próprio mito e imerso em seu modo de vida totalmente pessoal de entrega à música e à estrada, Bob Dylan chega aos 75 anos, quase mais ativo do que nunca, embora sua obra não reverbere mais na consciência coletiva contemporânea com tanto fervor como em outros tempos.Com a mesma expressão que o acompanha desde os primeiros anos, como quem dois passos à frente ou pelo menos se sabe dono de seus passos e no seu ritmo”. Perfeito!
Sobre que outro músico e poeta, no Brasil ou no mundo, se poderia dizer o mesmo? Responda quem souber.
Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

regina on 15 outubro, 2016 at 10:28 #

Sente-se estranho quando alguém de nossa geração ganha o distinguido prêmio idealizado pelo filantropo sueco Alfred Nobel em uma de suas 5 categorias, ainda mais quando essa decisão quebra as normas e redefine os limites da literatura, quem mais indicado que Bob Dylan, que há uma metade de século chocou o mundo da musica ao empunhar uma guitarra elétrica e sua harmônica alienando os puristas folclóricos e os ritmos blues com sua densa e enigmática poesia nas letra de suas canções?
O trabalho de um laureado com o Premio Nobel da Literatura significa a obra inteira desse escritor, sua mentalidade, seu estilo e sua filosofia, no caso de Dylan, a academia Sueca concede a distinção ao músico “por ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição americana da canção”, Mr. Dylan é, então, o primeiro músico escolhido e talvez a escolha mais radical na historia do premio desde 1901.

Sem dúvida, The Times They Are A-Changing, como ele nos vem avisando desde 1964!!!!!

Come, gather round people wherever you roam
And admit that the waters around you have grown
And accept it that soon you’ll be drenched to the bone
If your time to you is worth saving
Then you’d better start swimming or you’ll sink like a stone
For the times, they are a changing

Come writers and critics who prophesize with your pens
And keep your eyes open, the chance won’t come again
And don’t speak too soon, the wheel’s still in spin
And there’s no telling who that it’s naming
Oh, the loser will be later to win
For the times they are a’changin’

Come senators, congressmen, please head the call
Don’t stand in the doorway, don’t block up the hall
For he that gets hurt will be her that has stalled
There’s a battle outside and it’s ragin’
will soon shake your windows
image: http://static.urx.io/units/web/urx-unit-loader.gif

And rattle your hall
For the times, they are a changing

Come mothers and fathers all over this land
And don’t criticize what you can’t understand
Your sons and your daughter are beyond your command
Your old role is rapidly aging
Please get out of the new one if you can’t lend a hand
For the times they are a changing

The line, it is drawn, the curse, it is cast
The slow one will later be fast
And the present now will soon be the past
The order is rapidly fading
The first one now will later be last
For the times, they are a changing

https://www.youtube.com/watch?v=e7qQ6_RV4VQ


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • outubro 2016
    S T Q Q S S D
    « set   nov »
     12
    3456789
    10111213141516
    17181920212223
    24252627282930
    31